Dados do Instituto de Segurança Pública revelam que a insegurança do carioca se traduz em números 

Mesmo sob intervenção das forças militares federais durante a segunda metade do mês de fevereiro, o Estado do Rio de Janeiro viu alguns índices de violência, como o de roubos de rua (que incluem os roubos a pedestre, ônibus e de celular), crescerem em comparação com o mesmo período dos anos passado e retrasado, aumentando a sensação de insegurança da população. Comparando-se fevereiro deste ano com o mesmo mês nos dois anos anteriores, observa-se um incremento de 509 novos casos deste tipo de crime — o que equivale a um aumento de 5,11%. Para especialistas, o crescimento desse índice  está diretamente atrelado à estratégia da Secretaria de Segurança Pública de privilegiar as operações policiais em favelas em detrimento do patrulhamento preventivo, pelas ruas da cidade.  

Ainda segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) divulgados na segunda-feira, houve aumento de 11,8% no número de ocorrências de roubos de veículos e de 19,5% no roubo de cargas, cotejando-se o mês de fevereiro de 2016 com o mesmo período deste ano. No tocante às estatísticas de letalidade violenta, apesar da queda de 13,1% de homicídios registrados no estado, a quantidade de mortes decorrentes de oposição à intervenção policial — como passaram a ser chamados os autos de resistência — cresceu 17,6%. 

“Nesse início de ano, a despeito da intervenção federal, não há razão para a população se sentir mais segura”, opina o sociólogo João Trajano Sento Sé, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV/Uerj). 

Para o coronel Robson Rodrigues, ex-chefe do Estado Maior da Polícia Militar do Rio e doutorando em Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense (UFF), as quadrilhas vêm se aproveitando da diminuição do policiamento nas ruas. Entre os três tipos de crime que, somados, determinaram o crescimento do roubo de rua, está o roubo de celulares, o preferido dos bandidos. Houve 1.376 casos em 2016, contra 2.157 registros em fevereiro deste ano. O acréscimo de 781 ocorrências equivale a um aumento de 56,75 %. Os roubos nos ônibus também se intensificaram, passando de 813 registros em fevereiro de 2016 para 1.016 casos no mesmo período deste ano.  

Já os roubos a pedestres, aqueles que não incluem aparelhos celulares, tiveram redução de 6,12% dos casos, comparando fevereiro de 2016 com o mesmo período deste ano. O percentual equivale a 475 ocorrências a menos. 

“O celular é um bem de valor, por isso sua procura maior pelas quadrilhas. Esses roubos de rua refletem diretamente na percepção de violência pela população. O que percebemos é o esgotamento dos recursos, já escassos, para o patrulhamento das ruas. A prioridade vem sendo as operações policiais, sem inteligência. É preciso reduzir as operações e colocar mais homens na rua”, aponta Rodrigues. 

Para ele, as operações não vêm surtindo efeito contra o crime organizado porque a inteligência é falha, e a redução de 13,1% nos casos de homicídios dolosos, comparando-se os meses de fevereiro deste ano  com o ano passado, deve levar em consideração o aumento de 17,6% das mortes decorrentes de oposição à intervenção policial. 

“Não há operações que tenham obtido resultados efetivos. A consequência disso é a cidade apavorada. As pessoas se privam de frequentar determinados espaços, porque a polícia não está na rua. Para reduzir  estes crimes, a polícia recisa estar na rua”, diz. “O aumento dos autos de resistência está atrelado ao aumento de operações policiais. Mas as  ações não têm impactado o crime, porque para isso é fundamental ter inteligência”, aponta o coronel reformado. 

Intervenção federal 

Uma semana após a vistoria de militares do Grupo de Intervenção Federal das Forças Armadas, com apoio de servidores da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), ter apreendido apenas um celular e ventiladores velhos na Penitenciária Gabriel Ferreira Castilho, mais conhecida como Bangu 3, 120 inspetores de segurança e administração penitenciária, incluindo o Grupamento de Intervenção Tática e o Grupamento Operações com Cães, tiveram mais sorte na varredura realizada ontem, quando encontraram 26 aparelhos celulares e dois roteadores que distribuem sinal de internet. A penitenciária abriga os principais líderes da maior facção criminosa do Rio, que não foram transferidos para presídios federais fora do estado por decisão da Justiça. A ação terminou pouco depois das 14h.

De acordo com o secretário de Administração Penitenciária, David Anthony Gonçalves Alves, “as fiscalizações nas unidades prisionais sempre vão ocorrer de forma sistemática e aleatória”. 

Ontem de manhã, soldados das Forças Armadas  ampliaram o raio de ação no patrulhamento das ruas da cidade, chegando à Praça Saens Peña, na Tijuca. Novamente, a tática foi a de não informar previamente onde se concentrariam nem ficar parado, sob a justificativa de não atrapalhar a eficácia das incursões. Cerca de duas horas depois, saíram de lá em direção à Zona Sul, onde foram vistos na orla de Copacabana e na Praia de Botafogo.

 Nesta terça-feira, o Gabinete de Intervenção Federal anunciou também o início do curso de reciclagem para PMs, batizado com o nome de Estágio de Aplicações Táticas. As aulas práticas e teóricas são ministradas a instrutores da corporação, que funcionarão como multiplicadores das técnicas aprendidas. Vinte instrutores estão participando dessa primeira turma, que transmitirá seus conhecimentos a PMs do 14º BPM (Bangu) na semana que vem. (Com Agência Brasil)

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