Dom Eugênio se fez porta-voz dos presos políticos, mas defendia anistia restrita

Na década de 70, em plena ditadura militar, o então cardeal do Rio, dom Eugênio Sales, mesmo sendo considerado um conservador, conquistou a simpatia de vários militantes de esquerda que viviam a condição de presos políticos.

“Sua integridade moral permitia que confiássemos a ele diversos segredos. Ele nos ajudava no contato com nossos familiares, que eram proibidos de nos fazerem visitas”, lembrou  Perly Cipriano, na época um dos militantes de esquerda que receberam a visita do cardeal no presídio.

Como noticiou o Jornal do Brasil de 5 de junho de 1979, Dom Eugênio, durante o governo do general João Batista Figueiredo na presidência da República defendia anistia aos presos políticos, como informou aos próprios em na visita que fez ao Presídio Milton Dias Moreira, na Rua Frei Caneca, Centro da Cidade. Diz a reportagem que no encontro ele "voltou a se declarar favorável a uma anistia “a mais ampla possível”. Como Bispo, garantiu, ficaria “muito feliz” se ontem mesmo todos os presos fossem soltos".

Usando de sua sinceridade habitual, ele deixou claro sua diferenças políticas com os militantes de esquerda presos, ao explicitar que a anistia que defendiam era diferente. A reportagem explicou que ele "acrescentou, porém que seria demagógico advogar anistia por igual para presos cujo crime consiste apenas em divergir do sistema político e aqueles que “assaltaram  e mataram de forma torpe”".

 Na ocasião, o cardeal já comentava a ajuda que estava dando a refugiados das ditaduras militares de países sul-americanos, muito embora só fosse detalhar o que fazia muito tempo depois, em entrevista ao jornalista Fritz Utzeri, do JB. A notícia de junho de 1979 narra que ele "para, de certa forma, consolar os presos, D. Eugênio revelou que , só nos últimos tempos, mais de 2 mil estrangeiros, fugidos e talvez em piores condições do que vocês”, foram atendidos no Palácio São Joaquim".

Na foto que ilustra a matéria, dom Eugênio é recebido no presídio pelos presos políticos Gilney Viana, hoje coordenador-geral do Projeto Direito à Memória e à Verdade da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República; Alex Polari, hoje um dos líderes de uma das maiores comunidades de Santo Daime, no Acre; Nelson Rodrigues Filho, jornalista; Manoel Henrique Ferreira; o colombiano Jorge Odrias; e Perly Cipriano. O cidadão de braço cruzado que também aparece na foto não era preso.

Preso e torturado por sua militância na Ação Libertadora Nacional (ALN), Perly Cipriano lembra das visitas de Dom Eugenio Sales no Presídio Milton Dias Moreira, localizado no extinto Complexo Penitenciário Frei Caneca. O ex-detento, que hoje é sub-secretário estadual de Direitos Humanos do Espírito Santo, contou que o bispo assistiu aos encarcerados pela ditadura militar. "Era conservador, mas íntegro".

Ele conta que o bispo aceitava o papel de intermediar reivindicações às autoridades: “Ele também fez as vezes de porta-voz. Na foto, em questão, entregamos a ele um documento, assinado pelos presos, com denúncias e reivindicações. Sua influência certamente nos ajudou”.

Dom Eugênio não apenas encaminhava as reivindicações, como ainda exigia a presença de jornalistas. A mesma notícia explica que aquela era a primeira ida dele a um presídio, após cinco meses distante, como uma forma de protesto à proibição da entrada de repórteres. 

"A visita de ontem foi a primeira depois de cinco meses, quando o Arcebispo decidiu não voltar aos presídios enquanto não fosse permitido o livre acesso da imprensa nesses casos. A proibição foi baixada pelo Governador Faria Lima, no dia em que vários penitenciários denunciaram os maus-tratos que sofriam dos guardas", diz a reportagem.

Nem todos os presos políticos, porém, sabiam desta faceta do cardeal. Durante os dois anos e meio em que esteve atrás das grades por pertencer ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Álvaro Caldas, admite não ter tido conhecimento desta atuação de dom Eugênio. Hoje ele destaca este empenho do cardeal.

“Tínhamos a impressão que ele era mais amigo da ditadura do que um de seus opositores. Só tomei conhecimento mais tarde, através de matérias de jornal. Louvo a ação dele”, lembrou o hoje professor de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ).