Flávia Salme , Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Entre duas e três horas da madrugada, moradores das ruas Cosme Velho, Indiana e Itamonte, onde estão instaladas as mais conhecidas mansões do Cosme Velho, viveram um misto de terror e solidariedade. Nesses locais, até agora, mortes não foram registradas. Contudo, muitos afirmam que nasceram de novo, como os 15 idosos internados na clínica Atendo; a filha de sete anos da caseira Vera; e o estudante Pablo Rabelo, 15.
Meu marido me acordou após ouvir o primeiro deslizamento. Corremos para o quarto do Pablo, num tempo suficiente de tirá-lo de lá: uma árvore invadiu a janela, jogou o ar-condicionado sobre a TV, e tudo desmoronou sobre a cama em que ele dormia contou a Rosane Rabelo, mãe do adolescente.
Para deixar o imóvel, ela e o marido, o advogado Lucas Amazonas Rabelo, pularam o muro do prédio, na Rua Itamonte. Enquanto saíam de casa, resgataram o filho mais velho, Rodrigo, 32, e a irmã de Lucas. Nos fundos do edifício outro susto: os carros da família estavam soterrados, e um novo deslizamento deixou todos na rua até as 5h.
Enquanto isso, os oito funcionários de plantão no Hospital Atendo, na Rua Indiana, corriam para resgatar 15 pacientes idosos, em estado terminal dois com quadro clínico grave, cujos quartos foram invadidos pela lama.
Em menos de 40 minutos, todos os quartos do hospital estavam soterrados, a água batia na cama dos pacientes. Como muitos estão em coma, devido ao estado terminal, não entendiam o drama. Mas os que estavam lúcidos se desesperaram. Tivemos de tirá-los do hospital com macas, cadeiras de rodas e até no colo. Tudo no escuro, não havia luz. E ainda tivemos de pegar os aparelhos, para mantê-los vivos. Foi um pesadelo contou a técnica de enfermagem Márcia Caetano, 30.
Próximo ao hospital, a caseira do imóvel da Sociedade Japonesa Nikkei, na Rua Cosme Velho, gritava ajuda para o vigia resgatar sua filha de sete anos, enquanto corria com o filho de 15 para fora da casa da família, que ficou soterrada. Ao escapar da terra, todos foram carregados pela chuva.
Deus protege, perdemos tudo, mas estamos vivos resignou-se a mulher, que se apresentou como Vera.
No início da tarde, a família da assistente social Verônica Szuster deixou o abrigo improvisado no Centro Social Cristo Redentor, na Rua Indiana, onde passou a noite ao lado da família Rabelo, da caseira Vera, e outras 20 famílias. Foi para casa de uma amiga, sem saber quando poderá voltar:
Estamos vivos, é o que importa.