Como Crivella e Freixo vão conquistar o eleitorado indeciso na reta final da eleição

Especialistas analisam a migração de votos e a tentativa de atrair quem se absteve

Segundo a primeira pesquisa de intenção de voto para a Prefeitura do Rio de Janeiro neste segundo turno, divulgada pelo Instituto Datafolha nesta quinta-feira (6), o candidato Marcelo Crivella (PRB) lidera a corrida com 44%, enquanto Marcelo Freixo (Psol) vem em segundo, com 27%. Além disso, entre os eleitores que votaram em Pedro Paulo (PMDB) no primeiro turno, 33% dizem que agora, no segundo turno, vão votar em Crivella, e 21%, em Freixo. O índice total de brancos e nulos na pesquisa também é notável: 18%. Os indecisos somam 10%.

Entre os eleitores de Pedro Paulo, 28% devem votar em branco ou anular, enquanto 18% estão indecisos. Para o professor de Ciência Política da Unirio Guilherme Simões Reis, os números revelam que não há um candidato natural para a transferência dos votos do ex-candidato, apesar da vantagem de Crivella. Isso se daria pelo fato de as duas candidaturas terem feito forte oposição à atual gestão no primeiro turno, sendo duras nos ataques ao Pedro Paulo durante a campanha.

Mas este não é o único fator que influencia a migração de votos, segundo o professor. “Me parece ser o esperado que o eleitor do PMDB, ao mesmo tempo pouco ideológico e muito satisfeito com o governo Eduardo Paes, tenha grande parcela de indecisos, nulos, e pouca vantagem de migração de votos em favor do Crivella no segundo turno”, afirmou Guilherme.

O sociólogo e pesquisador colaborador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ, Marcelo Castañeda, considera o posicionamento do PMDB fundamental nesta etapa da campanha. “O Crivella vai cortejar muito a Rosa Fernandes. Ela foi a vereadora mais votada nas eleições anteriores, e é membro forte do PMDB do Rio.” Por outro lado, o sociólogo levanta um artigo do jornalista Elio Gaspari para a “Folha de S.Paulo”, onde ele aponta o apoio de uma família importante do PMDB do Rio ao candidato Marcelo Freixo, com a justificativa de uma pretensa fraqueza de um eventual mandato do Psol, sendo facilmente substituível em 2020.

Os votos brancos, nulos e indecisos somaram 28% na pesquisa. Para o professor da Unirio, o motivo para isso - além da pouca migração dos votos de Pedro Paulo - é o fato de nenhum dos dois candidatos terem grande apelo para uma fatia considerável dos eleitores de Índio da Costa (PSD) e Osorio (PSDB). “Freixo é muito identificado com a esquerda, tanto em relação à economia como em relação aos costumes, para parte do eleitorado conservador. Crivella faz, há várias eleições, um esforço de se descolar a imagem de misturar política e religião, uma vez que já tem forte apoio no segmento religioso e precisa ganhar votos do eleitor mediano.”

O professor ressaltou que esta estratégia funcionou no primeiro turno, mas teria limites. “Não é por acaso que os adversários o chamam de ‘bispo’ nos debates. Parte do eleitorado tem aversão à ideia de um prefeito com vínculo tão estreito com uma igreja evangélica”, explicou.

Já para o professor de Ciência Política da UFRJ Valter Duarte Ferreira Filho, grande parte dos votos de migração devem ir para Crivella. “Não há muita dificuldade de ver que há uma polarização entre esquerda e direita no Rio. Dessa forma, com o eleitorado dos candidatos mais votados se identificando com a direita, acho que Crivella ganha, a não ser que haja um grande acontecimento para mudar o resultado. O Freixo não faz um tipo que ganha uma eleição majoritária, não faz o tipo de líder.”

Para o professor, o candidato do Psol não deve conquistar mais do que 25% a 30% dos votos. “Crivella é bom comunicador, inteligente. Não estou considerando sua posição política, mas a serenidade com que ele argumenta. Ele tem bom preparo para a política. Sabe usar os dados mesmo que sejam contra ele” concluiu.

Flávio Bolsonaro (PSC) ficou em quarto no primeiro turno, com mais de 400 mil votos. Segundo a pesquisa do Datafolha, 69% desse eleitorado deve votar no Crivella e apenas 5% no Freixo. O professor Guilherme crê que essa rejeição ao candidato do Psol é decisiva, e que a proximidade do candidato do PSC com Crivella é fundamental. "Há proximidade entre eles em questões como a visão patriarcal e heteronormativa de sociedade. Em dois debates televisivos, inclusive, Bolsonaro fez a mesma pergunta para Crivella sobre sua visão de família. O que inusitadamente foi, talvez, a única dificuldade enfrentada pelo candidato do PRB”.

Segundo o professor, a pergunta, apesar de beneficiar Bolsonaro com seu eleitorado mais extremista, prejudicou Crivella. “Ele já tem apoio no segmento religioso mas busca se deslocar dessa imagem para aumentar a abrangência de sua votação e vencer a eleição majoritária. Crivella concordou com Bolsonaro nas duas vezes, pois não pode desagradar seu eleitorado cativo, mas essa pergunta vai contra a sua estratégia”, afirmou.

Fator Índio da Costa

Índio da Costa se vendeu em sua campanha como um candidato progressista, com ideias diferentes e modernas. Seu discurso sobre renovação e juventude estaria naturalmente mais associado ao Freixo, mas 33% de seus quase 300 mil eleitores declararam voto ao Crivella, contra 26% do candidato do Psol.

Segundo o professor Guilherme, outros fatores podem explicar o fenômeno. “Pode ser que a trajetória do Índio, sempre na direita, inclusive como vice do José Serra (PSDB) na eleição presidencial de 2010, tenha tido um peso maior para o seu eleitorado do que sua campanha moderna esteja sugerindo”, detalhou o professor da Unirio.

Ele também acredita que o alto número de abstenções no primeiro turno deve aumentar. “Isso é uma vantagem enorme para Crivella, que larga na frente e pega a maior parte dos votos do Bolsonaro. Com a redução dos votos válidos, isso basicamente assegura a vitória dele. A maior parte de quem apoiava Jandira já migrou para Freixo ainda no primeiro turno, e isso foi decisivo para que ele passasse. Os eleitores dos demais candidatos tendem a se dividir mais e a anular em grande quantidade.”

De acordo com o professor, para Freixo resta a dificílima tarefa de fazer votar o eleitorado desencantado que se absteve no primeiro turno. “E ele precisa fazer isso basicamente tratando de questões locais, sem nacionalizar o debate, o que também não interessa a Crivella. Não pode desagradar nem o eleitor da Jandira Feghali atacando PT e PCdoB, nem com críticas contra o golpe, afugentar a parcela de eleitores do Psol que não é de esquerda e tem perfil conservador moralista e antipetista”, concluiu.

Para professor da Uerj, disputa pelo segundo turno está totalmente em aberto

Pesquisas não são tão exatas quanto parecem. É o que diz Marcelo Castañeda. O sociólogo, especializado em análises quantitativas e sobre a crise de representatividade política faz uma crítica à ciência política por só considerar o voto válido e por não levar alguns pontos importantes em consideração. Segundo ele, a crise de representatividade não é evidenciada apenas na abstenção do eleitorado - 24,28% não compareceram às urnas - mas sim por um descolamento da sociedade com o sistema político.

“Nosso desafio é criar pontes de aproximação entre povo e governo. As próprias eleições devem ser questionadas, não necessariamente do ponto de vista anarquista, mas do funcionamento do sistema em si”, explica Castañeda, que ressalta a PEC 36/2016 como um exemplo do problema. O projeto, de autoria dos senadores Ricardo Ferraço (PSDB-ES) e Aécio Neves (PSDB-MG), estabelece critérios de desempenho para que partidos possam ter representação no Poder Legislativo. O projeto passou pela quinta sessão de discussão no Congresso nesta quarta-feira (5).

Para o pesquisador, os institutos de pesquisa foram muito equivocados durante o primeiro turno. “O Crivella estava muito na frente, em algumas pesquisas com 35% das intenções de voto, mas recebeu só 27% nas eleições. O que motiva essa discrepância?”. Para ele, as pesquisas estabelecem que o voto já está definido. “Elas dizem que o eleitor já decidiu o voto, como se não pudessem mudar de opinião de jeito nenhum. Basta uma nova informação, um debate, uma propaganda, e isso pode mudar. A disputa está totalmente em aberto.”

O professor de Ciências Sociais da UFRRJ Darlan Montenegro concorda com essa afirmação. "acredito que o jogo está aberto. Se o Freixo conseguir se aproximar desses eleitores que ficaram com Índio, Osório e Pedro Paulo, ele pode criar uma onda", para Darlan, esse eleitorado é mais diversificado. "Esses eleitores tendem a posições liberal-conservadoras no campo social e econômico, o que os afasta do Freixo, visto como defensor de políticas igualitárias, nesse campo. Mas boa parte desse eleitorado, especialmente nos extratos economicamente mais altos, vê com antipatia o preconceito contra os homossexuais e se identifica com uma pauta voltada para a igualdade de gênero, defendida pelo candidato do Psol."

O professor afirma que outros fatores fazem uma parte do eleitorado rejeitar Crivella. "Essa parcela tende a ver os evangélicos como preconceituosos, e por isso resiste a votar nele", afirmou o professor, que complementa: "O potencial de crescimento do Crivella é menor do que o de Freixo, por conta da rejeição mais alta, mas Crivella parte de um patamar mais alto. A eleição não está decidida."

* do projeto de estágio do JB