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Um olho nos carros, outro no relógio

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Caio de Menezes, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Há apenas um ano trabalhando como entregador de uma pizzaria de Copacabana, Genílson Brito de Araújo já pensa em largar a profissão. Para ele, que afirmou não receber pressão expressa para cumprir prazos, a forma como é calculado seu salário influencia na sua maneira de conduzir e o obriga a fazer o que for preciso para que a pizza chegue rápido ao cliente,

Recebo uma quantia fixa e R$ 1,50 por cada entrega feita. Por isso, pego contramão, avanço sinal para voltar logo e sair outra vez. Assim, coloco o pão dentro de casa, mas sei dos riscos confessa Genílson, 29, que pensa em trocar de profissão sempre que fica sabendo que um colega se acidentou.

Romildo da Silva Vieira, que trabalha para outra pizzaria e também para uma farmácia, pilota até 16 horas por diae diz que a pressão sobre os motoqueiros para que cumpram prazos é grande.

Nenhuma empresa assume, mas somos cobrados.

Uma das sócias da Pizzaria Master, Patrícia Enrique, afirma que a pressão parte dos clientes, que reclamam quando a pizza demora a chegar. Segundo ela, é característica dos motociclistas trabalharem pressionados .

Eles já tem pressão em cima. Sentem-se obrigados a cumprir os prazos e andar rápido observa Patrícia, que trabalha com quatro motociclistas.

Para o secretário-geral do Sindicato dos Empregados Motociclistas do Rio de Janeiro (Sindmotos), Pedro Paulo de Carvalho, a direção perigosa e em alta velocidade é característica da profissão. Segundo ele, não existe pressão das empresas sobre os motoboys.

É do trabalho deles, que só existe por isso. As motos são mais velozes, passam por espaços mínimos, inviáveis para carros. Não existem mais empresas que pressionam os profissionais a cumprir prazos impossíveis, o que há é obedecer compromissos normais, como qualquer outro tipo de profissional disse ele.

Com a experiência de ter trabalhado como motociclista por mais de dez anos, Pedro Paulo afirma que dificilmente quem anda motorizado sobre duas rodas se acidenta.

Raras vezes, você se depara com o motociclista profissional envolvido em algum acidente. Quem se acidenta é o motoqueiro, que faz bandalha, passa pela passarela, sobe calçada. Quem trabalha no trânsito adquire malícia argumenta Pedro, contrariando a grande parte dos motoboys ouvidos pelo JB, que admitiram cometer irregularidades durante o expediente.

Major bombeiro defende

o fim das entregas com motos

A proibição do uso das motocicletas como meio de transporte e, principalmente, para fins de trabalho seria a única forma de por fim à imprudência e os excessos dos entregadores, segundo o major médico socorrista do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio e Janeiro (CBMERJ) Edson Gonçalves, atualmente subcomandante operacional do 1º Grupamento de Socorro e Emergência (GSE), que atua na capital. Ele cita o relatório sobre socorros realizados no segundo semestre de 2009, que apontou que 47% das pessoas acidentadas com motos no município do Rio têm entre 20 e 30 anos, faixa etária em que, para o oficial, se enquadram a maior parte dos motoboys.

De acordo com o major, o que mais chama sua atenção é que muitos motociclistas se machucam por não usar os equipamentos de proteção. Segundo ele, mesmo quem trabalha pilota a moto desrespeitando a lei.

No exame inicial que fazemos no paciente, reparamos que 45,8% não porta o equipamento de proteção diz. Isso contribui para que 28,5% dos traumas sejam na cabeça, onde a gravidade é maior.

Óbitos

Das 2.023 vítimas de quedas de moto registradas no segundo semestre do ano passado na cidade, 22 morreram. Mas, para o subcomandante operacional do 1º GSE, além das mortes, há as sequelas.

Em um acidente, é o corpo do motociclista que recebe o impacto. Por conta da alta velocidade e da imprudência, condutores ficam incapazes para o trabalho, dependendo dos serviços de saúde e previdência argumenta o major, que apontou as imediações da Avenida Brasil como a região de maior índice de acidentes na cidade.