Cine Íris, um clube privê centenário

Carlos Braga, Jornal do Brasil

RIO - Raros são os transeuntes que passam em frente ao número 49 da Rua da Carioca, no Centro, e não entortam o pescoço, discretamente, para ver o que há lá dentro. A beleza do hall, que mistura estilos arquitetônicos do início do século 20, somada à fama de antro de sem-vergonhice, atrai incontáveis olhares de soslaio para o lugar.

Bem, a boa notícia para esses curiosos é que eles poderão saciar (parcialmente) a vontade. No próximo dia 30, o Cine Íris completa 100 anos e vai ter entrada gratuita. Os shows e os filmes, porém (e é aí que entra o parcialmente) serão mais família . Os habituais gemidos das produções pornô darão lugar ao silêncio de filmes como Luzes da cidade e Tempos modernos, ambos de Charles Chaplin.

Também haverá um bolo de 10 metros, que vai ser servido na Rua da Carioca, e shows de teatro de revista com a Companhia de Cida Moraes conta o dono do Cine Íris, Raul Pimenta Neto, bisneto do fundador.

A festa começará às 10h e irá até as 15h. Depois que prefeitos, deputados e demais próceres partirem, o Cine Íris volta à sua programação habitual: filmes eróticos intercalados por sessões de strip-tease feminino (12h30, 15h30 e 18h30). Quem quiser ficar, terá que desembolsar R$ 9. Pela quantia, pode-se permanecer no cinema o dia inteiro. E há muita gente que faz isso, conta Raul. Por sua estimativa, cerca de 35% do público é formado por aposentados. Chegam pela manhã e só vão embora às 21h30, quando o cinema é fechado. Como frequentam o estabelecimento diariamente, muitos têm passe livre. Saem para almoçar e voltam à tarde.

É uma espécie de clube. O curioso é que aqui nunca tem fila na bilheteria diz Raul. Antes de abrirmos, às 10h, ficam todos do outro lado da rua, fingindo que estão esperando o ônibus.

Três filmes revezam-se durante o dia no telão. Os poucos espectadores (Raul calcula que são 400, ao longo do dia) não parecem muito interessados na película. Dispersa pelos 330 lugares e pelo balcão superior, a maioria anda incessantemente pelos corredores. Subitamente, parecem achar o que procuram e sossegam por instantes em alguma poltrona. O entra e sai do banheiro também é frenético. Talvez porque no local se venda cerveja (R$ 2,50 a lata).

O público daqui é muito variado. Há gente idosa e jovem, executivos e office-boys, gays e heterossexuais conta o produtor artístico do Cine Íris, André Amabile. Cada um vem em busca de alguma coisa. Mas nunca tivermos problemas.

O show erótico é anunciado ao som de Love Theme, de Barry White. Os spots das laterais do palco são acesos e um globo de espelhos começa a girar, pendurado no teto. Cada moça se apresenta durante o tempo de duas músicas, escolhidas por elas mesmas. Como apoio para a apresentação, uma cadeira branca, de plástico, posicionada em cima de um tablado vermelho no palco. Até a última sessão, 19 garotas se apresentam (cinco na primeira e na última e nove na segunda). Ganham R$ 150 por semana. Basicamente, desfilam em roupas exíguas na primeira canção e livram-se delas na segunda. Algumas descem até a platéia, outras preferem evoluir nos postes instalados nas laterais do palco. O público assiste às performances respeitosamente e as aplaude no fim.

Nunca houve caso de espectadores agarrarem as meninas garante Raul.