No Rio, pais de jovens assassinados em Costa Barros protestam um ano após crime

Foi através de uma das 63 perfurações de fuzis na lataria do carro, que Adriana Pires da Silva viu o corpo do filho, no banco de trás do veículo. Há um ano, 11 dos 111 disparos efetuados por policiais militares atingiram Carlos Eduardo Silva de Souza, de 16 anos. A mãe não suportou olhar para ele e os quatro amigos mortos. Eles haviam saído para comemorar o primeiro emprego de um deles e foram fuzilados em Costa Barros, na zona norte do Rio, após um passeio no Parque Madureira.

"Foi o pior dia da minha vida. Tenho 37 anos e acho que não tem dia pior do que aquele, nem nunca vai ter", disse Adriana, enquanto protestava hoje (28), contra o crime, na frente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Os pais das vítimas de Costa Barros se reuniram e pediram que a morte de seus filhos não seja esquecida nem fique impune, bem como a de outras pessoas, em que a ação de policiais militares é investigada.

Além de Carlos Eduardo, naquele dia foram assassinados Wesley Castro Rodrigues, 25 anos, Roberto de Souza Penha, 16 anos, Wilton Esteves Domingos Júnior, 20 anos, e Cleiton Corrêa de Souza, 18 anos. Os policiais Thiago Resende Viana Barbosa, Márcio Darcy Alves dos Santos, Antônio Carlos Gonçalves Filho e Fábio Pizza Oliveira da Silva foram presos no dia seguinte ao crime e respondem pelo processo, que ainda não teve uma sentença.

Adriana conta que pensou em se suicidar e chegou perto de conseguir, como na vez em que foi para Copacabana de metrô e sentou na areia, esperando o momento em que a praia ficasse vazia o suficiente para que ninguém a salvasse do mar. "Eu não acreditava mais na vida. De uma certa forma, eu desisti da vida. Só queria morrer e maquinava como eu queria morrer", contou, que recuperou as forças pensando na filha mais nova, de 6 anos.

Quem havia começado a trabalhar era Roberto Souza Penha, de 16 anos, filho de Jorge Roberto Lima da Penha. O pai conta que era divorciado da mãe de Roberto, mas acompanhou o quadro depressivo de sua ex-mulher se agravar até que, em agosto deste ano, ela morreu.

"Nosso movimento é contra a morosidade do Judiciário. Já faz um ano", criticou. "Os familiares e a sociedade estão esperando a sentença condenatória."

Jorge Roberto, Adriana e outras mães de jovens assassinados dividiram sua dor com quem passava na rua e pediram que a Justiça não deixe os crimes sem punição. Eles exibiram faixas com nomes e fotos dos jovens e também usaram uma bandeira do Brasil com perfurações para lembrar a violência cometida com armas de fogo.

Solidariedade

O pai de Roberto destacou a importância de os familiares de vítimas se unirem para cobrar justiça. Na porta do TJ, eles se abraçaram depois de cada fala de protesto e mencionaram os filhos de todos, ao cobrar punição. "Temos que manter contato no dia a dia. Nossa dor é a mesma, a dor de quem perde um filho é a mesma".

Terezinha Maria de Jesus, moradora do Complexo do Alemão, era uma das mães que prestavam solidariedade aos pais de Costa Barros e protestavam contra a violência. Seu filho, de 10 anos, foi assassinado por policiais em abril de 2015 e a investigação da Polícia Civil chegou a considerar a morte como legítima defesa. O caso ainda está em julgamento no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

"Vim hoje apoiar as mães que carregam a mesma dor que eu carrego e também para lutar por justiça para o meu filho, porque o caso do meu filho não pode ficar impune", disse Terezinha. "A gente dá força uma para a outra. Apoiando uma a outra a gente tem força."