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UFRJ: histórico de incêndios é reflexo de precarização e corte de verba

Prédio das Faculdades de Arquitetura e Belas Artes permanece sem obras

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Em menos de um ano, dois incêndios atingiram a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O primeiro foi no oitavo andar do edifício que abrigava a própria reitoria, designado para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), e emprestado à Escola de Belas Artes (EBA), também localizado na Ilha do Fundão. O segundo foi semana passada, no alojamento estudantil. Os dois casos não são encarados apenas como uma coincidência: a falta de verbas e a precarização podem estar por trás das chamas.

O caso no edifício que abrigava a reitoria ocorreu em setembro do ano passado. Segundo o Corpo de Bombeiros, o incêndio foi de grandes proporções, porém não deixou vítimas. As chamas atingiram as salas da Pró-Reitoria de Gestão e Governança e parcialmente as Pró-Reitorias de Finanças e Pessoal, causando uma perda de 35 anos de memória em eventos realizados pelo setor.  

>> UFRJ: vítimas de incêndio no alojamento estudantil ainda tentam apagar 'chamas'

“A UFRJ tem vários prédios antigos. No ano passado, a universidade já tinha informado ao MEC [Ministério da Educação] a realidade de vários edifícios que precisavam de uma atualização, inclusive a residência estudantil. O MEC na época atendeu a reivindicação mais emergencial, que era com relação ao prédio da reitoria, até o momento incompleto”, informou a reitoria. 

Na época, o Centro Acadêmico da FAU (Cafau) se posicionou veemente contra as políticas de ajuste fiscal e cortes de verbas que acentuam ainda mais a precarização dos serviços públicos. Membro do grupo, Lara Liberatto disse que apesar de entender que a crise financeira é uma conjuntura nacional, os cursos de Arquitetura e Belas Artes estão “extremamente prejudicados”. 

“Estamos presos àquele prédio por conta das especificidades dos cursos. Estamos, literalmente, sem saber o que esperar. O alojamento da UFRJ, que também pegou fogo, gira em torno do mesmo eixo, que é essa questão de incêndios em prédios sucateados e antigos”, concluiu a estudante.

O edifício foi temporariamente interditado para realização de perícia, e teve aulas e processos administrativos interrompidos durante meses. Hoje, o prédio mantém um funcionamento parcial até o quarto andar, distribuindo o restante de aulas pelos prédios da Faculdade de Letras e Centro de Tecnologia, também no Fundão. 

A reitoria prevê que a liberação de recursos e andamento normal das aulas sejam regularizados até o final do ano. “O cenário da UFRJ hoje é de déficit orçamentário em 115 milhões de reais”, informou em nota. 

Apesar dos esforços, as aulas em espaços pulverizados há quase um ano, e com o prédio sofrendo ainda a precariedade de um funcionamento adequado às aulas, afetam diversos alunos, entre eles Maria Fernanda Tinoco Fernandez, do sétimo período de Arquitetura e Urbanismo, e cadeirante. 

“Desde que eu retornei à faculdade só tinha um elevador funcionando, que era de carga. Ou seja, ele precisa de um funcionário para funcionar. Depois de um tempo, nem isso estava funcionando, porque faltou luz no prédio. Eu não tinha condição de assistir à aula, e quando pedia transferência para o térreo, me sentia como se estivesse incomodando à turma e ao professor”, relatou a estudante, completando: “Me sinto impotente e humilhada. A universidade não tem preparo nenhum, e isso em se tratando de um curso de arquitetura. Agora que eu faço matéria de projeto, as pessoas olham para mim e falam, ‘não esquece a acessibilidade’, só que isso deve ter sempre, e não só quando houver alguém naquela condição”. 

A reitoria argumentou que a universidade possui uma Divisão de Inclusão, Acessibilidade e Assuntos Comunitários (DIAAC), e está trabalhando na volta do funcionamento dos elevadores. 

“O incêndio afeta principalmente os andares de salas de aula. O prédio inteiro precisa de uma reforma geral, e isso demanda recurso, coisa que eu não sei mais se um dia teremos. Estamos refugiados dentro do campus, distribuídos na faculdade de letras e algumas aulas no CT”, lamentou o professor de Belas Artes, Carlos Azambuja. 

Carlos lembra que sem verbas do governo federal, um dos primeiros serviços prejudicados serão os funcionários terceirizados. “E sem eles, a universidade não funciona”, acrescentou.

“Apesar de tudo, estamos nos mantendo firmes. O semestre está acabando, e já vamos voltar no dia 28 de agosto”, disse o diretor da Faculdade de Belas Artes Carlos Terra, completando: “Não há dúvida quanto à falta de recursos. O incêndio foi uma consequência, mas o prédio vem se deteriorando desde a década de 1950 quando foi construído. Uma vez, a cerâmica da parede se desprendeu na cabeça de um aluno. Mas isso é o próprio movimento do prédio, porque não houve uma manutenção”, explicou. 

Corte de Verbas

Sem a integralização de 100% do orçamento de custeio e capital, acrescido de recursos extraorçamentários para fazer frente às perdas, a qualidade da formação na graduação e na pós-graduação, as relevantes atividades de pesquisa e de extensão podem ser severamente comprometidas. Entre as perdas está o aumento nos custos anuais, principalmente em energia – que a universidade estima em R$ 20 milhões no ano de 2015.

“Tornamos pública a extrema preocupação com a queda acentuada dos recursos de pesquisa sob responsabilidade do MCTIC [Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações], correspondentes, em 2017, a apenas 25% dos praticados nos anos anteriores, o mesmo acontecendo com as verbas da Capes, inestimáveis para o desenvolvimento da pós-graduação, e do Minc, para as áreas de arte e cultura”, diz a nota dos decanos e diretores da instituição.

Com o contingenciamento de verbas, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) passa por dificuldades para cumprir os compromissos até o final do ano. A autarquia, que financia estudos e pesquisas de milhares bolsistas brasileiros, tem recursos suficientes para pagar as bolsas apenas até este mês. Entretanto, o Conselho precisa de R$ 505 milhões para fechar as contas.

A questão foi assunto na semana passada na reunião do Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação (Consecti). Os secretários estaduais presentes manifestaram preocupação com o CNPq, que segundo o presidente Mario Neto, financia estudos e pesquisas de cerca de 100 mil bolsistas brasileiros.

No site da UFRJ, a instituição afirma que, se houver mais cortes, "ao todo, 24 modalidades de financiamento ficariam comprometidas, somando 3.596 bolsas. As áreas mais impactadas seriam produtividade em pesquisa (930 bolsas), doutorado (837), graduação (aproximadamente 700) e mestrado (562)".

Leila Rodrigues da Silva, pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da universidade não poupou críticas: “A pesquisa no país fica comprometida. Em muitas áreas, significa a perda total de tudo o que foi produzido até o momento. Um aluno da pós-graduação que deixa de receber sua bolsa tem grandes chances de interromper seu trabalho. É dinheiro público jogado fora”.

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Campanha

Eleita a melhor universidade do Brasil, segundo o ranking publicado em setembro do ano passado pelo jornal Folha de S. Paulo (RUF), a UFRJ superou a Universidade de São Paulo (USP) - líder há anos da lista. Cientistas e professores da Federal do Rio montaram, no campus da Praia Vermelha, um contador digital inédito no país denominado 'tesourômetro' com o objetivo de revelar ao público, minuto a minuto, as perdas do financiamento federal voltado para as áreas de ciência e tecnologia, nos anos de 2016 e 2017, em relação a 2015. 

A inauguração do painel em junho deste ano marcou o lançamento da campanha ‘Conhecimento Sem Cortes’, promovida por professores universitários, cientistas, estudantes, pesquisadores e técnicos em oposição à redução dos investimentos federais nas áreas de ciência, tecnologia e humanidades e ao sucateamento das universidades públicas e dos institutos de pesquisa no Brasil.

A presidente da Associação dos Docentes da UFRJ (Adufrj), Tatiane Roque vem afirmando que o setor de ciência e tecnologia do país perde cerca de R$ 500 mil por hora em investimentos federais desde 2015.