Caveira mais antigo do Batalhão de Operações Especiais (Bope) se aposenta

Oito medalhas de honra ao mérito e seis moções concedidas pela Assembleia Legislativa, além de diplomas por bons serviços prestados e elogios atestados em boletins internos da Polícia Militar. Esse é o saldo do trabalho do subtenente José Roberto Garcez de Oliveira, de 53 anos, que dedicou 25 dos seus 34 anos de serviço ao Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Há nove anos no quadro da Subsecretaria Militar da Casa Civil, ele fala sobre o misto de emoções que sente às vésperas da aposentadoria e lembra os maiores desafios da carreira, como a primeira invasão, pela polícia, do Complexo do Alemão, em 1994, e a incursão no Vidigal, em 1995, em que os militares foram recebidos a tiro pelos traficantes. Casado há dez anos e pai de um menino de 11, ele solicitou a reserva remunerada para se dedicar à família e à saúde.

Porque você entrou para a PM e com foi parar no Bope?

Fui criado numa família de militares e sempre quis seguir essa carreira. Aos 19 anos, fui aprovado no concurso. Assim que me formei pelo Centro de Aperfeiçoamento de Praças (Cefap), fiquei lotado no Batalhão de Choque, mas em pouco tempo me destacaram para formar a primeira turma do Núcleo da Companhia e Operações Especiais, que hoje é o Bope. Em 1979, éramos apenas 15 homens à disposição do governador do Estado. Hoje, somos centenas à disposição da população.

O que significa fazer parte do Bope?

Dediquei minha vida ao Bope, fiz vários cursos para me aperfeiçoar e passei por privações. Mas é uma profissão emocionante. O trabalho em equipe é o que faz o sucesso das operações, e essa é uma marca do batalhão. Cada um na equipe tem sua função, mas também zela pelos companheiros e pelas pessoas de bem, porque nas comunidades há muita gente trabalhadora, honesta. O meliante não quer saber quem está na frente dele; morador ou policial, ele não tem nada a perder. O policial tem que ser preciso, observar de onde sai o disparo e ter certeza de que, ali, tem uma pessoa armada. Do contrário ele não pode atirar de volta, não pode colocar a vida da população e da sua equipe em risco.

Quais os confrontos mais marcantes na sua trajetória?

A megaoperação, em 1994, no Complexo do Alemão. O Governo do Estado nunca tinha entrado lá e tentou recuperar seu território. Também passei por momentos de sufoco numa missão em Vigário Geral, em janeiro de 1995, para prender traficantes, que nos receberam a tiros. Foram horas de disparo, de conflito, mas conseguimos cumprir nossa missão. O efetivo do Bope é especial, somos treinados e estamos sempre preparados para o conflito.

Como você vê a atuação do Bope hoje?

No batalhão, tem serviço 24 horas por dia. Quando eu era da equipe, em todo lugar que a gente chegava tinha conflito. Hoje, com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), é tudo diferente, porque a corporação entra para recuperar o espaço e garantir a dignidade dos moradores, que cooperam com os policiais. Esse é o maior reconhecimento do trabalho, porque mostra que a população confia no Bope.

Qual a sua contribuição para a corporação?

Por ser um dos mais antigos, passo minha experiência para os mais novos no dia a dia. Mas aprendo muito com eles, que receberam outro treinamento e chegaram com outra visão. Isso é fundamental para o trabalho em equipe. Minha vida foi dentro do Bope, passei por muitas instruções, cursos, operações. Por conta dessa dedicação, até casei tarde.

Porque vai se aposentar?

Tenho um filho, o Roberto, de 11 anos. Ele me cobra muito a presença em eventos, principalmente na escola. Recebi uma proposta para retornar ao Bope, mas a Marizângela, minha esposa, fez pressão e disse que tenho que dar espaço aos mais novos. Minha família sempre me apoiou nos momentos mais difíceis, agora está na hora de retribuir e curtir um pouco. Contribuí muito para o Estado, para a PM e a população, tenho certeza de que cumpri minha missão.

Que mensagem costuma passar aos policiais mais novos?

Quem está começando tem que levar a sério, se aperfeiçoar cada vez mais e ter amor à profissão. O policial é voluntário, a iniciativa de fazer o concurso é dele, então “tem que estar no sangue” e ter muita garra. Só fiz amigos aqui e já sinto saudade, porque minha equipe é uma segunda família. Quando fui me despedir, recebi elogios de todos, até do governador. É muita emoção. Esse é o maior reconhecimento do meu trabalho.