Eike Batista: do império às ruínas

Com bens bloqueados e acusado de formação de quadrilha, Justiça teme fuga do país

A procuradora do Ministério Público Federal de São Paulo que está cuidando do caso de Eike Batista, Karen Kahn, declarou nesta sexta-feira (26) que vê risco dos acusados saírem do país. As informações são da Folha de São Paulo. “Basta ver na nossa história penal quantos fugiram. Em especial aqueles que tem dupla nacionalidade” disse ela.

A procuradora ainda comentou sobre a gravidade dos crimes: “São pessoas de elevado nível cultural, econômico, com articulação em nível nacional e internacional, vários níveis do governo e elevado grau de persuasão. São diversos elementos que demonstram periculosidade dos agentes envolvidos, até maior do que em outros crimes com violência”, declarou ela. Apesar disso, a procuradora afirmou que ainda não sabe se pedirá medidas que garantam a permanência do empresário no país. O advogado de Eike Batista não sabe se seu cliente tem um segundo passaporte.

No último dia 24, o MPF-SP pediu o sequestro dos bens de Eike. O MP fez, no dia 23, uma nova denúncia, agora por formação de quadrilha, falsidade ideológica e indução de investidor a erro. Já o MPF-RJ denunciou Eike de manipulação de mercado e “inside trading”, ou seja negociar ações com informação privilegiada. Ele também sofre a acusação de inside trading pelo MPF-SP, feita no final de 2013. As penas para os crimes podem chegar a 14 anos de prisão.

Na última semana, Eike declarou ser “um baque” estar de volta à classe média depois de ter sido considerado o sétimo homem mais rico do mundo. Seu patrimônio, estimado em U$ 30 bilhões em 2012, segundo suas próprias contas, hoje é de US$ 1 bilhão negativo.

Se Eike sofreu um baque ao voltar a classe média, o mesmo pode se dizer da cidade do Rio de Janeiro. De um parceiro cobiçado pelo poder público, Eike passou a ser sinônimo de deixar as coisas pela metade, no Rio. Entre os empreendimentos que ele prometia ajudar com investimentos milionários estão a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Baía de Guanabara, a revitalização do Hotel Glória e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

O programa de despoluição da Lagoa, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smac), só tinha uma parte como responsabilidade da EBX, uma das empresas de Eike. Era a criação do projeto de despoluição do Lagoa Limpa, que foi concluído. A implementação seria do próprio governo. Eike chegou a investir entre R$ 23 milhões dos R$ 30 milhões que foram previstos, entre 2008 e 2012. 

>>Lagoa: "Vai ser um vexame receber as delegações", diz Federação de Remo

Já a participação das empresas de Eike na despoluição da Baía de Guanabara era uma parceria com a Cedae. Segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, as obras foram assumidas pela Cedae, com recursos do Governo do Estado. O presidente da Cedae, Wagner Wicter declarou a imprensa que a parte de Eike,  como retirar o lançamento de esgoto que acontece na Marina da Glória foi assumida. Ainda segundo Wicter, a despoluição vai custar cerca de R$2 bilhões até 2016. 

O governo do Estado divulgou que aplicaria R$ 1,3 bilhão somente em obras de esgotamento sanitário de municípios ao redor da Baía. Além disso, a construção de Unidades de Tratamento de Rios.  A Refinaria Duque de Caxias (Reduc), da Petrobras, gastou R$ 450 milhões em equipamentos que a partir de agosto deverão reduzir em até 60% o lançamento de esgoto no local. Batizado de Plano Guanabara Limpa, a iniciativa tentará ser bem-sucedida, o contrário do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), que entre 1994 e 2006 gastou US$ 760 milhões (R$ 1,5 bilhão) e não conseguiu chegar ao resultado. 

O porto privado da Marina da Glória, o qual o grupo MMX de Eike ganhou concessão foi vendido para a BR Marinas no final de 2013, depois da série de problemas financeiros que Eike enfrentou. O valor da venda não foi divulgado. Quando Eike comprou a concessão, o valor também não foi divulgado, mas estima-se que entre a aquisição e investimentos ele teria gasto R$ 150 milhões.

O plano de Eike era construir um centro de de convenções para 700 pessoas e 50 lojas - mais que o dobro das atuais 23 que existem na Marina. O estacionamento seria ampliado em 40%. Além disso, uma passarela que ligaria a Glória. Os planos foram polêmicos entre arquitetos e ambientalistas e não se concluíram, já que Eike deixou o investimento. 

>>Atrasos comprometem mais uma vez despoluição da Baía de Guanabara

O investimento nas UPPs também era um plano de Eike que não foi concluído. A petroleira OGX rescindiu um convênio assinado em 2010 com a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (Seseg) para a qual dava um apoio anual de R$ 20 milhões direcionado às UPPs.

Já a reforma do famoso hotel Glória contou com empréstimos de R$ 200 milhões do BNDES e agora não tem data nem garantia de realização. A reportagem do JB tentou contato com o fundo de investimentos que supostamente teria comprado o hotel de Eike, após sua desistência, o Acron, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria. No local, as obras seguem paradas, mas com o hotel aberto e seguranças no interior. O Grupo EBX, questionado sobre a venda, informou que não comentará os investimentos. As últimas informações são que o grupo comprou o empreendimento por R$ 225 milhões, mas as negociações não foram confirmadas por nenhuma das duas partes.

Moradores da Glória lamentam a insegurança e abandono dos arredores do Hotel

Jandira do Carmo mora no prédio da Rua do Russel, colada no Hotel Glória, desde 1982. Ela lembra bem como era a região quando o hotel ainda funcionava: com segurança, táxis, turistas e bailes de carnaval dentro do hotel que fizeram história. Bem diferente do que se vê hoje: filas de carros estacionados – sempre com guardador para garantir que eles não sejam quebrados – e mais ninguém na rua. O esvaziamento da região, segundo os moradores, criou o pior problema: a insegurança. Porém, a obra parada também acarreta outros problemas, como insalubridade. 

“Depois que parou a obra, ficou horrível. O barulho da obra nem me incomodava tanto. O problema agora é que, além do lugar ter ficado sinistro e vazio, não há mais dedetização. Eu moro no sétimo andar, mas os apartamentos mais baixos sofrem com baratas e ratos que acreditamos que vêm da obra”, diz Jandira. “Ainda tem a parte de trás da obra, que dá vista para os prédios. Os vergalhões estão todos enferrujados”, completa ela.

“Ouvimos muitas promessas, inclusive de revitalização da praça, de construção de uma passarela para a Marina da Glória, ficaria maravilhoso, mas foram só processas”, diz.  A Praça Luis de Camões, segundo ela, virou um lugar perigoso, onde as pessoas têm medo de andar à noite. O lugar que tem um chafariz virou local de banho para moradores de rua, como pode ser visto a qualquer hora do dia ou da noite. Ainda segundo Jandira, o síndico de seu prédio já teve reuniões com os novos compradores do hotel Glória, o que gera novas esperanças para o bairro.

Sérgio Araújo trabalha como taxista há 25 anos e faz ponto nas imediações do hotel. Ele chegou a trabalhar no Glória como recepcionista e como taxista no ponto do hotel. Ele lembra que levou o último hóspede, antes de o hotel fechar, para o aeroporto. “Os hóspedes foram avisados que só poderiam ficar no hotel até as 13h, mas esse moço não ficou sabendo. Ele tinha um voo às 22h, então sugeri que ficasse esperando no Galeão, porque já na época aqui era perigoso de ficar andando”, diz ele.

Sérgio diz que, além da demanda de passageiros que obviamente diminuiu, o bairro em si está abandonado. "É especialmente perigoso para as senhoras e mulheres andarem à noite. Muitas vezes, os moradores da Ladeira [de Nossa Senhora da Glória, colada nos fundos do Hotel] pedem para nós subirmos de táxi porque eles não tem coragem de descer andando", explica ele. 

 Fernando Schiavo, que mora no bairro há 38 anos, diz que as obras do hotel Glória  já começaram sendo um problema e agora o abandono é outro. “As obras já foram um problema por causa da poeira, na verdade terra, que entrava dentro da casas das pessoas, além do barulho. Agora, com a paralisação da obra, está um verdadeiro deserto. Antes tinha os seguranças da obra, do hotel, hoje em dia não. Nem policiais tem”, diz ele.

“Sinceramente toda a especulação não trouxe benefício real nenhum, só atrasos”, completa. Ele ainda critica a falta de policiamento no local. Não há nenhuma cabine por perto e as pessoas têm medo de andar na região da Marina da Glória e do Aterro, onde há muitos assaltantes. "Minha mulher trocou a forma de vir para casa. Agora não desce do ônibus por fora da Glória [mais próximo da Marina], e vem de metrô, por dentro do bairro", explica. 

“Tínhamos uma expectativa muito grande do que poderia ser aqui, porque a figura de Eike parecia ser maravilhosa. Mas foi só uma promessa. Que além de tudo gerou especulação imobiliária, aumentando muito os alugueis”, comenta outro morador, Leonidas de Oliveira.

Michel dos Santos mora na região há 20 anos e toma conta dos carros que estacionam em frente ao hotel.  Ele diz que costumava ficar somente aos domingos fazendo esse trabalho, mas começou a ficar todos os dias depois de muitas reclamações de carros arrombados e danificados. Ele lembra que a cabine da PM que havia exatamente em frente ao hotel foi desativada há cerca de quatro anos. “Ficava bem ali onde hoje só tem pombos”, diz. 

“Muita gente vinha aqui só para olhar o hotel, tirar foto. Hoje em dia está isso aí, tudo abandonado. É muito feio para a cidade. Foi muito investimento público e muita fantasia à toa. Uma verdadeira burrice”, critica. 

Sobre a segurança do local, ele diz que houve uma melhora depois que a Força Nacional fez operações na região para combater o crack. “Antes disso estava impossível. Eu cansei de ver moradores serem agredidos, assaltados. Agora ainda é perigoso, mas um pouco menos. Mas não se vê polícia e eu sou uma das poucas garantias de segurança daqui”, completou ele.