Entrevista - Iolanda Maltarolli: “Educar para libertar”

Pedagoga fundadora da ONG Solar Meninos de Luz oferece ensino integral a 400 alunos

À frente de um projeto que atende mais de 400 crianças e jovens dos morros Pavão-Pavãozinho e Cantagalo há 35 anos, a pedagoga Iolanda Maltarolli é uma defensora ferrenha do ensino integral de qualidade. O trabalho iniciou-se diante de uma das maiores tragédias da favelas: a queda de uma caixa d’água que deixou 12 mortos. A ajuda às famílias mais carentes foi a mola propulsora do trabalho que, expandido, hoje oferece vagas do berçário ao Ensino Médio. O maior desafio, segundo ela, passa longe do tráfico de drogas que dá as cartas por ali. A dificuldade está em conseguir doações para manter o projeto de pé. 

O que te motivou a criar uma ONG com ensino integral para atender moradores do morro Pavão-Pavãozinho? Você já conhecia a favela antes?

Quando o meu trabalho começou, eu já vivia na Rua Sá Ferreira (em Copacabana) há cinco anos. Nunca havia entrado em nenhuma comunidade. Tudo começou há 35 anos, quando ouvi gritos durante a madrugada. A TV noticiou que uma caixa d’água tinha caído e matado 12 pessoas, destruíndo todos os barracos que ficavam na trajetória por onde o objeto passou. Ao chegar na Associação para prestar solidariedade, vi alguns moradores deitados chorando. Eu conversei com um por um, toda aquela turma. Perguntei se queriam que eu fizesse uma prece, e fiz. Atendendo a pedidos deles, voltei no dia seguinte, com meus filhos. Levei donativos e continuaram pedindo que voltássemos. Reuni um grupo de jovens que já eram voluntários num lar espírita que eu frequentava e pedi ajuda. Começamos promovendo recreação com as crianças. Depois de um tempo, nos demos conta de que tinham 125 crianças. Precisávamos fazer algo além daquilo. 

E então, o que foi feito?

Conseguimos construir um prédio de quatro andares, depois de 4 anos e meio. Erguer o prédio foi demorado, porque não existia nenhum recurso sequer.  Mas fizemos muitas parcerias, inclusive  concertos de música clássica, em parceria com a Orquestra Sinfônica Brasileira, para arrecadação de recursos. Nosso objetivo era melhorar a vida daqueles  moradores de alguma forma. Começamos com a creche, só com voluntários. Depois, passamos a oferecer Ensino Fundamental I, até o 5º ano.  Só que os alunos não queriam deixar o Solar e ir para a rede pública de jeito nenhum. Fomos nos esforçando e passamos a oferecer também o Fundamental 2. Na época, o Colégio Cidade nos fornecia os professores através de uma parceria.  Depois, passamos a oferecer também o Ensino Médio. Hoje, atendemos 418 crianças e adolescentes, do berçário ao Ensino Médio, em tempo integral e com diversas atividades extraclasse. Graças ao nosso trabalho, todos  da comunidade nos respeitam muito.

Além do ensino regular, quais as outras aulas que a ONG-Escola Solar Meninos de Luz oferece gratuitamente?

Nossos alunos têm aulas de inglês, sapateado, teatro, todos os tipos de dança que se possa imaginar, informática, aulas de música clássica com a formação de uma orquestra, entre outras... Tudo isso para oferecer uma formação o mais completa possível para os nossos alunos. 

Qual o maior desafio do seu trabalho ao longo  dessas mais de três décadas atuando em uma área sabidamente dominada pelo tráfico de drogas?

O tráfico não nos impede de nada. Pelo contrário. Todos nos respeitam muito. O nosso maior desafio hoje é manter o projeto. É a questão financeira mesmo. A Lei Rouanet é uma grande aliada nossa. Através dela, as empresas podem contribuir com o Solar e receber isenções. Mesmo assim, está cada dia mais difícil conseguir recursos. Nos falta dinheiro para praticamente tudo. Só continuamos porque nós vemos como tarefa profícua promover essa libertação social para eles. O nosso lema é “Educar para libertar”. O importante é que eles consigam chegar a bons empregos, universidades, e saber que podem traçar uma nova realidade. Acreditamos que só a educação liberta. 

No que essa falta de recursos mais impacta o trabalho desenvolvido pelo Solar?

Ainda não pagamos o 13º salário do ano passado aos professores e de alguns funcionários. Vivemos cada dia sob a tensão e sob a tristeza de termos nossos funcionários, alguns da própria comunidade, sem receber tudo o que devemos pagar. Outros  colaboradores, que já são mestres e doutores, mesmo diante das nossas dificuldades, insistem em atuar no Solar. Trabalham conosco por emoção. Podiam estar ganhando muito melhor em outros lugares. Mas dizem que aqui têm mais liberdade para as práticas pedagógicas inovadoras. É assim que nós vivemos. No dia a dia, buscando soluções. Ontem, aconteceu uma coisa que não acontece todo dia. Estávamos ouvindo a apresentação da Orquestra. De repente chegou um senhor, que frequenta a nossa casa espírita Lar Paulo de Tarso, e coloca na minha mão um cheque de R$ 10 mil. Se não tivéssemos esse dinheiro hoje, não teríamos mais comida para fazer para as crianças. Por isso que eu digo que devemos sonhar, aperfeiçoar a prática, e não podemos esquecer de ter fé em Deus. O desafio é imenso, mas acreditamos na importância da educação integral para os nossos queridos da comunidade. Com isso, temos fé e estamos sempre trabalhando para conseguir recursos. Não paramos em nenhum momento, mesmo diante das dificuldades.

Qual a despesa mensal para manter o Solar? Vocês contam com voluntários ou todos os colaboradores são funcionários?

Por mês, a manutenção do Solar gira em torno de R$ 300 mil. Servimos 1.400 refeições, diariamente. Nossos alunos se alimentam três vezes por dia. Para os alunos da creche, a Prefeitura pagava R$ 600, enquanto um estudo da Fundação Getúlio Vargas indica que cada aluno custa R$ 850. Mesmo assim, era uma contribuição importante. No entanto, já vai completar dois meses que a Prefeitura não repassa esse valor. Sobre os voluntários, são essenciais para o Solar se manter de pé, assim como  nossos funcionários - muitos deles moradores da própria comunidade. 

Se você pudesse passar uma mensagem para os leitores, sobre a importância do voluntariado, o que você diria?

Eu peço que nunca deixem de sonhar com uma realidade melhor para todos e nunca deixem de acreditar que o trabalho não é nosso. Acredito que, se fizermos a nossa parte, conseguiremos alcançar os objetivos para os quais viemos. Não podemos ser alheios àqueles que necessitam mais. Temos que nos doar. Aquilo que queremos pra nós devemos querer para os mais carentes. Cada um de nós deve fazer algo em benefício do próximo. Só assim teremos uma sociedade mais justa e igualitária. Nesse contexto, o papel dos voluntários é fundamental. Sem sua ajuda e experiência, não teríamos como ajudar a tantas famílias.