Exército oferece seis veículos blindados, enquanto favelados reclamam por direitos humanos

A nova ação da intervenção militar no Rio com o intuito de passar uma sensação de segurança é a do Exército entregar veículos blindados à Polícia Militar e Polícia Civil. O interventor federal, general Walter Braga Netto, espraia pelas ruas da cidade mais equipamentos de guerra, tão traumáticos para quem vive nas áreas mais pobres do Rio. Pesquisa em cinco comunidades —  realizada pela Universidade de Stanford, pela ONG Redes Maré e pelo Observatório das Favelas — revela que boa parte dos moradores da Maré, Rocinha, Providência e Cidade de Deus e do Batan quer, sim, a presença da polícia, mas para oferecer literalmente segurança pública, e não mais violência com trocas de tiros e acordos espúrios de oficiais com o crime organizado. 

Não à toa, o general Braga Netto disse ontem que o foco principal da intervenção é o de disciplinar a Polícia Militar. Terá trabalho pela frente, vide a megaoperação de terça-feira, no Complexo do Lins, que vazou, segundo relato de moradores. 

“Nossa pesquisa demonstrou que os habitantes desses lugares querem, sim, policiamento, mas com objetivo de proteger essas localidades, não de expô-las como alvo em troca de tiros e com violações de direitos humanos”, disse a pesquisadora mexicana Beatriz Magaloni, do Laboratório de Pobreza e Governança da universidade californiana. 

A pesquisa é ampla. Mais de 6 mil pessoas foram ouvidas nas seis comunidades. Dos moradores do Batan, da Cidade de Deus, da Providência e da Rocinha, em que foram instaladas Unidades de Polícia Pacificadores (UPPs), apenas 15% declararam que gostariam que a UPP deixasse suas comunidades; 46% responderam que preferiam sua manutenção; e 38% disseram “em parte”. 

A pesquisa expõe, com crueza, como a relação da Polícia Militar com os moradores está longe de ser algo ao menos razoável. Embora a maioria deseje a manutenção da UPP, apenas no Batan, onde o problema maior é a milícia e não o tráfico, 60% dos entrevistados creem que a UPP foi uma ação positiva. Já na Rocinha esse número cai para 40%. Na Providência e na Cidade de Deus, 20% e 30%, respectivamente, dizem que a UPP tem um saldo positivo. 

Se depender atualmente da intervenção militar, tais percentuais devem cair ainda mais. Ontem, ao sair de um almoço com empresários da Associação Comercial do Rio, o general Braga Netto disse que o medo assombra o Rio. “Minha tropa está na rua não porque os índices (de violência) estão aumentando, mas porque a sensação de segurança não voltou. Por isso estou botando o pessoal na rua”. 

A falta de confiança na ação policial demonstra que nas favelas a sensação de insegurança não vem de hoje. Ao serem perguntados se a corrupção policial aumentou, diminuiu ou permaneceu a mesma, as respostas foram as seguintes: no Batan, 54% dos entrevistados disseram que aumentou; na Cidade de Deus, 67% disseram que nada mudou, assim como para 64% dos moradores da Providência e 54% da Rocinha. 

Uma das conclusões da pesquisa é a de que a abordagem policial frequentemente viola direitos humanos. Isso, segundo o estudo, fragiliza ainda mais a legitimidade da polícia e, para alguns moradores, enfatiza que traficantes respeitam e defendem mais a comunidade. Assim, a polícia insinua que moradores estão vinculados ao tráfico e são inimigos do Estado.

 O trabalho traz ainda o segmento mais exposto a ser vítima da polícia. Trata-se do jovem entre 14 e 25 anos com baixa escolaridade. “Políticas públicas voltadas à educação trariam enorme proteção a esses garotos”, disse Jailson de Souza, do Observatório das Favelas.