Instituto Pereira Passos lança,hoje, coletânea de textos de Carlos Nelson Ferreira dos Santos

O expediente no Instituto Pereira Passos (IPP) termina mais cedo hoje. O motivo é bem nobre. A partir das 17h, o lançamento de uma coletânea de textos do arquiteto e antropólogo Carlos Nelson Ferreira dos Santos (1943-1989) deve reunir não apenas urbanistas como o autor — que era doutor no assunto —, mas, como ele tanto gostava, uma mistura de pessoas que adoram conversar sobre a cidade, como geógrafos e antropólogos. Antropologia, por sinal era uma das paixões de Carlos Nelson, que, não por acaso, fez seu mestrado no Museu Nacional da UFRJ justamente para se aprofundar nessa ciência. 

A coletânea “Sementes urbanas” (Editora 8) foi organizada pelas professoras Maria de Lourdes Costa e Maria Laís Pereira da Silva, da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). As duas conseguiram reunir em três volumes artigos do arquiteto dispersos em revistas publicadas no país e no exterior. 

Carlos Nelson foi um inovador. Nos anos 1960, como conta Maria Laís, liderou a urbanização da Favela de Brás de Pina, no bairro homônimo, na Zona Norte. Na época, ele assessorava a Federação de Favelas do Estado da Guanabara (Fafeg) com seu escritório e seu grupo de arquitetura, o Quadra. A partir da Fafeg, foi chamado para fazer um plano de urbanização para a comunidade na qual o poder público já provocara a remoção de parte dos moradores. No meio da primeiro levantamento para um plano, surgiu, criada pelo governo do estado, a Companhia de Desenvolvimento de Comunidade (Codesco), com recursos para viabilizar o plano. À época, isso foi um importante contraponto à política remocionista do Banco Nacional de Habitação (BNH). “Utilizando-se de desenhos de casas traçados pelos próprios moradores, com tipos de casas feitas à base da autoconstrução, ele e seu grupo trabalharam o tempo todo ouvindo as ideias das famílias que lá residiam. A área da favela foi dividida em lotes. Os materiais de construção das casas das famílias eram levados para o único terreno vazio, fruto justamente do princípio de remoção, contra a qual elas se insurgiram”, detalha Maria Laís. Em cada lote, ele e sua equipe fizeram o projeto com toda a infraestrutura necessária, como arruamento, definição de espaços entre as casas, as redes de água e esgoto. “Quando tudo isso estava pronto, a casa era remontada com a visão arquitetônica não só dos profissionais da Quadra e da Codesco, liderados por Carlos Nelson, como também dos próprios moradores, que haviam erguido suas residências no braço”, conta Laís. 

A experiência entrou para a história da arquitetura e influenciou programas de urbanização como o Favela-Bairro. Mas, como ressalta o antropólogo Marco Antônio Mello, o arquiteto foi bem além do projeto de Brás de Pina. “Sua passagem nos anos 1970 como coordenador do Centro de Pesquisas Urbanas (CPU) do Ibam (Instituto Brasileiro de Administração Municipal) tornou possível um tipo de pesquisa urbana no Brasil absolutamente inédita. Ninguém como Carlos Nelson articulou com tamanha força diferentes registros de exercício de pesquisas empíricas, nas quais incendiava a interlocução entre arquitetos, geógrafos economistas, advogados, antropólogos e sociólogos, entre outros”, avalia Mello, coordenador do Laboratório de Etnografia Metropolitana da UFRJ, ressaltando que Carlos Nelson deu como professor uma dinâmica arrebatadora à Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). 

A professora Maria de Lourdes diz que Carlos Nelson militou de forma decisiva nos campos do planejamento urbano, do urbanismo, da habitação e da urbanização de favelas: “Sua trajetória foi sempre em favor dos pobres e das periferias, ouvindo-os em suas reivindicações, partilhando soluções em planos e projetos, criticando preconceitos, segregações de qualquer natureza e ações insensatas de poderosos, de procedências pública e privada”. Com boa parte de sua obra escrita à disposição, Carlos Nelson se faz cada vez mais presente.

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