Frequentadores do Bip Bip fazem ato de repúdio após homenagem a Marielle ser interrompida 

Frequentadores do bar Bip-Bip, um dos mais tradicionais botequins da cidade e endereço certo para quem gosta de samba, choro e bossa nova (veja abaixo), promoveram um ato de solidariedade ao proprietário, Alfredo Jacinto Mello, popularmente conhecido como Alfredinho. Na madrugada de domingo para segunda, ele foi levado à 14ª Delegacia, sob queixa do policial rodoviário federal Haroldo Ramos de Souza, que dizia ter sido agredido por um dos frequentadores. O delegado de plantão registrou a queixa, e Alfredinho tornou-se testemunha do incidente, embora não tenha visto nada, como relataram frequentadores assíduos nas redes sociais, alguns deles ouvidos pelo JORNAL DO BRASIL. 

O incidente começou quando, durante a roda de samba dominical, por volta das 22h, Alfredinho pediu a palavra, como sempre faz nessas ocasiões. Daquela vez, convocou todos os presentes para o ato interreligioso marcado para hoje, às 19h, na Cinelândia, em homenagem a Marielle Franco e Anderson Gomes, assassinados na quarta-feira passada. 

Ao mencionar o evento, o proprietário do bar teria, em seguida, pedido um minuto de silêncio, no que foi interrompido por um dos frequentadores, que reclamou não haver também manifestações pelos policiais que morriam em conflitos. Era o policial rodoviário Haroldo Ramos de Souza, que também bebia no bar. 

“Ele parecia estar alterado, não deixava mais ninguém falar. Nós, músicos, queríamos voltar a tocar e ele não deixava. Foi levado para fora, foi para casa e, dali a uns 30 minutos, retornou e disse que estava armado. Nesse momento, eu liguei para o 190, da Polícia Militar”, contou ao JB um dos músicos participante das rodas, que, embora não tenha presenciado a cena, soube que Souza teria mesmo sido agredido, ao ser puxado para fora do bar. 

A PM chegou ao local e abordou Souza, que teria respondido com rispidez, acionando, então, a própria Polícia Rodoviária Federal, da qual faz parte. 

“Ele ameaçava todo mundo, estava mesmo alterado. Depois que a Polícia Rodoviária Federal chegou, insistiu em ir para a delegacia registrar a queixa de agressão. Boa parte de nós, que ainda estava ali, seguiu com o Alfredo por um verdadeiro périplo pelas delegacias, até que chegamos à 14ª, onde a queixa foi registrada”, conta o músico Ary Miranda. 

“Eu estava lá e acompanhei tudo. O fascista começou a gritar sem parar, acabou com o samba, foi vaiado. Continuou gritando, violento e agressivo”, revela a instrumentista Cristina Bhering.

Pelas redes sociais, o intrumentista Silvério Pontes declarou: “Absurdo, tudo isso! Quem conhece o Alfredinho sabe que é um querido e generoso”. O ator Michel Melamed disse simplesmente: “Vergonha”. 

Rodrigo Mondego, advogado que acompanhou Alfredinho até a delegacia, relatou que foi impedido de representar o amigo: “o delegado não quis me receber na condição de advogado e apenas colocou o agente da PRF como vítima de lesão corporal e o Afredinho como testemunha (de algo que ele não viu)”. 

Alfredinho agradeceu a solidariedade de todos. “Eu me emocionei com os telefonemas que recebi, inclusive de fora do Rio”, contou. Em meio às ligações que continuou atendendo no bar, pediu silêncio  para que os músicos começassem a tocar, e eles executaram o choro “Doce de coco”, de Jacob do Bandolim”, devolvendo o sorriso ao amigo querido.

O JORNAL DO BRASIL entrou em contato com a Polícia Civil, mas não recebeu informações sobre o registro da ocorrência na 14ª DP, até o fechamento desta edição. 

Por sua vez, a Polícia Rodoviária Federal informou, por nota, que “não houve nenhum registro de comportamento que configure desvio de conduta funcional”. Contudo, a PRF também disse que sua corregedoria abriu uma investigação preliminar para apurar os fatos relacionados à conduta do servidor.  

Padre xingado 

No mesmo domingo do incidente no Bip-Bip, durante missa na Paróquia da Ressurreição, o padre Mário de França Miranda, ao citar Martin Luther King e Marielle Franco, foi xingado de “padre f.d.p.” por dois homens que se encontravam no fundo da igreja.

MEMÓRIA

Samba e resistência *

Tudo começou com uma esquina.  A da Rua Almirante Gonçalves com Av. Atlântica, onde morava Dona Maria Amélia, mãe de Chico e Cristina Buarque de Holanda. Músicos, alguns dos maiores instrumentistas do samba carioca, costumavam aguardar os irmãos num boteco da praça, fundado em  1968 com um nome esquisito: Bip-Bip, uma homenagem dos primeiros donos ao satélite soviético Sputnik. Em 1984, o ponto foi comprado por Alfredo Jacinto Mello, mais conhecido como Alfredinho Neném, o mais improvável dono de bar que já existiu na história da cidade, que começou a promover ali rodas de samba e choro. 

Os músicos tocam de graça. Não existem garçons, porque o gerente, único empregado e patrão, é ele, Alfredinho, que só costuma levantar de sua mesa para encher o copo ou usar o vozeirão para dar um belo de um esporro naqueles que estão falando alto e "atrapalhando" os músicos. Cada cliente se serve sozinho: abre a geladeira e recolhe o que mais gosta, passa na porta e deixa nome e consumação no livro-caixa remendado de Alfredinho. Na hora de sair, o cliente paga, por iniciativa própria, os preços honestíssimos. O latão para as doações está sempre à vista e frequentemente incrementado. 

Aos poucos, o Bip foi se consolidando como um point do melhor samba da cidade e também da turma da esquerda. No Natal tem ceia para os pobres, servida pelos clientes mais chegados. Num dos casos mais clássicos, um casal de paulistanos ultragrifados veio chegando e perguntou se aquela esculhambação era mesmo o famoso Bip. Depois de estranhar o esquema de "selfservice" da cerveja, perguntaram a Alfredinho o que tinha para comer: "queijo ou salaminho", respondeu ele. A dupla pediu queijo e levou um susto com a reação do dono do bar. "Vocês querem me F*, agora vou perder a música para ir lá dentro cortar essa m*".

* Jan Theophilo