Barbearias estão no fio da navalha no Rio

Flávio Dilascio , Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Vítimas da evolução dos tempos e das mudanças mercadológicas, as barbearias de rua são um artigo em extinção no Rio de Janeiro. Redutos exclusivamente masculinos, foram perdendo espaço na cidade ao longo dos anos, graças à chegada dos aparelhos de barbear e à oferta de serviços de cabeleleiros unissex. Apesar de escassas, ainda há barbearias tradicionais no Rio, que se mantêm vivas graças à fidelidade de antigos clientes, preservando ícones de um tempo remoto, como navalha, pincéis de espuma, cadeiras em ferro fundido, chapelaria e caixa registradora.

Área onde havia uma profusão de barbeiros no início do século passado, o Centro da cidade ainda possui unidades que sobreviveram. Uma das mais tradicionais é a barbearia Nova Era, na Rua da Quitanda, com os seus 66 anos de bons serviços prestados.

Confesso que não é mais lucrativo manter este salão e só o faço porque tenho uma clientela fixa e possuo funcionários muito antigos. Os serviços daqui são bem limitados, mas procuramos manter uma qualidade que sempre foi a nossa marca afirma a proprietária do estabelecimento, Maria Fernanda Lemos Gonçalves, que herdou a barbearia do pai.

A alguns quarteirões dali, na Rua Santa Luzia, a barbearia de Fernando Rodrigues Pereira, não resistiu e passou a oferecer opções de cabeleleiro e manicure, apesar de contar com barbeiros e as tradicionais cadeiras e caixas registradoras.

Os clientes que vêm só fazer a barba são muito poucos. São pessoas mais velhas que frequentam aqui há muito tempo. Tive que adequar o meu salão aos tempos atuais diz Fernando, 67 anos, 55 deles à frente de seu estabelecimento.

Para relembrar o período áureo, a barbearia Club XV, na Rua do Ouvidor, decidiu comercializar chapéus Panamá artigo oriundo do Equador, que remete às indumentárias usadas no início do século passado para atrair clientes.

Nosso público é formado essencialmente por pessoas que trabalham aqui perto e turistas que chegam em navios. Precisávamos criar algo diferente diz o barbeiro Emanuel Alves, 57 anos.

Relação além do corte

Um dos principais trunfos para a sobrevivência das barbearias são seus ambientes acolhedores. Além de serem um local propício a um bom bate-papo, muitos clientes acabam ficando amigos dos seus barbeiros, o que explica a fidelidade.

Vou à barbearia não só para cortar o cabelo, mas também para encontrar os amigos relata o aposentado Antenor Guedes, 77.

As amizades, quase sempre, representam orgulho para os barbeiros.

Cortava o cabelo de figuras ilustres como Cândido Portinari, Roberto Burle Marx e Tom Jobim. Todos viraram meus amigos. O Tom, inclusive, me convidava sempre para ir à sua casa. Tenho uma foto enorme com ele lá na minha parede conta o barbeiro Hilario Agostini, 78 anos, dono do Salão Barbearia Internacional, em Copacabana (Zona Sul).

Cliente de uma barbearia do Rio Comprido, o comerciário José Vieira considera a relação com o barbeiro essencial.

Cortava havia 10 anos em uma barbearia da Rua Hadock Lobo, mas o meu barbeiro faleceu. Há seis meses, descobri uma nova barbearia e já estou ganhando confiança. Depois de vários cortes e muito papo, a ida ao salão passa a ser prazeroza.

Profissão é antiga, mas ainda não possui regulamentação

Apesar de ser uma das profissões mais antigas estudos dizem que surgiu na Grécia Antiga, entre 776 e 323 antes de Cristo ainda não há uma regulamentação para o ofício de barbeiro. Mesmo havendo cursos de formação, não existe a obrigatoriedade do diploma, o que revolta muitos profissionais. Um dos entusiastas da regulamentação é o barbeiro Jurandir Ribeiro, 64 anos, que se candidatou a cargos políticos em seis oportunidades (a última vez foi em 1998, quando concorreu a deputado federal) para lutar pelos direitos dos barbeiros. Em todas as oportunidades, ele não conseguiu se eleger.

Sem dinheiro para investir na campanha fica complicado se eleger. Hoje, luto por isso na Associação dos Profissionais de Institutos de Beleza do Rio de Janeiro, que enviou representação sobre o assunto ao ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi. Vamos ver no que vai dar diz Jurandir.

Com 53 anos de profissão, o barbeiro Roberto Silva Caetano, 66, aprova a ideia, principalmente em um momento em que a classe se encolhe com a diminuição da quantidade de salões da cidade.

De uns 20 anos para cá, a clientela das barbearias diminuiu muito. Temos que nos unir em torno de melhorias para a profissão afirma ele, que é dono da barbearia Jóia, no Rio Comprido, na Zona Norte.

Críticas ao sindicato

Para o barbeiro João Romenes, 48, a crise nas barbearias do Rio se dá pela falta de uma unidade entre os profissionais da área.

Não temos um sindicato forte destaca.

O barbeiro Henrique Catharina é pessimista quanto ao futuro de seus pares.

Nosso serviço está defasado. Acho que, no futuro, os homens só cortarão cabelo nos shoppings.