Primeiro muro em favela faz 27 anos

Marcelo Migliaccio, Jornal do Brasil

RIO - A palavra da moda é muro, ou seu eufemismo ecolimite. Na comunidade Dona Marta, em Botafogo, ele já está em fase adiantada de construção e, na Rocinha, em São Conrado, as associações de moradores negociaram com o governo do estado e concordaram em coibir o crescimento horizontal da favela, protegendo assim a mata que a cerca. O primeiro desses muros, no entanto, está fazendo 27 anos e foi erguido por moradores do Alto Gávea na extensão da Rocinha que se derramou sobre o bairro.

Fui eu e mais uns oito moradores que financiamos a construção conta o advogado e presidente da Associação de Moradores do Alto Gávea, Luiz Fernando Penna, 64, recente pivô de uma discussão sobre peças de arte nazista em uma festa da Adidas. Na época, convocamos todos os moradores daqui, mas como sempre, há uns que não contribuem. Nem pedimos permissão à prefeitura, mas, pelo menos, do nosso lado a favela foi contida.

O muro, de cerca de 500 metros de extensão e três de altura, foi erguido entre 1979 e 1982 e limitou o crescimento do sub-bairro da Rocinha chamado 199, que hoje tem entre 200 e 500 moradias, a maioria já de alvenaria.

René Hasenclever, presidente da Associação de Moradores da Gávea, da qual a entidade dirigida por Penna é dissidente, diz que o muro pioneiro era uma reivindicação de pessoas que tinham casas na parte mais alta do bairro e estavam apreensivas com o crescimento do número de barracos em volta. Além de se aproximarem de suas casas rapidamente, as novas moradias abriam caminho em plena Mata Atlântica.

Um grupo me procurou e disse que precisávamos construir um muro. Eu pedi que fizessem um abaixo assinado para ser encaminhado ao governo municipal, mas eles achavam que eu deveria construí-lo conta René. Eu ainda quis organizar um projeto no antigo Banco Nacional de Habitação para aquelas famílias carentes que estavam se estabelecendo ali, mas os moradores do alto preferiram construir o muro por conta própria.

Filho de uma família que veio de Caratinga (MG) para se estabelecer na Rocinha quando ele tinha 11 anos, Jorge Luis da Silva, o Jorjão, hoje com 53, foi um dos pedreiros contratados pelos moradores do Alto Gávea para trabalhar na construção do muro.

Na época, só havia barracos de tábua nesta parte aponta Jorjão, que hoje é marceneiro.

Engolida

Ele conta que, na época, fazia a limpeza de uma das casas de luxo do Alto Gávea. Porém, a residência foi fagocitada pela favela.

Quando os barracos começaram a se aproximar da casa, o proprietário resolveu abandoná-la conta Jorjão, lembrando que um dos inquilinos foi o diretor de TV Geraldo Casé (1928-2008).

Após o abandono da mansão, mendigos passaram a ocupá-la, transformando-a numa pocilga.

Coube ao comerciante Luiz Fernando de Oliveira, 49, ser o invasor mais forte: expulsou os sem-teto e limpou toda a sujeira. Ele vive na casa invadida até hoje.

Eu morava de aluguel na parte da Rocinha que dá para São Conrado com meus cunhados e família. Aí, não deu mais para pagarmos e viemos para essa parte da Gávea, ocupar a casa. relata. Tiramos muito lixo, chovia dentro, era um cheiro horrível, e as paredes estavam queimadas.

Com a multiplicação de casas da favela, hoje quase não se distingue a antiga mansão, e a piscina deu lugar à moradia de outra família.

Veja se não vai nos tirar daqui agora pede ao repórter Viviane Santana de Oliveira, filha dele. Na época, meu pai falou com o dono e ele disse que podíamos ficar.