Thiago Feres, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - O governador Sérgio Cabral anunciou ontem a compra de três terrenos do Exército, no valor de R$ 46 milhões, onde serão erguidas unidades habitacionais para as vítimas das fortes chuvas que atingiram o estado do Rio e mataram, até a noite de ontem, 252 pessoas. As áreas ficam no Rio, em Niterói e em São Gonçalo, e o maior dos terrenos está situado na Avenida Brasil, com 200 mil metros quadrados. No entanto, ainda não é possível afirmar quantas casas serão construídas em cada uma das localidades.
O que posso adiantar é que faremos um número considerável de residências, mas não poderia precisar quantas são afirmou o governador.
Enquanto Cabral trabalhava para viabilizar novas moradias, um grupo formado por 223 moradores desabrigados do Morro do Borel, na Tijuca (Zona Norte), realizava um protesto no Ciep Doutor Antonie Magarinos Torres Filho, onde foram alojados provisoriamente. Os manifestantes impediram que estudantes entrassem na escola logo nas primeiras horas da manhã. Cartazes e faixas cobrando soluções das autoridades foram colados no portão, visando atrair a atenção da prefeitura para o estado precário e de abandono em que eles estão vivendo.
Ouvi toda a imprensa divulgando medidas emergenciais para vários morros da cidade, menos para o Borel esbravejava o pedreiro Iomar de Queiroz, 33. A chuva abriu um buraco na minha casa. Só consegui salvar a minha televisão. Agora, estou aqui com um laudo da Defesa Civil interditando a minha residência e esperando o aluguel social para poder seguir a minha vida ao lado da minha família. Não aguento mais dividir o banheiro com os alunos.
Durante as negociações de ontem, a prefeitura ofereceu a remoção dos desalojados para o abrigo Vale Encantado, no Alto da Boa Vista, mas a proposta não foi aceita. No início da tarde, a Defesa Civil chegou ao Morro do Borel para vistoriar uma série de casas. Somente com o laudo de interdição em mãos, as 51 famílias que estavam no Ciep poderiam ser encaminhadas para receber o aluguel social na Secretaria de Habitação.
Acredito que tudo estará resolvido em até 48 horas avaliou o secretário municipal de Assistência Social, Fernando William, que chegou ao local por volta das 11h.
O boato de que haveria reféns no interior da escola chegou a circular pela região, mas foi logo desmentido. No Ciep, localizado na Rua São Miguel (em frente ao Morro do Borel), estudam 540 alunos, muitos deles moradores da própria comunidade. Os manifestantes também reclamavam da falta de doações de mantimentos.
A nossa comida está acabando. As crianças precisavam comer uma carne anteontem e não tinha nada lamentava Giovaliane Marcielle. Implorei para um senhor que passava aqui na rua comprar uma dúzia de ovos na mercearia para a gente poder preparar. As doações pararam de chegar, e a nossa situação está extremamente complicada.
Sobre o protesto, a Secretaria de Habitação informou que todas as pessoas que perderam suas casas receberão o aluguel social o mais rápido possível. Durante os fortes temporais, três pessoas morreram após tragédias ocorridas no Morro do Borel.