Salva-vidas terão que mudar escala para dar conta do trabalho neste verão

Categoria pede concurso público urgente e já fez denúncia no Ministério Público Militar

As notícias sobre o aumento de 50% no número de salva-vidas para a Operação Verão 2015 intrigaram os bombeiros. Na verdade, o número de salva-vidas não aumentou, mas sim a carga de trabalho. Em troca de uma gratificação de R$1.000, os cerca de 900 bombeiros que já compõem o total da tropa terão que mudar sua escala de trabalho para dar conta do serviço neste verão. Em vez de trabalhar 12 horas e descansar 48h, praticamente a totalidade dos bombeiros aceitou trabalhar 12h e descansar 36h. Os bombeiros criticam a demora para a realização de um concurso público e dizem que só aceitam a nova escala por cumprimento do dever. 

"O tempo de recuperação do guarda-vida fica deficitário, porque numa escala dia-sim dia-não, não é dado tempo hábil para o profissional se recuperar. Porém, devido a necessidade do serviço, não podemos deixar o pior acontecer. Sabendo da realidade do salvamento marítimo no Estado, sabendo da necessidade de efetivo, se não aceitarmos essas condições vão acontecer mais mortes", diz Cláudio Vinícius Pereira, um dos diretores da Associação dos Bombeiros Militares do Estado do Rio de Janeiro (ABMERJ).

Ele diz que a escala é voluntária, mas acaba tendo um caráter de imposição, já que os profissionais não podem deixar as praias abandonadas. "Muitos profissionais recusariam pelo fato do valor da gratificação de R$ 1.000,00 não ter sofrido nenhum reajuste em três anos de implementação e pelo desgaste físico de enfrentar cinco meses de praias lotadas, tendo uma escala de descanso menor", critica ele. 

"O déficit de guarda-vidas hoje no Corpo de Bombeiros é de pelo menos mil homens. Precisamos de um concurso urgente", pede o bombeiro. "Este problema já foi comunicado ao Comando-Geral em março e também ao governador reeleito, Luis Fernando Pezão, mas nenhuma providência foi tomada", completa ele, dizendo ainda que foi feita uma denúncia no Ministério Público Militar em setembro. O Ministério Público informou que não tem incumbência sobre os bombeiros militares e que eles deveriam ter feito a denúncia no MP do Estado. 

A Secretaria da Casa Civil esclareceu que o próprio Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ) é que prepara os trâmites para concurso público, enquanto o governo somente aprova o pedido. O CBMERJ confirmou a informação e disse que esse pedido de concurso público "está em andamento". Ele ainda informou que o concurso não é o único modo de formar guarda-vidas. A instituição promove curso de especialização cujo objetivo é capacitar os militares para o salvamento marítimo. A corporação ainda lembrou que este ano foram realizadas provas do concurso público para o CBMERJ com a oferta de 520 vagas para soldado combatente e técnico de enfermagem. Salva-vidas, porém, ainda terão que esperar. 

Cláudio diz que as expectativas para este verão não são boas. "Além de estarmos há seis anos sem concurso público, muitos guarda-vidas deixaram os nossos quadros por falecimento, aposentadoria, lesionamentos, e uma outra parte são oficiais que não tiram serviço ativo na areia", diz ele.  "O fato é que, mais um ano, os guarda-vidas vão dar o sangue e o suor para não manchar nosso verão com inúmeras mortes por afogamento, mas que infelizmente a possibilidade de termos uma triste estatística é real e verdadeira", alerta ele.  

Cláudio ainda diz que muitas das praias, especialmente as que não estão na capital, não têm o principal dispositivo para salvamento: o posto. Postos de salvamento, que além de serem o lugar para armazenar material de socorro, são referência de apoio e proporcionam uma visão privilegiada dos banhistas. "O correto seria ter dois salva-vidas e um posto de salvamento a cada 500 metros, o que não é uma realidade nas praias de fora da capital. Só as praias da Zona Sul têm essa configuração. Praias da Região dos Lagos estão completamente fora dessa configuração", critica ele. 

Cláudio ainda alerta que um dos maiores perigos são pessoas que consomem bebidas alcoólicas e depois entram no mar. Além disso, a falta de atenção com as bandeiras de perigo e muito tempo exposto ao sol. "Só o fato do banhista chegar para o salva-vidas e conversar para ver qual o melhor lugar para se banhar ou quais as condições do mar são uma grande ajuda", completa ele. 

Um dos perigos de ficar exposto muito tempo ao sol é ter um choque térmico, por isso, deve-se dar um tempo para o corpo se acostumar à água gelada. Além disso, banhistas devem evitar áreas que são point de surfe, tanto pelo risco de acidente com as pranchas como pela correnteza e ondas. No Rio, são os principais pontos Prainha, Arpoador, Leblon e Quebra-Mar.