O dia em que o Rio parou

Carolina Monteiro, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Depois de quase 24 horas de chuva sem trégua, os habitantes do Rio contavam terça-feira à noite seus mortos e seus prejuízos. Foi um dos maiores temporais da história da cidade, que deixou em seu rastro deslizamentos, alagamentos, congestionamentos, 96 mortos e centenas de feridos até o fechamento desta edição, às 22h. Em toda a cidade, 1.410 pessoas estão desabrigadas e quatro permaneciam desaparecidas. A tragédia só não foi maior porque o prefeito Eduardo Paes pediu na manhã de terça-feira que a população não saísse de casa, e foi atendido.

Dependendo do que for avaliado durante a madrugada, podemos manter ou não o pedido disse o prefeito do Rio, em entrevista coletiva concedida às 18h.

O governador Sérgio Cabral decretou luto oficial de três dias e pediu aos moradores de áreas de risco que deixem suas casas, pois a meteorologia não descarta a ocorrência de novas precipitações nas próximas horas.

É um quase suicídio permanecer nesses lugares ressaltou Cabral. Vamos entrar com o estado de emergência e calamidade, porque são vários municípios, várias regiões atingidas no estado do Rio.

O presidente Lula, que cancelou uma visita ao morro do Alemão na manhã de terça-feira por causa do temporal, também solicitou à população que mora em áreas sujeitas a deslizamentos que saia dos locais de risco.

Eu já participei de tentativa de tirar gente de área de risco. Não é fácil, porque, às vezes, as pessoas estão vendo que vai acontecer uma desgraça, mas não querem sair. Acontece que só pode melhorar de vida quem estiver vivo afirmou Lula

Apesar da diminuição das chuvas durante a tarde, diversos pontos permaneceram interditados, como a Avenida Niemeyer, o túnel Noel Rosa, as avenidas Borges de Medeiros e Epitácio Pessoa, ambas na saída do túnel Rebouças, cujo acesso do Cosme Velho também foi fechado. Quem saía do túnel no sentido Copacabana era obrigado a desviar pelo Humaitá, usando o Túnel Velho para chegar ao bairro. A autoestrada Grajaú-Jacarepaguá deve continuar interditada por um período entre 15 e 30 dias para remoção de entulho.

Até a tarde de terça-feira, a Defesa Civil, que manteve o alerta máximo durante todo o dia, havia atendido a 552 chamados. Só na capital, os deslizamentos de terra mataram 35 pessoas (até as 22h de terça-feira). Deslizamentos no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, foram os que fizeram mais vítimas, 14 no total.

A CET-Rio trabalhou terça-feira com 70 agentes, 5 reboques pesados e 9 leves. Até o fim do dia, o órgão tinha realizado 350 atendimentos a carros enguiçados.

A Comlurb também trabalhou em esquema especial com 177 caminhões, requisitando mais 30 de empreiteiras e 20 pás mecânicas. No total, foram retiradas 2.400 toneladas de detritos e terra das ruas e mais de 40 árvores.

Para desobstruir as vias, a Secretaria de Ordem Pública removeu 113 automóveis que foram abandonados nas ruas durante a chuva.

Afirmo que quem ficou alagado e preso no meio da rua não será multado disse Eduardo Paes.

O prefeito anunciou a liberação de todos os órgãos municipais para fazer contratos emergenciais para atender às demandas criadas pela chuva.

Lula promete mais recursos para drenagem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu terça-feira trabalhar em conjunto com o governo fluminense e a prefeitura do Rio de Janeiro para aumentar os recursos do Programa de Aceleração do Crescimento destinados a obras de drenagem no Rio de Janeiro. Na capital fluminense desde terça-feira à noite, Lula fez a afirmação ao falar com jornalistas no saguão do Copacabana Palace, quando deixava o hotel para participar de reunião do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Vamos trabalhar com o governador Sérgio Cabral e com o prefeito Eduardo Paes para que, no PAC 2, a gente coloque mais dinheiro para drenagem, para ver se daqui a 10, 15 anos possamos ter uma cidade do Rio de Janeiro menos sofrida do que a que temos hoje disse Lula.

O presidente afirmou ainda que a situação vivida pela capital fluminense não representa uma ameaça para a realização da Olimpíada de 2016 ou da Copa do Mundo de 2014 na cidade.

Não chove todo dia nem toda hora. Quanto acontece uma desgraça, acontece. Normalmente, os meses de junho e julho são mais tranquilos, e o Rio de Janeiro está preparado para fazer as Olimpíadas e a Copa do Mundo com muita tranquilidade minimizou Lula.

O presidente teve que cancelar compromissos que teria terça-feira para inaugurar obras no Complexo do Alemão devido ao grande volume de água na cidade. Na terça-feira à noite, ainda no Rio, pediu um minuto de silêncio pelas vítimas da chuva. Segundo Lula, é preciso conscientizar melhor a população que vive em áreas de risco de modo a evitar tragédias como a das últimas horas.

O mais importante nessa história é que precisamos conscientizar a população para que deixe as áreas de risco, principalmente os que moram em encosta de morro e em áreas sujeitas a deslizamento. Que vá para a casa de parentes ou de amigos e espere a chuva passar, o que não é fácil. Só pode melhorar de vida quem estiver vivo alertou Lula, acrescentando que é preciso esperar que a chuva passe para saber das reais necessidades do Rio. Lamentamos o que aconteceu, mas quando o homem lá em cima esta nervoso e faz chover, nós só temos e que pedir para que ele pare a chuva, para que se possa tocar a vida na cidade.

O Ministério da Justiça pretende enviar dois helicópteros para resgate e apoio a outras operações no Rio de Janeiro. Desde terça-feira, as aeronaves da Polícia Rodoviária Federal e da Força Nacional de Segurança estão de prontidão em Brasília e seguirão para o Rio assim que o governo do estado manifestasse que aceita a ajuda. A expectativa é de que, além das aeronaves e da tripulação, 40 bombeiros da Força Nacional de Segurança, especializados em busca e salvamento, sejam enviados para prestar atendimento às vítimas.