Thiago Feres, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Considerado a droga da morte, o crack não poupa nem crianças e adolescentes. Na Embaixada da Liberdade, localizada estrategicamente na Avenida dos Democráticos, em Manguinhos (Zona Norte), bairro onde existe uma das principais cracolândias da cidade, meninos e meninas lutam para dar o primeiro passo e abandonar o vício fatal. Com a ajuda de profissionais educadores de arte, assistentes sociais e médicos eles imaginam finais felizes para tristes histórias.
Perdi a perna direita aos três anos de idade, num acidente de carro conta, com o olhar perdido o menor P. R., de 16 anos, enquanto joga vídeo game. Sou nascido e criado no Jacarezinho, e meu pai era traficante. Morreu em um confronto com a polícia. Só estudei até a 2ª série, fui expulso do colégio depois de quebrar o portão e não quero mais estudar. Entrei para a vida do crime aos 8 anos, quando usei droga pela primeira vez, maconha. Minha mãe fica triste, mas o crack me faz bem.
Para se aproximar dos jovens, é preciso muita conversa e um longo processo de convencimento. Os próprios profissionais do abrigo ainda não conhecem profundamente todas aquelas histórias de vida.
Colocamos os colchões no chão para criar identificação com a realidade da rua a que eles estavam acostumados explica o médico Marcelo Cunha. Também conversamos com eles sentados no chão. Quando você vê um menino com a idade do seu filho com a cara no lixo, em plena calçada, parte o coração. Muitos deles são a segunda ou a terceira geração do abandono. Costumo dizer que os filhos apanham dos pais e os pais apanharam da vida. Nossas crianças estão caídas, sedentas de ajuda.
Ao longo da visita, uma constatação: o comportamento desses meninos e meninas é semelhante ao de refugiados. Os olhares são sempre desconfiados, até mesmo para os assistentes sociais. Num primeiro momento, muitos deram nomes falsos. Só após algum tempo contaram a verdade.
Nasci em Madureira e morei na Cidade de Deus sem nunca conhecer o meu pai. Vou pra casa todos os dias. Uso crack e maconha, e só estudei até a 5ª série diz R.S., de 17 anos, que interrompe bruscamente a série de perguntas e respostas, alegando não gostar muito de falar.
Não ter tido a referência paterna é comum entre os jovens da Embaixada da Liberdade.
Como eles foram gerados? Muitos deles num baile funk ou numa doideira qualquer. Nenhum familiar se interessa por eles, são quase descartáveis. A droga ocupa o papel do estado. Se a gente desse um violino na mão deles, certamente eles aprenderiam a tocar, no entanto, eles conhecem primeiro o fuzil ou o crack. Quando anoitece, muitos me contam que durante aquele dia deixaram de fazer cinco gols , que seriam cinco pequenos delitos relata o médico Marcelo Cunha.
Nas últimas duas semanas, seis jovens (cinco meninos e uma menina) foram encaminhados para centros de reabilitação total e reencontraram os pais. De acordo com o Ministério da Saúde, 1 milhão de pessoas consomem crack em todo o país.
Profissionais também ficam abalados com as histórias
Mesmo após 15 anos trabalhando como educadora artística, Cristiane Barboza ainda sente reflexos da profissão na sua vida pessoal.
Adoro lidar com esses meninos e meninas, mas admito que há uma certa interferência na minha vida pessoal em alguns momentos. Já sonhei com alguns casos, assim como costumo ficar bastante chocada quando a situação é muito grave. Nunca deixei de trabalhar ou cheguei a me deprimir, mas a realidade é dura demais diz.
Após circular grandes capitais do país estudando os efeitos do crack nos jovens, o médico Marcelo Cunha revela a triste realidade no cenário nacional.
O crack rompeu fronteiras. Não é exclusividade do Rio ou São Paulo lamenta.
Para a assistente social da unidade, Elisabete Mouta, nada é pior do que a morte.
Fico me questionando sobre erros ou acertos. O óbito deles mexe diretamente comigo.
Tratamento ainda não tem um método definido
A Embaixada da Liberdade de Manguinhos funciona como um projeto piloto para a Secretaria Municipal de Assistência Social. De acordo com o secretário Fernando William, a cidade tem soluções para adultos, mas ainda é carente em centros exclusivos para os mais novos.
O crack é tão violento que os próprios especialistas ainda se questionam sobre um tratamento padrão. Acredito que o ideal seja perto da família, num modelo ambulatorial. No entanto, muitos se recusam a estar com os pais. Essa experiência está sendo válida e vem servindo para aproximar os jovens dos profissionais, e de um possível tratamento contra o vício revela.
Na Embaixada, os jovens recebem cuidados como banho, alimentação, local para dormir e opções de diversas atividades. Noventa por cento dos frequentadores são meninos. Em breve, o bairro do Catete (Zona Sul) deverá ganhar uma nova unidade. O espaço já estava definido, seria no Centro de Recepção de Crianças e Adolescentes Taiguara, mas recentes temporais danificaram as instalações e outros lugares estão sendo observados.
Estamos avaliando com muito cuidado para não provocar qualquer tipo de manifestação da sociedade, já que é um projeto que lida com uma situação muito forte diz Fernando William.
Cada tratamento contra o crack custa, em média, mensalmente, R$ 2.500 aos cofres públicos. Atualmente, a cidade do Rio possui dois Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que são o estágio posterior às Embaixadas. No entanto, o governo federal já determinou a construção de outros oito, ainda sem previsão de inauguração.
A partir deste mês, um programa da Secretaria de Assistência Social, em parceria com as secretarias de Educação e Cultura, irá oferecer aos alunos da rede municipal aulas de prevenção ao uso de drogas, principalmente o crack. Cartazes e cartilhas serão distribuídos.
Polícia identifica cracolândias
Segundo investigações da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod), os pontos que comercializam crack no Rio estão aumentando. No entanto, as duas principais cracolândias da cidade estão no Catete (Morro Santo Amaro) e no Jacarezinho e em Manguinhos (Zona Norte).
DEPOIMENTO
R. A., 16 anos
Nasci no Morro da Caixa D'água, na Penha, e quando fiz 12 anos decidi fugir de casa. Não sinto saudade da minha família. Cheguei a frequentar o colégio até a 3ª série, mas optei por abandonar os estudos, e não pretendo voltar. Comecei a usar o crack na favela de Manguinhos, mas já tinha experimentado outros tipos de droga, como maconha e cheirinho da loló em morros da Penha. Não sei explicar o que sinto quando uso crack, mas já roubei algumas vezes depois fumar a droga. A Embaixada da Liberdade é legal, já que as pessoas não obrigam a gente a ficar preso. Cheguei até aqui através de um amigo meu e pretendo parar de usar qualquer tipo de droga um dia. Sobre o meu futuro, não sei o que esperar nos próximos anos da minha vida.