Um túnel no fim da luz

Marcelo Migliaccio, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Sujos, escuros, pouco policiados e repletos de sem-teto, túneis se transformam em armadilhas

Passar de carro ou a pé pelos túneis de uma cidade como o Rio é sempre um sobressalto. Mal iluminadas, sujas e inseguras, as galerias dão uma medida do relaxamento do poder público e muitos aspectos. Em Copacabana, por exemplo, são comuns os assaltos a pedestres que cruzam os túneis do bairro, além do consumo de drogas e dos sem teto dormindo na passagem destinada aos transeuntes.

Meu filho já perdeu o relógio e o celular aqui contou a dona-de-casa Dianascente Santana, 50, que tomou coragem e passou pelo Túnel Novo (que liga Botafogo ao Leme) na última segunda-feira à tarde.

Não havia pivetes à espreita naquele momento, mas o bancário aposentado João de Almeida, 80, por via das dúvidas, levou um de seus dois cachorros para fazer a travessia:

Já evitei dois assaltos aqui por estar com o meu rotweiler. Uma vez, dois caras de bicicleta ameaçavam uma senhora e, quando me viram com o cachorro, fugiram.

Funcionário de uma concessionária de automóveis localizada na saída do túnel, na Avenida Princeza Isabel, Jorge Souza contou que chega a ver três assaltos por dia. Segundo ele, os pivetes têm um esconderijo na entrada do túnel, onde se escondem e guardam o produto do roubo. No mesmo local, sem-teto armazenam colchões, panelas e roupas.

No Sá Freire Alvim, localizado no pé do Morro Pavão-Pavãozinho, e no Túnel Velho, próximo à Ladeira dos Tabajaras, os problemas maiores são o consumo de drogas (a qualquer hora do dia) e a sujeira.

O cheiro é insuportável, parece que ninguém limpa esse túnel há muito tempo torceu o nariz a doméstica Shirley Silva, 42, que passou ali na última quarta-feira.

Nas galerias, parcialmente tomadas pelos contêineres das obras do metrô, o cheiro de fezes e urina tomava conta do ambiente. No vizinho Túnel Major Vaz, menos de cinco minutos após a chegada da reportagem do JB, um taxista parou seu carro no meio da pista e desceu para urinar.

Não muito longe dali, um casal consuimia tranquilamente uma pedra de crack. Às três da tarde. Na mesma hora, não muito longe, na esquina da Sá Ferreira com Nossa Senhora de Copacabana, cinco guardas municipais conversavam animadamente.

Dizem que aqui só não tem assalto porque os traficantes lá de cima não deixam comentou Janete Veloso, 70, que passa pelo túnel diariamente há quatro anos.

Sobre a sujeira, ela é até condescendente com a Comlurb:

Não adianta limpar, porque os mendigos sujam de novo.

De fato, no inverno, o frio leva mais sem-teto a dormirem nos túneis. No do Joá, a tradutora Carolina de Paiva já cansou de ver, ao passar de carro, fogareiros acessos no vão entre as pistas, com gente cozinhando no início da noite.

É muito triste ver tanta gente sem ter onde morar.

Para quem passa de automóvel, porém, a visão da miséria não é o único problema. Este ano, já aconteceram arrastões e assaltos no Rebouças e no Santa Bárbara, mas nenhum dos dois é tão fantasmagórico quando o Noel Rosa, que liga Vila Isabel ao Sampaio, na Zona Norte. Que o digam os rodoviários que trabalham na linha de ônibus 623, a única cujo itinerário inclui o túnel, localizado sob o beligerante Morro dos Macacos.

Quando tem tiroteio, os passageiros se jogam no chão, mas eu e o motorista não podemos fazer isso. Aí, só nos resta rezar disse uma cobradora, que, de tanto medo, se recusa a dar o nome.

Mais corajoso, o motorista Valdimir Leite afirmou que passageiros do coletivo que dirigia já foram assaltados no momento em que o veículo passava pelo Noel Rosa.

Quando o tiroteio está muito forte no morro, desvio o caminho e vou pela São Francisco Xavier.

Outro motorista da mesma linha relatou que ficou assustado ao ver um grupo de traficantes cruzar a pista na saída do túnel, no Sampaio, com armamento pesado à mostra.

Também é comum funcionários da empresa que administra a linha 623 verem carros abandonados dentro das galerias. Policiais... bom, isso é mais difícil de ver por ali.