"Não há teor eleitoral em conflitos", afirmam especialistas

Beltrame tinha afirmado que há predisposição para ações criminosas em período eleitoral 

Após os ataques em várias comunidades do Rio de Janeiro ao longo da semana, na manhã desta quinta-feira (2), o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, se reuniu com o governador Luiz Fernando Pezão em uma Cúpula para decidir as ações frente a possível nova onda de violência. Segundo o secretário, foi com a intenção de informar o governador sobre as operações que estão programadas para esta sexta, quando a segurança será reforçada para garantir as eleições. Após a reunião, o secretário afirmou, em entrevista, que há uma “predisposição para ações criminosas em período eleitoral”. Desde o início da semana, pelo menos cinco pessoas morreram em tiroteios na Penha, no Complexo do Alemão, Vila Cruzeiro e Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, e na região metropolitana de Niterói.

O cientista social e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Paulo Bahia discorda da posição do secretário de Segurança do Rio e afirma que casos como esse acabam ganhando mais repercussão com a proximidade das eleições. “Todas as análises e estudos sobre a violência no Rio não encontram essa relação de causalidade com o período eleitoral”. Para o sociólogo, é comum que durante esse período, tanto o governo, quanto a oposição, façam uso do teor eleitoral para os conflitos. “O período é propício para uso eleitoral de qualquer coisa que venha a acontecer, sobretudo, em assuntos sensíveis, como é o caso da segurança pública”.

Assim como Paulo Bahia, Marcus Brêtas, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ e líder do Grupo de pesquisa de história do Crime, da polícia e da Justiça criminal, afirma que as razões dos ataques não têm caráter eleitoral. No entanto, para o professor, é comum que grupos políticos venham a usar os ataques. “O que a gente pode perceber, nessa declaração do secretário, é uma tentativa de capitalizar isso num momento de eleição, mas não percebo esse tipo de ataque como conflito políticos. Isso é resultado de uma cessação de lucro que o crime organizado está enfrentando. Eles estão reagindo à política do governo e da polícia. Mas não vejo um teor eleitoral”, conclui.

Além disso, Brêtas destaca que a segurança pública é um tema que, atualmente, tem ocupado o centro dos debates eleitorais. “Dentro desse período de proximidade das eleições qualquer grupo político vai tentar capitalizar essa questão. A questão da segurança pública é uma das grandes bandeiras do governo do estado do Rio. As UPPs são o carro chefe dessa política, por mais que tenham acontecendo um enfraquecimento do projeto”, afirma.  O professor também chama a atenção para outro aspecto do debate no campo da segurança pública. “Talvez seja preciso despolitizar a segurança pública, que essa questão não fosse colocada em risco pela condição eleitoral”.

Já para Marcus Ianonni, cientista político da Universidade Federal Fluminense (UFF), os ataques tem que ser considerados de acordo com o que eles são: como uma questão de segurança pública. “Apesar da referência às eleições, e a fala do Beltrame se referiu a isso, é uma questão de segurança pública. A população se sente desprotegida e cabe ao estado agir e encarar, não como uma manifestação política, porque não é, é sim uma manifestação criminosa. Os acontecimentos precisam ser trabalhados nessa perspectiva”, conclui.

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Confrontos em vários locais do estado durante a semana 

Pelo menos quatro pessoas morreram em tiroteios nestes dois dias. Os confrontos foram registrados no Parque Proletário (Penha), na Vila do João (Maré), e no Morro do Cavalão, em Niterói. Na Zona Norte do Rio, também houve confrontos nas comunidades de Nova Brasília, no Complexo do Alemão, e do Morro da Mangueira, onde três pessoas ficaram feridas. Na Tijuca, moradores do Morro da Formiga depredaram um ônibus em um protesto contra uma operação da PM na comunidade.

A Avenida Brasil chegou a ser fechada por quase uma hora durante confronto entre criminosos e militares do Exército.  Policiais e quanto agentes da Força de Pacificação da Maré foram acionados, e um tanque do Exército foi posicionado na via, na altura da Fiocruz, sentido Zona Oeste, para impedir a passagem de motoristas.  Às 15h40, a via foi liberada.

Na noite de quarta-feira, um tiroteio em Niterói deixou moradores assustados. Um ônibus chegou a ser queimado por criminosos. De acordo com a PM, a ação foi uma represália à morte de um suposto traficante durante operação policial na noite anterior. Cerca de 10 mil estudantes ficaram sem aulas devido aos confrontos.