Bala perdida: especialistas defendem revisão nas operações de segurança

Nos últimos nove dias, 12 casos foram registrados no Rio de Janeiro

Nos últimos nove dias, 12 pessoas foram vítimas de balas perdidas no Rio de Janeiro e Região Metropolitana. O secretário de Segurança do estado, José Mariano Beltrame, informou que com exceção de Adriene Solan do Nascimento, de 21 anos, moradora da Rocinha, comunidade da Zona Sul da cidade, a Polícia Militar não tem participação nos casos. “Essas balas perdidas elas foram, na maioria das vezes, provocadas por traficantes. Não foi em confronto a polícia, com exceção desse caso agora da Rocinha. Isso é da natureza dessa verdadeira nação de criminosos que se criou no Rio de Janeiro. Digo uma nação porque são pessoas que tem uma ideologia de facção, pessoas que te um desapego e uma irresponsabilidade total pela vida humana” disse o secretário Beltrame em entrevista.

No entanto, a pesquisadora da Justiça Global, Juliana Farias, afirmou que os casos de bala perdida após serem levados à perícia retornam como sendo “inconclusivos”. “A maior parte dos casos tratados como “bala perdida” são casos de pessoas que foram atingidas por disparos de arma de fogo efetuados por agentes da própria PMERJ (às vezes da PCERJ), durante incursões e operações em favelas e periferias – territórios que são alvo de políticas de segurança pública marcadas pela lógica bélica e pelo racismo”, disse Juliana.

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O secretário de Segurança informou que um dos empenhos da sua pasta tem sido no controle de fronteiras, impedindo que novas armas cheguem às mãos dos traficantes. O momento, ele garantiu que há um mapeamento que deve orientar as "intervenções temporais" nestas regiões mais afetadas pela "guerra do tráfico". "Nós, como estado, não queremos produzir bala perdida e vamos agir com responsabilidade", destacou.

 O Coordenador do Instituto de Defensores dos Direitos Humanos, Thiago Melo disse que quando há uma morte toda a operação deveria ser reavaliada, “Esses casos [de morte] deveriam abrir um balanço geral da segurança pública e política para que ocorram em menor número possível”, afirmou. 

Para ele a segurança pública não é só uma questão de policiamento, mas sim uma série de políticas de interesse da população para levar uma melhor condição de vida aos moradores das comunidades. “O que nós observamos nas favelas do Rio de Janeiro é que existe uma demanda por uma série de serviços e direitos que não chegam. Mesmo em comunidades que a UPP tinha como horizonte uma maior quantidade de políticas sociais o que se observa é uma não participação da sociedade e da comunidade”, explicou Thiago Melo.

José Mariano Beltrame destacou que é preciso uma reformulação em algumas áreas da política pública para que a segurança da população seja garantida. “Essa situação ela compreende uma serie de atores, a fronteira, uma política de menores, uma mudança de lei, uma atuação do ministério público, do poder judiciário, do sistema penitenciário e sim da polícia. Só que nesses momentos nos quais as pessoas são, sem duvida nenhuma, agredidas com um tiro, principalmente sem saber sua origem. Essas coisas recaem sobre a polícia. Mas há a necessidade urgente no país de alargarmos nossos horizontes e pararmos de olhar exclusivamente para a polícia”

Além de Adriene, baleada na madrugada desta segunda-feira (26/1) em um confronto entre policiais da UPP e suspeitos, mais uma criança foi atingida por bala perdida, desta vez no morro do Chapadão, em Costa Barros, no Subúrbio. A Lilian Leal de Moraes, de 12 anos, foi atingida por um um tiro durante um confronto entre quadrilhas rivais na região. No sábado, o adolescente Caio Robert Carvalho Rodrigues, de 15 anos, foi atingido no braço direito por um tiro, quando brincava no playground de um prédio localizado em Icaraí, Niterói. No Juramento, em Vicente de Carvalho, Zona Norte da cidade, uma mulher foi vítima de bala perdida, também no sábado (24). Segundo a PM, a troca de tiros foi entre traficantes de facções rivais.

*Do Programa de Estágio do JB