Thiago Feres, Jornal do Brasil
RIO - Brigas entre sócios, falências de empresas e problemas judiciais são responsáveis pela maioria dos esqueletos de prédios que jazem na paisagem carioca. Segundo o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, existem quase 2.800 construções paradas em todo o estado pelas mais variadas razões. Grande parte dessas obras inacabadas vira estacionamento irregular, depósito de mercadorias de ambulantes ou moradia de sem-teto.
No número 89 da Rua Santa Clara, em Copacabana (Zona Sul), a obra começou no ano de 1993 e deveria culminar em mais um luxuoso hotel no bairro. Uma briga entre dois sócios, porém, teria provocado a suspensão da empreitada em 1998. Desde então, o local ficou abandonado. Um homem encontrado pela reportagem no local disse que, há quatro meses, o espaço se transformou em um estacionamento, embora a Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop) negue a existência de alvará e mesmo de uma solicitação oficial para expedição do documento.
Doze pessoas trabalham aqui desde a inauguração, há quatro meses. Fiquei sabendo que um dos sócios irá retomar as obras em breve conta o homem, que se identificou como Renato Lins, 29.
O Santa Vaga, nome dado ao estacionamento, cobra R$ 7 por cada veículo pelo período de uma hora. Depois, mais R$ 3 por cada hora adicional ou fração.
Além de tudo, é caro demais opinou o cliente Ciro de Andrade, 55.
Acúmulo de lixo
No Centro, mais precisamente na Rua da Relação, no número 43, um prédio que pertence à Imobiliária Pão de Açúcar integra a lista de 10 imóveis apontados pela Comissão Permanente de Recuperação de Imóveis da Secretaria de Saúde e Defesa Civil, como os mais problemáticos da região. Ele é o único da lista que ainda está inacabado.
Os proprietários já foram notificados, mas, até o momento, nenhuma medida foi tomada quanto ao acúmulo de lixo, maior queixa dos comerciantes vizinhos, que nem sabem quem responde pela obra. A informação é desconhecida até mesmo pela Polícia Civil.
Não tenho idéia de quem seja o responsável pelo prédio informou o agente de plantão na 1º DP (Praça Mauá), que fica praticamente em frente à construção.
Os proprietários da Imobiliária Pão de Açúcar foram procurados pela reportagem do JB, mas ninguém foi localizado.
No Rio Comprido (Zona Norte), a situação se repete. Um edifício de sete pavimentos, na Rua do Bispo, número 35, está com as obras paralisadas há vários anos. No local, também funciona um estacionamento. Os mensalistas pagam o valor de R$ 70 por uma vaga, e a Seop também diz não ter concedido qualquer alvará.
Moro e trabalho aqui com a minha família há sete anos. Nem estou recebendo meu salário, já que o proprietário da obra não aparece já faz um tempo. Também não sei o motivo da construção ter sido embargada disse um homem que se apresentou somente como Cláudio. Logo após a saída da reportagem, ele retirou a placa que anunciava o estacionamento.
O que mais me preocupa é a falta de fiscalização. Um prédio como esse não passa por inspeções e pode provocar um acidente de repente criticou o estudante de medicina Alan Ribeiro, 25.
Quanto às invasões dos imóveis por sem-teto, a Seop informou que executa as ações de desocupação somente quando a Justiça determina. Em abril, famílias que ocupavam um edifício na Praça Mauá foram retiradas e cadastradas. Foi a última ação do tipo realizada este ano.