Odebrecht proíbe operários de comprar em lanchonetes fora do Engenhão

Segundo trabalhadores, cantina dentro do estádio fica aberta até as 15h e as obras vão até 18h

Na manhã desta quinta-feira (4), uma imposição por parte da Odebrecht, empresa que administra as obras no estádio do Engenhão, pegou os operários de surpresa. A partir desta quinta-feira, as pessoas que trabalham na reforma do estádio que será o palco principal dos Jogos Olímpicos Rio 2016 foram proibidas de comprar qualquer coisa nas lanchonetes ao redor do estádio. Existe um local dentro do Engenhão para os operários fazerem suas refeições, porém, o grande problema é que fica aberto até as 15h e a obra segue até as 18h. Nesse período os operários não podem fazer um lanche, nem tomar um refrigerante, apenas a água dos bebedouros.

Os dois seguranças de plantão, que preferiram não se identificar, comentaram que a Odebrecht alegou “ter encontrado garrafas de uísque e cervejas dentro do canteiro de obras” e que a proibição veio por esse motivo. De acordo com os seguranças, “os responsáveis pela obra acreditam que os operários compravam as bebidas alcoólicas nas lanchonetes e levavam para dentro do estádio”.

A reportagem do Jornal do Brasil flagrou o momento em que dois funcionários tentavam sair para comprar um refrigerante e foram proibidos pelo segurança.

“Eles nos dão água. Tem a cantina aqui dentro, mas ela só fica aberta até as 15h, depois desse horário a gente só tem água para beber, e com esse calor, nada melhor do que uma Coca-cola geladinha né?!” – comentou um dos operários.

A comerciante Iara Couto, lamentou a decisão da Odebrecht. Segundo ela, a medida tomada pela empreiteira vai acarretar em um grande prejuízo em suas vendas.

“Eu fiz estoque de refrigerantes essa semana para poder vender para os operários e hoje a empresa faz essa proibição. Eles estão falando que encontraram garrafas de uísque lá dentro da obra, mas como você pode ver, eu nem vendo esse tipo de bebida. Essa medida que a Odebrecht tomou vai prejudicar muito as minhas vendas, nem meus salgados mais eles podem comprar. É lamentável” – comentou Iara.

Uma outra comerciante, Daniela, a Danny, disse que hoje não conseguiu vender nem um salgado.

“Todas as noites eu deixo os salgados preparados, para no dia seguinte vendê-los fresquinhos, até agora eu não vendi nenhum. Ontem fiz uma porção de salgados e pelo jeito vou perder tudo. Além da quantidade de refrigerante que eu comprei e aparentemente não vou conseguir vender. A minha sorte é que refrigerante não estraga fácil”, - lamentou Danny.

Wadih Damous, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio, e advogado trabalhista, diz que a medida adotada pela Odebrecht é abusiva e ilegal.

“Essa proibição é ilegal, as pessoas podem comprar no local que quiserem. Você largar o trabalho que está fazendo para comprar em outro lugar não pode, mas como a cantina fecha e a obra ainda continua, eles não podem proibir as pessoas de tomarem um lanche em qualquer que seja o local. É uma medida abusiva por parte da empreiteira”, comentou o advogado.

Ainda segundo Damous, em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, cabe à empresa descobrir quem foi o infrator e tomar as medidas cabíveis, e que a empresa não pode afirmar que a bebida veio dessas lanchonetes que ficam próximas ao Engenhão.

“Em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, eles não têm como comprovar que foi comprado nas lanchonetes próximas ao estádio. A atitude que a empresa pode, e deve tomar em relação ao consumo de bebidas alcoólicas dentro do horário de trabalho é achar o infrator e demiti-lo por justa causa. Mas proibir os operários de comprar das lanchonetes, como eu falei, é uma medida abusiva e ilegal.” – encerrou Wadih Damous.

A Odebrecht foi procurada pela reportagem do Jornal do Brasil para comentar o assunto, mas até o encerramento da matéria não havia retornado o contato.

*Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil