Nota de R$ 1 some das ruas e já se torna raridade no Rio

Marcelo Migliaccio, JB Online

RIO - Quando foi a última vez que você teve uma nota de R$ 1 na mão? Não lembra? A sorveteira Lourdes Lopes, que vende picolés na esquina da Rua Santa Clara com Nossa Senhora de Copacabana, também não.

Acho que tem mais de um mês que eu peguei a última puxa pela memória.

Desde 2005, o Banco Central não emite mais as notinhas esverdeadas da unidade básica do dinheiro brasileiro. Um ano antes, quase metade das cédulas circulantes era de R$ 1, e havia 800 milhões delas espalhadas pelo país. Ontem, pelo site do BC, o número era de pouco mais de 174 milhões. Parece muito, mas quem trabalha com dinheiro miúdo nas ruas só tem visto moedas nesse valor.

Lourdes, 56 anos, diz que vende cerca de 50 picolés ao preço de R$ 1 por dia. Todos pagos em moedas ou em notas de R$ 2 ou mais.

Prefiro receber em notas, são melhores para pegar e não pesam no bolso opina ela, sorveteira há nove meses.

Duas no bolso

Perto dali, Fernando Conceição Guedes, 75, que em sua tabacaria vende cerca de 700 maços de cigarro por dia há 46 anos, abre a gaveta da caixa registradora para mostrar que não há cédulas de R$ 1 ali. As duas únicas que tem, ele tira da carteira.

Levo essas duas no bolso porque pego muito táxi explica. Não gosto de moedas. Caem no chão, e tenho preguiça de abaixar para pegar.

Graças à fidelidade de anos na agência bancária em que tem conta, Guedes retira, uma vez por semana, R$ 3.000 em notas de R$ 2 e R$ 5.

Dispensa as moedas por não gostar de carregar peso até a tabacaria Lolló, uma das mais tradicionais da Zona Sul do Rio.

E moeda de R$ 1 também está difícil. O banco não quer dar surpreende. Seguro as que tenho até não poder mais.

Em frente à loja, o anotador do jogo do bicho Eufrásio Alves Rodrigues, 65, teve mais sorte que a sorveteira e pegou uma nota de R$ 1 há quatro dias.

Quando vem uma eu guardo, não passo para a frente confessa.

A conversa sobre o sumiço das notas de R$ 1 atrai pedestres.

Pego sempre no bingo diz um senhor que passa.

Êpa, bingo não está proibido?

É tem uns por aí, mas não coloca isso não pede o jogador.

Negociada a informação em troca da omissão de seu nome, o bingueiro aceita dar sua opinião.

Acho que ela deveria continuar circulando, é muito bonita. Nos Estados Unidos também estão tirando a nota de um dólar afirma.

Só com gringos

Funcionária da loja de internet Cyber Point, Janaína Melo, 19, também prefere as cédulas.

Na hora de dar troco em moedas, ninguém quer.

A origem das poucas notas de R$ 1 que ela recebe está nas casas de câmbio frequentadas pelos turistas estrangeiros que aparecem ali para entrar na web.

Só eles, de vez em quando, aparecem com alguma conta. Outro dia, uma cliente argentina pediu uma nota de R$ 1 para guardar de lembrança e eu não tinha para dar de troco. Acabei dando moeda mesmo.

Informais não só no comércio que fazem, mas também na forma de encarar a vida, os camelôs já se acostumaram com o sumiço das cédulas e alfinetam os políticos:

Devem ter roubado tudo, por isso é que não tem mais diverte-se Araci Alves, 36, diante da banca improvisada na qual expõe maquiagens de composição e gosto duvidosos.

O comerciário aposentado ngelo Horta Ortega, 72, antecipa o que o leitor encontrará no texto ao lado, onde o chefe do Departamento de Meio Circulante do Banco Central explica as razões da aposentadoria das notas verdinhas.

Para o BC é bom, porque a moeda dura muito mais que a cédula ensina. Para nós, a nota é melhor de portar na carteira. Moedas requerem uma bolsinha extra só para elas.