Felipe Sáles, Jornal do Brasil
RIO - A ansiedade acumulada ao longo de mais de três décadas com a construção do Arco Metropolitano do Rio, iniciada há quase um ano, tem de agregar mais alguns meses de paciência. Sob a justificativa das fortes chuvas, da demora na concessão de licenças ambientais e da suspeita de sítios arqueológicos no percurso da via, o estado não concluiu nenhum dos 72 quilômetros aos quais ficou incumbido dentro dos 145 previstos no convênio com o governo federal.
Já entre os vizinhos do Arco, a ansiedade transforma-se em apreensão: em algumas regiões, as obras causam prejuízos de até 30% ao comércio, enquanto moradores que seriam desalojados sequer ouvem mais falar em indenização.
Não foram atingidos nem sequer 1% dos gastos previstos com o projeto atacou o deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB), que ao longo dos anos presidiu várias audiências públicas sobre o tema. O governo não teve agilidade suficiente para tocar a obra. Até as desapropriações estão atrasadas. Tudo foi programado, deveria ser mais ágil.
O projeto, que vai ligar o Porto de Itaguaí a Itaboraí cortando cinco municípios da Baixada Fluminense, pretende desafogar o trânsito da Avenida Brasil, da Ponte Rio Niterói e de trechos metropolitanos das rodovias Rio São Paulo (BR-116) e Rio Petrópolis (BR-040). Enquanto vários trechos das vias federais como a duplicação da Rio Santos e a construção de pontes estão em fase avançada, o estado só começou a obra dos 72 quilômetros da parte estadual da estrada, ligando a BR-040, na altura de Saracuruna, até a BR-101, no acesso ao Porto.
A previsão de conclusão da obra, iniciada em 26 de junho, era de 24 meses, prazo que agora se estendeu para até o fim do ano que vem . O projeto foi orçado em R$ 928 milhões, dos quais R$ 228 milhões ficaram a cargo do governo do estado e o restante proveniente de recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Segundo a própria Secretaria Estadual de Obras (Seobras), o governo está começando a construção de viadutos sobre a Estrada de Adrianópolis, em Nova Iguaçu, e Rio Douro, em Duque de Caxias, além de iniciar sondagens de terrenos e terraplanagens .
Quatro mil desapropriações
A Seobras garante que mais de 70% das cerca de 4 mil desapropriações foram concluídas, mas o assunto ainda causa calafrios em pessoas como o guardador de carros Márcio dos Santos, 35 anos. Desde 2001 ele mora no Bairro Amaral, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde foi um dos primeiros a chegar. A comunidade foi dizimada pelo Arco, que vai cortar a Estrada de Santa Rita, próximo ao posto da Polícia Rodoviária Federal, passando entre barracos rumo a Duque de Caxias. No fim do ano passado, donos de cerca de 10 casas e uma igreja deixaram a região, mas as obras só começaram há menos de dois meses e ainda estão na fase de sondagem do terreno.
Foram até minha casa, mediram tudo, tiraram fotos, pegaram meus documentos e desapareceram. Vi a comunidade crescer e agora desaparecer contou. Fizemos tudo pela comunidade, trouxemos luz e ajudamos a erguer as casas dos vizinhos. Queria construir um quarto e me impediram. Os poucos vizinhos que restam estão abandonando porque tudo ficou deserto. Minha mulher e minhas filhas já não ficam aqui por medo.
Enquanto Márcio vê o início das obras, Floriano Marques, gerente de um restaurante na comunidade Brisa Mar, em Seropédica, às margens da Rio Santos, convive com a construção há cerca de seis meses. Seu estabelecimento fica em frente a um dos 41 viadutos previstos no megaempreendimento que contará ainda com 18 pontes e 36 passagens subterrâneas. A maior parte do trecho de responsabilidade do governo federal está em fase adiantada, mas, para Floriano, acabou causando mais prejuízos do que benefícios.
O esqueleto do viaduto esconde o restaurante e o movimento caiu pelo menos 30% contou. Mas o pior foi quando destruíram a manilha de um canal, no fim do ano passado, quando um caminhão fazia uma manobra. O Rio Guandu, que vem da Serra, passa debaixo do restaurante e quando chove fica tudo debaixo d'água, com água nos joelhos. Ninguém fala em indenização nem se move para consertar o problema.