Comperj: novas demissões e empreiteira desmarca reunião com trabalhadores

A situação dos trabalhadores e ex-funcionários da empresa Alumini no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) continua indefinida. A reunião que aconteceria nesta segunda-feira (26/1) com representantes da empreiteira e de cada consórcio terceirizado para as obras no complexo foi adiada, sem novo prazo de realização. Na última quinta (22), cerca de 200 operários do Comperj fizeram uma manifestação em frente à sede da Petrobras, no Centro do Rio de Janeiro, contra os salários atrasados e as demissões em massa. De lá até a manhã desta segunda (26), mais empregados foram demitidos pelas empreiteiras que integram os consórcios no complexo.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Empregados nas Empresas de Montagem e Manutenção Industrial da Cidade de Itaboraí (Sintramon), Paulo Cesar Quintanilha, afirmou que o órgão foi procurado nos três últimos dias por trabalhadores do Comperj para comunicar os seus desligamentos das construtoras. "Daqui uns dois dias teremos os dados atualizados do número de demitidos", disse ele. Uma reunião entre o Ministério do Trabalho no Rio e representantes do Sintramon deve acontecer nesta terça (27), segundo informou Quintanilha.

A crise no Comperj teve os seus sinais mais visíveis no retorno dos operários às atividades após o recesso de fim de ano. O serviço de transporte que levava os trabalhadores até os canteiros de obras foi suspenso e o refeitório com uma cozinha que atendia aos funcionários também foi fechado. O quadro agonizante das empresas no Comperj já vem se arrastando desde setembro do ano passado, quando tiveram início as demissões em massa. As construtoras dispensaram os  seus funcionários, no entanto, os direitos trabalhistas não foram respeitados. Já no caso dos cerca de 2.500 operários que não receberam o aviso de desligamento, estão com os seus salários atrasados. A situação da Alumini é uma das mais complicadas, pois a empresa já teve a sua conta corporativa bloqueada pela Justiça em Pernambuco por falta de pagamento aos seus funcionários nas obras da Refinaria Abreu e Lima (Rnest). 

Com a recuperação judicial da Alumini anunciada no dia 20 de janeiro, os funcionários querem um acerto de contas imediato. Quintanilha disse que está batalhando pelo cumprimento da decisão da Justiça do Trabalho em Niterói, que determinou que a empresa faça o pagamento da terceira parte do acordo trabalhista firmado com os funcionários demitidos nos três últimos meses de 2014, além da segunda parcela do décimo terceiro e salário referente ao mês de dezembro daqueles que permanecem com contratos ativos. 

Pelas estatísticas do sindicato, cerca de 18 mil trabalhadores de 16 construtoras mantém as atividades no Comperj. Entre elas está a GDK S.A, com 250 empregados, atualmente, mas com uma média de 120 já demitidos no final do ano passado. Já no caso da Alumini, os números apontam para 490 demitidos neste período. No total, uma média de 4.200 pessoas foram dispensadas de setembro até o momento.  

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No decorrer de 2014, as empreiteiras que formam os consórcio do Comperj foram alvo de investigação da Polícia Federal na operação Lava Jato, cujas investigação apontaram para um esquema ilícito de pagamento de propinas a políticos e a dirigentes da Petrobras em troca de obras milionárias da estatal. Parte dos pagamentos eram desviados em forma de doação para campanhas eleitorais. Depois disso, as empresas passaram a sofrer problemas financeiros e trabalhistas. 

Os efeitos das demissões nos setores sociais

O Comperj chegou há alguns anos na pequena cidade de Itaboraí, no Leste Fluminense, alimentando uma grande perspectiva de geração de empregos e renda. Nesta época, Itaboraí ocupava a 62a posição em Índice de Desenvolvimento Humano do Estado do Rio na disputa entre os 92 municípios. A população da cidade, de acordo com os dados do Censo de 2010, é de 218 mil habitantes. 

De uma maneira imponente, erguido em uma área de 45 km², o Comperj iniciou as suas atividades com a meta de expandir estrategicamente a capacidade de refino da Petrobras e visando o aumento da demanda de derivados como óleo diesel, nafta petroquímica, querosene de aviação, coque e GLP. A previsão de abertura da sua primeira refinaria é para agosto de 2016 e o seu projeto integral foi orçado em US$ 13,5 bilhões.

O envolvimento das empreiteiras que compõem os consórcios do Comperj nas negociações ilícitas reveladas na operação Lava Jato comprometeu de forma agressiva o projeto do complexo, impulsionando um "efeito dominó" nos setores ligados ao investimento na região. A cidade de Itaboraí já amarga as consequências dos canteiros de obras esvaziados em função das demissões em massa. Sem os seus salários em dia, os funcionários não estão tendo como manter em dia os alugueis em pensões da região, já que muitos vieram de outros estados.

"A Alumini não me paga e, assim, não tenho como acertar o aluguel. Para me alimentar e pagar outras contas estou contando com a ajuda de amigos", diz o lixador Marcos Mendes, de 26 anos. Ele veio de Minas Gerais, em 2012, para trabalhar as obras da empreiteira no Comperj. "No mês que vem as aulas começam. Como vou pagar a mensalidade da escola da minha filha. Já estou todo enrolado e pagando os juros das contas atrasadas há dois meses", reclama outro jovem operário da Alumini, Diego Silva, de 24 anos.

O sociólogo José Augusto Rodrigues, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) comenta os impactos que a paralisação no Comperj pode ocasionar para o desenvolvimento da economia no estado, além dos efeitos sociais. Ele cita vários caminhos que podem ser trilhados pelos milhares de trabalhadores demitidos no complexo. "Por um lado, as pessoas podem ser absorvidas por outros setores de serviço, até mesmo informal, ou elas podem se manter organizadas em movimentos e até contar com o apoio de outros grupos trabalhistas em nível nacional", sugere ele. 

Rodrigues considera difícil prever os rumos dessa nova classe de demitidos e as reais consequências, mas não tem dúvidas dos efeitos econômicos negativos na sociedade carioca. "Eles [desempregados] vão se deparar com uma situação complexa e vão reagir por estratégias pessoais, dentro ou fora da lei", avalia o sociólogo. "Independentemente do que venha acontecer e das reações, em um futuro imediato haverá um desarranjo muito grande, com impacto no consumo desses desempregados, que vai refletir no comércio, além de incentivar o trabalho informal", acrescente o especialista. Rodrigues não descarta a possibilidade do desemprego no Comperj afetar o setor de Segurança Pública, o que pode elevar os índices de criminalidade no estado. 

A quadro do desemprego, ainda na análise de Rodrigues, é sempre uma experiência dramática, especialmente para aqueles trabalhadores que vieram de outros estados nacionais. "De repente, ele se vê em uma situação em que não consegue mais pagar um alojamento, com uma sua família na dependência dele. E, consequentemente, isso vai rebater nas pensões destinadas a este público, especialmente naquelas criadas em torno do negócio promissor", disse, considerando o fenômeno assustador, pois "começa a fazer a roda da economia girar para trás, atingindo, inclusive, diversos setores".