Crea-RJ: 15% das construções em Angra estão em áreas de risco

Portal Terra

RIO - O Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ) afirmou nesta sexta-feira que cerca de 15% das casas em Angra dos Reis - aproximadamente 500 residências - estão em áreas de risco. Segundo o presidente do Crea-RJ, Agostinho Guerreiro, o governo deveria dar uma alternativa a médio prazo para que os moradores dessas residências deixem o local.

"A gente às vezes chama esses moradores de irresponsáveis. É claro que eles têm uma parte de responsabilidade, mas ninguém vai morar num lugar daquele, numa pirambeira ou num morro se ele tem uma alternativa melhor. O fato concreto é que nós temos hoje, no Brasil, um déficit habitacional que está na casa de quase dez milhões de moradias. Então, nesse primeiro momento é dar proteção à vida dessas famílias, do jeito que for possível," disse o presidente.

Agostinho Guerreiro afirmou que uma fiscalização intensa poderia ajudar a evitar tragédias como as que aconteceram em Angra dos Reis e deixaram pelo menos 50 mortos. "Legislação existe: tanto a legislação ambiental que tem um viés federal e estadual, quanto a legislação municipal, que é quem autoriza, em última instância, os projetos para qualquer tipo de construção, em qualquer lugar. O Brasil, infelizmente, faz muito pouco caso da prevenção de acidente. Normalmente, a gente socorre quando os grandes males acontecem".

A falta de uma cultura preventiva para esse tipo de tragédia também foi afirmada pelo presidente do Crea-RJ. "Infelizmente, o Brasil não tem uma cultura preventiva, todo ano as chuvas se repetem em algum lugar do país, e toda década registramos pelo menos uma tormenta de grandes proporções", ele disse, ressaltando que o Estado do Rio se caracteriza por baixadas e regiões serranas agredidas em seu meio ambiente.

Guerreiro defendeu ainda a criação da GEO-RIO estadual, ou seja, um instituto de geotécnica que elaborasse estudos e relatórios para todo o Estado do Rio de Janeiro e não só para a capital. "Não podemos nem avaliar as agressões de 20 anos atrás, porque a preocupação ambientalista era muito diferente. Mas hoje sabemos que 90% da Mata Atlântica, por exemplo, já se foram, pela ação predatória. Essas condições do solo do estado tornam o debate ainda mais sério", disse.

O presidente disse ainda que a região de Angra dos Reis e Paraty apresenta outro grave problema: a situação fundiária e lembra quando esteve à frente do escritório fluminense do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), nos anos 80 onde promoveu o levantamento das terras no Estado. "Cerca de 70% dos conflitos fundiários no Estado estavam na região de Angra e Paraty. Eram disputas por terras devolutas, heranças, posse e propriedade da terra, muitas vezes com enfrentamentos e mortes", afirmou.

Tragédia em Angra

Deslizamentos de terra causaram dezenas de mortes na madrugada do dia 1º em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. No centro de cidade, uma encosta cedeu e deslizou por cima de casas no Morro da Carioca. Na Ilha Grande, o deslizamento por conta das chuvas durante a madrugada encobriu a pousada de luxo Sankay, lotada de turistas, e mais sete casas, na enseada do Bananal. Cerca de 120 homens da Defesa Civil, dos Bombeiros e da Marinha participam do resgate.