Caxias: hospital infantil tem enfermarias cheias de moscas e falta de médicos

Emergência superlotada, enfermarias repletas de moscas e mosquitos e muita sujeira, principalmente no banheiro usado por crianças em tratamento. Este é o cenário do Hospital Infantil Ismélia da Silveira, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Depois de a população ter que conviver com montanhas de lixo nas ruas, ratos e baratas por toda parte - problema causado por mais de um mês de coleta de lixo irregular - , agora é a saúde pública quem pede socorro.

Já na entrada da unidade, o choro das crianças denuncia o primeiro de muitos problemas. Com apenas um pediatra para atender 49 pacientes na fila da emergência, o chororô é ouvido por toda parte. A maioria das crianças sofre de mal estar, vômito e febre. Dos dois ventiladores da emergência, apenas um deles funciona. 

"Cheguei com meus dois filhos passando mal às 6h35 e só consegui ser atendida às 9h40. Agora vou aguardar o resultado dos exames. O raio-X e os exames demoram bastante para ficar prontos, mas o atendimento na emergência sem dúvida é o que há de pior", revela Maria de Lourdes Almeida dos Santos, que vive há 9 anos em Caxias. 

O calor durante as 2h45 de espera por atendimento fizeram o pequeno Nicolas Guilherme, 9 meses, se desesperar. "Ele está agoniado por causa do mal estar e do calor. Está vomitando há mais de 24 horas e não come nada", lembra a varredora da empresa Locanty, Maria Conceição Silva, 42 anos. "Estou contando os dias para o novo prefeito assumir a Prefeitura. Tenho esperança de que as coisas melhorem em Caxias. A população está abandonada. A gente sempre acha que não dá para piorar, mas é puro engano. Nada melhora", reclama.

Enfermaria com moscas

Já dentro da enfermaria principal, apesar da refrigeração, moscas tomam conta do espaço. Muitas pousam nas macas dos pacientes. No banheiro usado por cerca de 20 crianças internadas em um dos setores da enfermaria, o chão é cheio de papéis, rolos de papel higiênico, e muita lama. As paredes com azulejos sujos denunciam o mau estado de conservação da unidade. Para tentar evitar contaminação, os pais usam uma banheira infantil para apoiar os bebês impedindo o contato das crianças com o chão do banheiro. 

Com o filho de 13 anos internado há 12 dias com encefalite (inflamação aguda no cérebro), a dona de casa Valquíria Pereira Lima conta os dias para que seu filho receba alta e ela possa deixar a hospital com a criança. Ela teme contaminação: 

"Isso aqui é o caos. Quando o ralo do banheiro entope, meu marido vem de casa para desentupir. Em 12 dias de internação do meu filho, meu marido teve que desentupir o ralo quatro vezes, porque não há funcionários do hospital para isso. A empresa que faz a limpeza não dá conta da demanda. Tudo é muito sujo e emporcalhado. O chão do banheiro e a pia são assustadores", desabafa. "Além disso, aqui só se faz exames de menos complexidade. O meu filho precisou de uma tomografia computadorizada e teve que ser levado para o Hospital de Saracuruna (Hospital estadual Adão Pereira Nunes). Aguardou 10 horas por um exame considerado de emergência pelos médicos", relembrou. 

Mãe de uma bebê de 9 meses que sofre de infecção urinária, a dona de casa Taiane Nunes reclama do descaso com os exames das crianças. "Minha filha fez exame de urina anteontem e simplesmente o perderam. Sumiu, desapareceu. Hoje (domingo) um novo exame terá que ser feito. Este atraso de 48 horas pode comprometer o tratamento porque a minha filha não tem nem um ano ainda. O exame é necessário para que a medicação seja feita de acordo com o tratamento", reclama a mãe. 

A Prefeitura de Caxias, responsável pela administração do hospital, foi procurada neste domingo (30), mas ninguém foi encontrado. Apontada por familiares das crianças como a empresa responsável pela limpeza da unidade de saúde, a Construir Serviços também não teve nenhum representante localizado.