Carlos Braga, Jornal do Brasil
RIO - Antes de Cesar Maia assumir a administração do Rio, em 93, o cargo de subprefeito era uma peça sem visibilidade na máquina da prefeitura. Foi quando o antigo alcaide convidou um grupo de jovens ambiciosos, entusiasmados e sem tradição na política, para ocupar esses postos. Ao atual prefeito, Eduardo Paes, coube a da Barra e Jacarepaguá. Também surgiram nessa leva o atual secretário de obras, Luiz Antonio Guaraná, chefe de gabinete de Paes na subprefeitura, e o secretário da Ordem Pública, Rodrigo Bethlem, subprefeito da Lagoa e do Méier. A atuação de Paes nos dois bairros da Zona Oeste lhe deu cacife para bancar o jogo eleitoral. Como os subprefeitos de Cesar Maia, os de Paes, professam admiração pelo chefe. Em comum, todos garantem ser desprovidos de ambições políticas. Será?
Do morro do Juramento para a subprefeitura
O primeiro contato de André Santos, subprefeito da Zona Norte, com Eduardo Paes foi no fim de 1998, no morro do Juramento, em Vicente de Carvalho (Zona Norte do Rio). Paes foi levado por um amigo comum, para ajudar a trazer melhorias para a comunidade.
Eu era diretor da associação de moradores de lá. Pena que não pude apoiá-lo em sua campanha para deputado federal. Mas brinquei com ele: disse que ainda trabalharíamos juntos.
Casado, 37 anos, pai de três filhos (um menino de 3 anos e duas mocinhas de 9 e 4), morador de Cavalcante, André Santos trabalhava na Secretaria Estadual de Governo quando reencontrou Paes, já então secretário estadual de Esportes.
Fui tratar de projetos esportivos. Perguntei se ele não estava me reconhecendo. Você é do Juramento, não é? , ele perguntou. Quando o Cabral resolveu lançá-lo a prefeito, na pré-campanha, comecei levar o Paes para a Zona Norte, onde não tinha muita entrada.
Paes venceu a eleição e convidou André para assumir a subprefeitura da Zona Norte, que cuida de 27 bairros. Sono é um luxo com o qual tem tido pouco contato.
O Paes é um cara exigente, muito trabalhador. Eu, que sempre acordei cedo, passei a não dormir mais. Só umas três ou quatro horas por noite.
Pretensões eleitorais, por enquanto, não estão nos planos.
Sou um bom soldado, se o prefeito ou o governador determinar a gente encara, mas não penso nisso.
Com o chefe desde as jornadas na Barra da Tijuca
Sábado foi dia de reunião do secretariado com o prefeito Eduardo Paes, da qual também participam os subprefeitos. Era também o aniversário da mulher de Marcus Vinícius Lima da Silva, 36, subprefeito do Centro. Ele tinha prometido levá-la para assistir ao show de Roberto Carlos no Maracanã. Mas a hora passava e nada de a reunião dar sinais de ter chegado ao fim.
Quando acabou, saí correndo, moro em Jacarepaguá. Troquei de roupa e fui para o show. Acho que ganhei uns pontinhos com ela.
Desde que foi trabalhar com Paes na subprefeitura da Barra, em 94, a vida de Marcus virou uma correria. Conheceram-se por acaso. O ex-chefe de gabinete do atual prefeito, Marcelo Parente, que morreu no voo da Air France, namorava a irmã do amigo de Marcus. Um dia, Parente perguntou se ele conhecia Jacarepaguá. Apresentou-o a Paes e os dois rodaram uma semana para ver como a coisa funcionava. Virou assessor dele e, desde então, trabalha com Paes, onde ele estiver.
Ele é uma pessoa que se preocupa com a cidade. É muito exigente. Fica irritado quando vê as coisas não acontecerem. Principalmente quando dependem de uma intervenção simples poder público.
Quando a folga na agenda é maior, Marcus pega sua moto e dá um giro até Itaipava (Região Serrana do Rio):
Sou apaixonado por motociclismo. É a minha válvula de escape.
Muito tempo nas ruas e pouco no escritório
Foi durante a campanha de Eduardo Paes para deputado federal, em 98, que Tiago Mohamed, 32, despertou para a política. Um amigo o convidou para participar de uma reunião política com Paes. Gostou e integrou carreatas e eventos da campanha. Mas não se considerava um militante, e, sim, um eleitor entusiasmado.
A campanha pode não ser interessante para muitas pessoas, mas foi o que me despertou para a política. Com o trabalho na subprefeitura é que a gente tem noção do poder que temos para mudar a vida das pessoas.
O dia de Mohamed na subprefeitura, ele conta, começa às 7h30 e não tem hora para terminar. Como todos os que foram ouvidos para esta reportagem dizem, o prefeito exige que eles vejam os problemas pessoalmente, na rua.
Ele sempre frisa que o nosso trabalho é muito mais na rua que no gabinete.
E, como todos os ouvidos pelo JB, Mohamed dispara telefonemas para assessores e órgãos públicos quando vê alguma coisa errada nas suas andanças.
Ontem, fui passando por Jacarepaguá e ligando para os assessores, cobrando algumas coisas que ainda não tinham sido feitas.
Casado há seis anos, com um filho de três, nos raros momento de folga prefere ficar com a família. Quando sobra mais tempo, joga uma peladinha com os amigos.
Vida política começou como gerente de restaurante
A trajetória política do subprefeito da Tijuca, Luiz Gustavo Trotta, 49 anos, começa em um restaurante do Centro, onde foi gerente. Era lá que Sergio Cabral, que ainda se candidataria ao seu primeiro mandato de deputado estadual, volta e meia almoçava e trocava uns dedos de prosa com o funcionário bem falante.
Sempre gostei de ler sobre política e economia.
A partir daí, a vida de Trotta oscilou entre trabalhos em órgãos do governo e empresas privadas. Chegou a ser gerente de uma grande lanchonete por dois anos.
Trabalhei na Secretaria de Assistência Social e em uma ONG que acolhia a população de rua.
Até que veio o convite de Cabral para que Trotta coordenasse a campanha de Paes na Tijuca. Não o conhecia, mas o admirava.
Ele tem uma trajetória espetacular. Pulou de vereador para deputado federal. É um cara que trabalha muito, e põe todo mundo para trabalhar.
Este mês, Trotta, morador do Engenho Novo, está cuidando, entre outras tarefas, dos eventos em comemoração aos 250 anos da Tijuca. Outros problemas, porém, não deixam de pipocar em sua mesa. Como as reclamações que chegam sobre a população de rua. Problemas, não, Trotta prefere chamar de oportunidades.
Estamos buscando parcerias para resolver a parte da educação e do aluguel social.
Casado e pai de quatro filhos, Trotta diz que Paes é um chefe exigente e que não gosta de falta de iniciativa. O que lhe garante agenda cheia diariamente. Este ano, ainda não conseguiu uma folguinha para tomar um chopinho na Avenida Atlântica, em Copacabana, o seu programa preferido.
É o melhor lazer do mundo, ficar lá sem fazer nada. Mas não faço isso há mais de seis meses.
Malhação antes do trabalho para aliviar tensões
Foi na campanha para vereador de Paes que Bruno Ramos, 30 anos, conheceu o atual prefeito. Corria o ano de 1996, e o encontro se deu em um comício caseiro, para onde Bruno foi levado por um amigo.
Em 98, participei da campanha de Paes para deputado federal. Em 2000, ele foi secretário do Meio Ambiente, e eu coordenei uma área da Zona Sul da secretaria. Chegamos a intimar a Cedae diversas vezes por vazamento de esgoto.
Chamado para assumir a subprefeitura da Zona Sul, a primeira medida de Bruno foi transferir a sede das acanhadas instalações do Parque da Catacumba, na Lagoa, para a Gávea, aonde chega às 7h30.
Estou me permitindo ir à academia antes. Na quinta-feira passada, fui a uma operação achando que iria ser simples, mas começamos a encontrar muita coisa.
A operação era para verificar se um cabo de alta tensão passava embaixo de uma igreja, em Copacabana, o que proibiria construções no terreno. Foram dadas 48 horas para que o responsável apresentassem a documentação. A exemplo do chefe, Bruno também faz fiscalizações em aviso prévio.
Na Zona Sul, os principais problemas são moradores de rua e desordem. Acho que as pessoas estão começando a acreditar que o choque de ordem veio para ficar.
Como exemplo de realização neste primeiro semestre de atuação, Bruno escolhe a Rua Sá Ferreira, em Copacabana, de onde sai um dos acessos para a favela do Pavão-Pavãozinho.
Ainda não deu para fazer tudo o que queremos, mas já enfrentamos o problema do consumo de drogas ali. Foi um passo importante.
Mas uma ação da subprefeitura recebeu uma saraivada de críticas. Foi a apreensão de uma bicicleta presa a um poste na Gávea. Foi considerada excessiva. Bruno diz que não foi bem assim.
Pertencia a um estabelecimento comercial, que já tinha sido advertido. Não era de alguém que deixou ali por poucos momentos.
Formado em direito, casado e pai de Mariana, de 2 anos, Bruno dedica à filha os raros momentos de folga.
Às vezes, tento ver televisão, mas durmo.
O rei da Zona Oeste sem tempo para o Flamengo
Edmar Teixeira, 48, morador de Cosmos, orgulha-se de conhecer todas as comunidades da Zona Oeste. Diz que não deixa de entrar naquelas que são dominadas pelo tráfico, nem nas comandadas por milícia. Conheceu Eduardo Paes pessoalmente em 2007. Disseram-lhe que aquele seria o futuro prefeito do Rio.
Comecei a fazer reuniões com formadores de opinião da Zona Oeste. Em junho, pedi exoneração (Edmar trabalhava na secretaria estadual de Governo) para poder mergulhar na campanha dele.
Edmar, então, levou Paes a todas as comunidades que conhece. Também organizou muitas carreatas. No decorrer do segundo turno, o candidato disse a Edmar que ele seria o rei da Zona Oeste. Confirmada a vitória, o prefeito o convidou para o cargo. Empossado, quer melhorar o transporte da região.
Faltam linhas de ônibus. O império das vans é um problema sério. Mas não sou contra o transporte alternativo.
Edmar, que concluiu o ensino médio, chega à subprefeitura, em Campo Grande, às 7h20, depois de deixar a filha na escola. Como seus colegas subprefeitos, está mais na rua do que no escritório.
Sigo sempre a orientação do prefeito: acordar cedo, dormir tarde e passar a maior tempo na rua. Paes não gosta de burocracia. Ele quer que a gente pegue o telefone e mande fazer. Uma vez, em um engarrafamento na Barra, o Paes ligou para a presidente da CET-Rio (Claudia Cecin) para que ela viesse solucioná-lo.
A rotina de trabalho tem feito Edmar deixar de lado o futebol com os amigos. Nem aos jogos do Flamengo tem conseguido ir.
Sou flamenguista praticante. Mas fins de semana são os melhores dias para visitar as comunidades. Está todo mundo em casa.