Pais desmentem o prefeito Paes 

Críticas à escola municipal Friendenreich, no Maracanã, se chocam com opinião dos pais de alunos

O prefeito do Rio Eduardo Paes fez declarações sobre a escola municipal Friendenreich, no Maracanã, que entram em conflito direto com o relato da Comissão de Pais e Alunos da instituição. Paes disse, nesta quarta-feira (28), que o prédio da escola tem baixa qualidade e será alocado para uma nova estrutura, melhor. A escola é a 10ª colocada no ranking do Ideb para o ensino básico do país.   

"Aquele prédio especificamente não é um prédio que se possa dizer que é padrão ideal para a prefeitura do Rio. Pelo contrário, é um prédio de baixa qualidade, que volta e meia sofre quando há eventos no Maracanã", afirmou o prefeito. "Eu sou um dos mais interessados na preservação da escola. Eu nunca falei sobre isso, mas, para mim, escola não é prédio. São professores, alunos, diretores".

Ele também afirmou que fica chateado com o que chamou de "agendas e interesses paralelos", referindo-se a mobilizações contrárias à reforma no Maracanã. "Não estou dizendo que a escola é um interesse paralelo. Sou uma autoridade que trabalho há muitos anos com a prefeitura. Sei o que estou dizendo", disse a jornalistas.

O prefeito "está mentindo"

A afirmação de Paes provocou a ira de Carlos Sandes, representante da Comissão de Pais e Alunos da escola. Sandes informou que o local tem salas com ar condicionado, equipamentos de última geração, como o smartboard (quadro interativo), biblioteca, sala de leitura e toda a acessibilidade que o entorno do local oferece. 

"(O prefeito) está mentindo. Já existem as salas de reforços prontas, salas de informática, de leitura. Não tem como ele dizer que não tem estrutura. Já existe e funciona. É uma das poucas escolas da rede municipal que possui uma quadra poliesportiva coberta, feita em 2007, com dinheiro público", vociferou. 

Apesar das alegações do prefeito, o Jornal do Brasil teve acesso a fotografias tiradas dentro da escola Friedenreich, nas quais fica exposta a infraestrutura à qual estão submetidos seus alunos. As imagens, feitas entre 2010 e 2012, foram retiradas do blog da escola, mantido por alunos e professores, e nelas é possível ver o quadro negro interativo, a cobertura da quadra poliesportiva, entre outros aparatos de qualidade aparentemente boa. 

A a equipe de reportagem do JB, porém, não obteve permissão da Secretaria Municipal de Educação (SME) nesta quarta-feira (28) para corroborar as declarações do prefeito no local. O órgão alegou, por telefone, que as visitas são marcadas em até 48 horas úteis.    

Segundo Sandes, a comunidade está muito satisfeita com os resultados e a infraestrutura da escola. Além disso, ponderou que não faz sentido gastar dinheiro público duas vezes, na demolição e na construção em novo local.

"Queremos continuar ali. Queremos a acessibilidade que temos ali, não é preciso mudar nada. A comunidade está muito satisfeita com os resultados da escola. Não tem porquê tirar um prédio público que funciona e jogar dinheiro público duas vezes no ralo, para a demolição e a construção do novo", apelou Sandes.

Em relação ao novo local designado para a unidade educacional, em São Cristóvão, no prédio da antiga escola veterinária do Exército, o representante disse ser "totalmente inviável". De acordo com ele, um aluno com necessidades especiais de locomoção e sua mãe fizeram um vídeo mostrando a precariedade do caminho para as crianças na nova unidade. "Não estamos atrás de prédio. Queremos manter a qualidade do projeto pedagógico, que é muito mais importante do que o prédio", afirmou. 

MPRJ e ação civil pública

Na última quarta-feira (21), o Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ) distribuiu, na Justiça, uma ação civil pública (ACP) contra o município e o estado para manter as atividades da escola e evitar sua demolição. A ação foi proposta pela 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Proteção à Educação da Capital e recebida pela Juíza da 1ª Vara de Infância, da Juventude e do Idoso.

Segundo a ACP, estado e município devem "se abster de adotar qualquer medida que impeça, inviabilize, limite ou não proporcione o direito à educação" na escola, sob pena de multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento, a ser pago por cada ente federativo.

Em 2009, o MPRJ já havia aberto inquérito no qual prefeitura e governo do Rio afirmaram que os serviços previstos no contrato das reformas do Complexo Maracanã não incluíam reformas na escola. Segundo o MPRJ, a informação foi confirmada pela Secretaria de Obras do Estado em agosto deste ano.