João Pequeno e Ricardo Schott, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Depois dos camelôs da Lapa, no mês passado, é a vez de antigos expositores da Feira de Artes do Lido, em Copacabana, questionarem o critério de licenciamento da prefeitura, que selecionou vendedores de produtos industrializados e eliminou artesãos com mais de 20 anos de história no local onde continuam trabalhando amparados por liminares.
A escolha dos expositores a serem licenciados no Lido não foi feita por sorteio como a dos camelôs da Lapa, mas pela confecção de uma obra de arte ou peça de artesanato atividades às quais a feira é destinada. Os trabalhos foram julgados pelo Centro de Artes Calouste Gulbenkian, ligado à Secretaria Municipal de Cultura. No entanto, a seleção ignorou a participação de cada expositor na formação da feira, criada em 1983, e não observou os produtos que cada um deles comercializa no local.
No último sábado, o JB constatou, por exemplo, que um dos selecionados, Paulo Tadeu Nascimento, vendia roupas de fabricação industrial, com o pai, Américo Alves dos Santos.
Sempre vendi roupas aqui. Para a prova, meus filhos entraram em um curso de serigrafia e fizeram uma bermuda. Eu não sabia fazer nada, meus filhos é que aprenderam contou Américo, admitindo que jamais foi artista ou artesão e que as roupas que ele e os filhos seguem vendendo, após a prova, não têm origem artesanal.
Desde 1986 na Feira do Lido, a artesã Érica Leal e Silva, tirou 81 na prova do Calouste Gulbenkian, mas não foi selecionada e se fia em uma liminar para continuar trabalhando.
A peça que fiz era uma caixa, cuja tampa tive que começar em casa, porque leva duas horas só para secar e não daria tempo na prova, que tinha três horas explicou. Durante o teste, não houve nenhuma pessoa para perguntar como eu estava fazendo acrescentou.
Érica protesta ainda por entender que ajudou a feira a crescer.
Tenho trabalho conhecido por todos. E pago barraca, taxa de energia, não estou na ilegalidade desabafa Érica, que vive em Paciência, na Zona Oeste.
Morador de Santa Cruz, também na Zona Oeste, o artesão Gilson dos Santos foi mais um a reclamar da seleção.
Fiz essa viola com um cabo de violão antigo e uma cabaça, só material de reciclagem, e fui reprovado. Não entendi o motivo. Estou há 20 anos aqui e tive que entrar com advogado para poder continuar vendendo.
De acordo com o pintor Albert Kolker, um dos fundadores da Feira do Lido, os próprios expositores haviam pedido um novo licenciamento porque não havia desde 1986, e a feira estava enchendo .
No entanto, esperávamos um critério mais claro da prefeitura.