Marcelo Fernandes, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Enquanto o carioca se vê às voltas com a Cosip (Contribuição de Iluminação Pública), cuja cobrança começou nesta segunda-feira, nas ruas é grande o número de comerciantes informais que furtam energia de postes, tanto da Rioluz, órgão responsável pela iluminação das vias públicas, quanto da Light, empresa que fornece eletricidade. Quem paga pelos gatos, claro, é o contribuinte.
De acordo com a Light, o furto consome 21% do total da energia distribuída pela concessionária. Já a Rioluz não informou o quanto é furtado por mês, mas diz que em 12 meses de funcionamento do Disqueluz, recebeu 61 denúncias.
Na Zona Sul, alguns vendedores conseguem conectar fios na rede subterrânea. Já quando a rede elétrica é aérea, como na maior parte da cidade, a visão é, além de tudo, antiestética: um emaranhado de fios que vão das barracas até o alto dos postes. Além do aumento na conta de luz do consumidor comum e da prefeitura, existe ainda a possibilidade de curto-circuitos e interrupções no fornecimento.
Normalmente, quem trabalha na rua está errado, mas precisamos do emprego afirmou um camelô no Centro, que disse não poder dar mais informações pois iria prejudicar o pessoal e o chefe não vai gostar .
Ele negou a existência de gato em sua barraca, mas ao ser perguntado sobre os fios que a conectavam com um poste sorriu e se calou.
Para o professor de engenharia da UERJ David Vieira, aqueles que fazem gatos nas ruas têm muita sorte, pois as chances de ocorrer um curto-circuito são altas.
Se você tentar algo parecido com o que eles fazem na sua casa, com certeza acontece um curto. Eles desencapam os fios e fazem a gambiarra. Para o camelô, é barato, já que eles não pagam nada. Um contato feito dessa forma pode sobreaquecer a rede, provocando inclusive incêndios atesta Vieira, que lembra que kilowatt hora no Brasil é um dos mais caros do mundo.
A Light embute nas contas o valor de suas perdas, isso é normal e feito por qualquer empresa que precise de lucro para reinvestir comenta.
Segundo o vereador Paulo Messina (PV), com a Cosip o cidadão terá ainda mais gastos. Ele é um dos autores de um projeto de lei que pretende dissociar a cobrança do imposto da conta de luz.
Sou contra a Cosip, mas como a prefeitura tem maioria na Câmara, é impossível derrubá-la. É mais fácil cobrar do povo do que administrar o que se tem critica Messina, lembrando que além dos gatos diversos postes de luz ficam ligados o dia inteiro, desperdiçando energia.
Gatos de luz podem ser qualificados como furto, e o autor estar sujeito a uma condenação de um a quatro anos de prisão. De acordo com a Light, os ambulantes que quiserem legalizar suas ligações elétricas devem procurar o órgão responsável da prefeitura e requerer autorização para o uso do solo público. Após receber a autorização, é preciso solicitar a ligação oficial em uma das agências comerciais da Light.
De acordo com diretor de distribuição da empresa, José Humberto Costa, existe um avanço conseguido através de ações de conscientização, reforma de toda a rede e benefícios diretos ao consumidor, o que ajuda no combate aos gatos.
Durante muito tempo alimentou-se uma cultura de tolerância com a informalidade, como se o furto de energia não fosse crime. Hoje, o Rio vive um outro momento relata ele, acrescentando que a Light sempre atua com a ajuda da Delegacia de Serviços Delegados (DDSD).
Costa lembra também o problema do furto de energia em comunidades carente, onde o tráfico atrapalha o serviço de funcionários da empresa, e afirma que com a implantação de UPPs a situação vem melhorando.
Existe o exemplo do trabalho feito no Santa Marta, que se transformou num modelo de atuação para outras comunidades. Hoje, a comunidade tem índice de adimplência de 98% em contas de energia elétrica pagas, contra 2% antes da chegada do projeto informa ele.
A Rioluz ressaltou que caso alguém não qualificado mexa na rede elétrica, o choque pode provocar morte, e que equipes de técnicos da empresa fazem vistorias constantes.
Sobre a fiscalização, a Rioluz atribui a responsabilidade à DDSD, que conta com apoio da Guarda Municipal e da Polícia Militar para reprimir a prática.