Caio Martins: um patrimônio do futebol desperdiçado em Niterói

Estádio, que poderia ser a solução para jogos no Rio, está abandonado

Com a interdição do Estádio Olímpico João Havelange e a indefinição a respeito da utilização do novo Maracanã pelos clubes após a Copa das Confederações, os clubes do Rio não têm um estádio para jogar na cidade. O estádio de Caio Martins, que poderia ser uma opção para o Botafogo mandar seus jogos, está sendo visivelmente desperdiçado. Enquanto isso, a população de Niterói espera pela revitalização do estádio, que não tem data para acontecer, nem por parte do clube e nem por parte do Governo do Estado e da Prefeitura de Niterói. 

Sérgio Landau, diretor executivo do Botafogo, a quem o estádio está concedido até 2027, deixa claro que não há chance de uma revitalização do estádio para a utilização da equipe profissional. O estádio, localizado em um ponto nobre de Icaraí e que já foi palco de grandes jogos no título brasileiro de 1995 e foi largamente utilizado na vitoriosa campanha na série B de 2003, deixou de ser utilizado pelo time profissional no ano seguinte: 

“Só vamos revitalizar o estádio quando tivermos dinheiro. A interdição do Engenhão deixou a situação bem difícil para o clube. Temos que fazer caixa, e os salários dos jogadores estão atrasados, a prioridade é resolver os problemas imediatos. É um estádio com uma participação muito feliz na história do Botafogo, mas infelizmente não poderemos utilizar o estádio após esse fechamento do Engenhão. Vamos buscar outras alternativas”, explica Landau, que diz que o clube já está se movimentando para utilizar o Maracanã após a Copa das Confederações. “Vamos lutar por isso”, garantiu. 

“Não podemos utilizar o estádio porque a CBF diz que o estádio, para o Campeonato Brasileiro, não pode ter menos de 20 mil lugares. As arquibancadas tubulares estão proibidas, então nada podemos fazer. Nossa situação financeira está bem complicada, mas queremos revitalizar o campo e todas as instalações do estádio para prover melhor as nossas divisões de base. É o mínimo que podemos fazer”, finalizou o dirigente.

A base do Botafogo, atualmente, está divida entre o campo de Caio Martins e a base da Marinha na ilha de Mocanguê, enquanto a Escola de Futebol do Botafogo, em Marechal Hermes, na Baixada Fluminense, não fica pronta para abrigar as categorias entre o Sub-9 e os juvenis. Os juniores e a equipe profissional esperam a construção do CT do clube, no Recreio, para dividirem o espaço. A utilização de Caio Martins, portanto, torna-se uma incógnita. 

Morador reclama

José Cesar Madeira, morador e síndico de um prédio bem próximo ao estádio, em Icaraí, mora no local há 12 anos. Ele define a relação entre os moradores de Icaraí e o estádio como “tumultuada”:

“O estádio está abandonado, mal iluminado, tem sido alvo de vários assaltos, então a nossa relação de moradores aqui da região é quase uma relação de ódio. É um lugar que enche de água quando chove, completamente sem estrutura, sem reforma. O estado abandonou, o Botafogo não faz muita coisa, e tudo isso vem acontecendo. Há moradores de rua que moram ali perto há mais de um ano, e nada é feito”, conta Madeira. 

“A prefeitura colocou um tapume em uma das esquinas por causa da baderna que eles faziam”. Madeira relata, com indisfarçável tristeza, que os moradores da região chegaram a apoiar a demolição do estádio, em 2011, para entregar o complexo à iniciativa privada e posterior construção de um shopping: 

“Não é o Ideal, nós sabemos disso. Foi cogitado realmente isso na época, mas um grupo de moradores de outros bairros abraçou o estádio e o governador recuou da ideia. Mas para os moradores daqui, era melhor que se tivesse sido feito um shopping. Provavelmente teríamos mais segurança”, desabafa.

Os moradores de Niterói entregaram uma petição ao governador Sérgio Cabral em maio daquele ano. O governador, após esse fato, deixou de falar na demolição de estádio. Madeira, ironicamente, é torcedor do Botafogo, e lembra que o estádio foi largamente utilizado pelo clube nos anos 90 e 2000.

“Não é por ódio do clube que eu digo isso, pelo contrário. Quando o Botafogo utilizava, era muito movimentado, obviamente. E era melhor, apesar do tumulto do trânsito, porque havia mais segurança no entorno do estádio”, lembra ele, que teve visão privilegiada dos jogos do Botafogo principalmente durante a campanha da Série B em 2003. 

O aumento da violência em Niterói, segundo o síndico, também deixou o quadro ainda mais complicado. “Na época que o Botafogo utilizava o estádio, a realidade de Niterói também era outra. Os bandidos do Rio, com as UPPs, ainda não haviam mudado para cá. O Batalhão de Niterói também diminuiu o seu efetivo, e isso é visível na rua. Tudo isso deixa a situação mais complicada”, disparou.

Seguindo a direção das palavras de Landau, Madeira parece pouco esperançoso na melhora da situação, tanto de soluções vindas do Botafogo quanto do Governo do Estado:

“O Botafogo nunca vai reformar esse estádio porque mal tem dinheiro para se manter, quanto mais para fazer reforma. O Governador disse, demagogicamente, que faria uma reforma para utilização do Complexo de Caio Martins como centro de treinamento visando os jogos de 2016. Até hoje isso não foi feito”, finalizou Madeira. 

O estádio foi construído em julho de 1941, porque o então governador, Ernani do Amaral Peixoto, desejava ver jogos do Campeonato Carioca em Niterói. O Complexo Esportivo Caio Martins já foi palco de dois campeonatos mundiais de basquete, de uma das sub-sedes da Copa do Mundo de Futebol de 1950 de uma chave do Campeonato Mundial de Voleibol e do Sul-Americano de Natação, além de inúmeras disputas nacionais de atletismo, vôlei, basquete e ginástica. 

Mudez da Suderj e governo do Estado

Administradora do Estádio Caio Martins, a Suderj não foi localizada pela reportagem do Jornal do Brasil para prestar maiores esclarecimentos quanto à administração do estádio. A secretaria de Esporte e Lazer do Governo do Estado, questionada a respeito de obras para adequar aos Jogos Olímpicos de 2016, não respondeu às perguntas enviadas pelo JB

O detalhe curioso é que o Caio Martins  não aparece entre as 172 sedes que serão incluídas no guia oficial de locais de treinamento para os Jogos do Rio de Janeiro, de acordo com o Comitê Organizador da Olimpíada de 2016.