Em Xerém, mesmo com casas ameaçadas, moradores se recusam a abandoná-las

Desesperadas, vítimas de enchente tentam salvar móveis, eletrodomésticos e roupas

Um dia depois da tragédia que matou um servidor do Inmetro e provocou o desaparecimento de um empregado da Cedae, além de deixar mais de 20 mil afetados em Xerém, distrito de Duque de Caxias, ainda é grande o número de pessoas que insiste em permanecer nas casas interditadas, na tentativa de resgatar pertences e diminuir os prejuízos.

No bairro de Café Torrado, parte da Estrada de Xerém, que margeia o rio Capivari e acabou submersa com o a cheia do mesmo, ainda corre o risco de ceder. Isto levou a Defesa Civil Municipal de Duque de Caxias a interditá-la. Na maior parte das residências afetadas, a água atingiu 2 metros de altura.

No encontro com o governador Sérgio Cabral e o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, marcado para a tarde desta sexta-feira, o prefeito de Caxias, Alexandre Cardoso pretende buscar recursos para retirar estes moradores da beira do rio.

Morador da região há 42 anos, o aposentado Joel Lages Silveira, de 64 anos, afirma que só obedecerá às ordens da Defesa Civil para abandonar a casa condenada após recolher seus bens. Tudo com muita lama, Joel pretende lavar e secar para recuperar principalmente a mobília:

"Vou lavar sofá e as roupas e tentar salvar o máximo de objetos que for possível. Com a minha idade, vai ser muito difícil comprar tudo de novo", explica. "Só vejo lama, mas ainda tenho esperança de resgatar alguma coisa", completa. 

Lavando roupa no rio

Também desrespeitando os limites impostos pela Defesa Civil, a dona de casa Karen de Gouveia Abrantes tenta recuperar as roupas dos filhos menores, de 4 e 6 anos. Ela lava estas roupas na água do rio que corre pela via, na tentativa de tirar a lama mais grossa:

"Já perdi geladeira, fogão e todos os móveis, mas as roupas dos meus filhos, pelo menos, vou tentar recuperar", diz ela, explicando que só deixará o que restou de sua casa se a chuva recomeçar. "Só saio se a chuva voltar, preciso conseguir salvar alguma coisa. Não tenho dinheiro para comprar tudo novo".

Muitos vizinhos estão apelando para conhecidos e parentes que moram em outros lugares de Caxias para ajudar nas limpezas de suas residências. É o caso do militar Sandoval Costa, de 27 anos, que conseguiu reunir dez pessoas para realizar a limpeza de sua casa, invadida por cerca de 2 metros de pura lama: 

"Com a enxurrada, me restaram duas coisas. A lama que invadiu a minha casa e a minha esperança de reconstruir tudo outra vez. Tenho uma casa que está cheia de problemas e nada além disso. Só conto com a solidariedade dos amigos", lamenta.

Prefeito apela

O prefeito de Duque de Caxias, Alexandre Cardoso (PSB), voltou a apelar para que a população local obedeça as determinações da Defesa Civil e evite correr riscos:

"Já pedi para não entrarem nas casas condenadas. É melhor ficar vivendo em abrigos por enquanto e continuar vivo do que voltar para a casa condenada e, mesmo sem chuva, ficar correndo risco. Nossa prioridade agora é acolher os desabrigados e fazer o possível para garantir a mobilidade dessas pessoas", explica o prefeito que esteve durante a manhã no abrigo montado na Igreja Metodista Wesleyana da Mantiqueira, em Xerém.

Ao menos quatro escavadeiras trabalham desde as primeiras horas da manhã para liberar as ruas, que estão bloqueadas por mais de 1 metro de detritos, como lama e areia. A estimativa de Defesa Civil Municipal é que pelo menos 250 residência que ainda estão de pé, na beira do Rio Capivari, estão condenadas e corres risco de desabar

Vítima identificada

O homem m que morreu com as chuvas e que o corpo foi encontrado na praça de Xerém foi identificado como Luiz Carlos da Silva, de 63 anos, funcionário do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), que tem sua sede em Xerém, conforme informações repassadas pela prefeitura. Já o empregado da Cedae Enéas Paes Leme está desaparecido, conforme informaram os assessores da prefeitura.