Debate elevou alegria e confiança dos eleitores. Analistas dizem que Paes foi melhor e eleição está indefinida

A alegria venceu o medo e elevou a confiança do público que acompanhou o último debate televisivo entre candidatos ao governo do Rio de Janeiro antes da eleição, transmitido pela Rede Globo na quinta-feira. A pedido do JORNAL DO BRASIL, a agência AP/Exata, de inteligência em comunicação digital, fez uma análise sobre os sentimentos que a atração despertou no público. Foi o segundo estudo do tipo feito especialmente para o JB. No primeiro turno, o debate transmitido pelo SBT — o segundo dos quatro realizados pelas emissoras — foi o analisado.

A transmissão de ontem registrou 28 pontos de audiência para a emissora, o que representa 43% de participação de público, no horário. No primeiro turno, o encontro promovido pela emissora com os candidatos alcançou 25 pontos. Para o trabalho, foram estudados 1.785 tuítes geolocalizados, publicados a partir do Estado do Rio de Janeiro, no último dia 25, entre 22h e 23h35. Foram coletadas publicações contendo as hashtags #DebateRio #DebateGlobo e #DebateGloboRio.

São oito as emoções analisadas pelo estudo: raiva, previsibilidade, desgosto, medo, alegria, tristeza, surpresa e confiança. Programador da AP/Exata, o paulista Ricardo Martins foi quem transformou em algoritmo a Teoria das Oito Emoções Básicas desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Robert Plutchik (1927-2006). Seu trabalho consiste em detectar as emoções das pessoas a partir do que elas registram nas redes sociais. Depois, cada emoção ganha sua própria sequência formada apenas pelos números zero e um, o “alfabeto” da computação.

Macaque in the trees
Emoções por candidato (Foto: Arte JB)

Quando o debate entrou no ar, não havia registro de alegria. O principal sentimento era o de medo, manisfestado por 25% dos internautas. Quinze minutos depois, o quadro se inverteu: a alegria atingiu pouco mais de 20% e o medo despencou para 10%, mantendo o índice, com alguns altos e baixos, até o final. Quando o debate terminou, 30% dos internautas manifestavam alegria, e a confiança chegou a pouco mais de 15%. Surpresos, um pouco acima de 10%. Cerca de 7% demonstraram tristeza, e 5%, desgosto.

No debate do SBT, analisado no primeiro turno, o medo era o sentimento de 20% da audiência, no início da transmissão. Chegou ao final empatado com a tristeza, em 15%. Já a raiva foi de 0% a 15% em menos de cinco minutos e chegou ao final como o sentimento de 20% dos internautas.

“Esse sentimento de alegria pode ter relação com a decisão do voto. É o mesmo sentimento que predominou no dia da votação, no primeiro turno. As pessoas gostam de votar. No caso do debate, a alegria pode indicar que a atração talvez tenha ajudado as pessoas a se decidir. Em relação à confiança, quem se manifesta nas redes sociais, neste momento, tende a ter seu voto definido e por isso a confiança é alta”, explicou o jornalista, pós-doutorado em Regulação da Internet Sergio Denicoli, um dos sócios da agência.

Em sua opinião, o debate da Rede Globo foi “mais leve” do que o analisado no primeiro turno, “com toques de humor”, na maior parte das vezes, a partir de “tiradas” do candidato Eduardo Paes (DEM). Não por acaso, ele provocou o maior índice de sentimentos positivos 30,37% contra 28,85% de Wilson Witzel (PSC). Witzel ficou com o maior índice de sentimento negativo (30,80%) no confronto com Paes (24,41%), que superou o adversário no número de tuítes de conteúdo neutro (45,21% contra 40,35%).

De todas as emoções, a que alcançou o maior índice foi a confiança, que Paes venceu com pequena margem: 18%. O candidato do DEM também provocou mais alegria (próximo a 17%) e surpresa (8%). Já Witzel causou no internauta mais tristeza (quase 16%), raiva (14%), medo (cerca de 13%) e desgosto (cerca de 9%). Os dois apresentaram graus de previsibilidade bem próximos, com ligeira vantagem para o candidato do PSC (10%).

“O sentimento de alegria predominou, em dois momentos, sempre por iniciativa do candidato Eduardo Paes, que foi mais assertivo e coloquial: no início, quando questionou o adversário sobre o recebimento de auxílio-moradia, como juiz, apesar de ter casa própria e, ao final, quando ironizou o fato de Witzel estar se vangloriando por ter recebido apoio do senador eleito Flávio Bolsonaro. “Você parece uma criança!”, disse Paes, provocando manifestações na plateia. Nesse ponto, o índice de alegria passou de 15,02% para quase 30%”, comentou Denicoli.

Segundo observou o analista, a “atitude mais agressiva” de Paes, “interessado em virar o jogo nessa reta final de campanha”, produziu os maiores índices de confiança entre os telespectadores. Os picos ocorreram em dois momentos: de 22h35 a 22h40, quando os candidatos falaram sobre habitação e o legado deixado pelas Olimpíadas; e de 23h a 23h05, momento em que Paes acusou Witzel de ter celebrado a morte da vereadora Marielle Franco (PSOL). A menção ao episódio também provocou pico de raiva entre os internautas e aumentou o nível de desgosto.

“Esse foi um dos momentos altos do debate, o que provocou maior número de manifestacões no Twittter, com muitas críticas ao candidato do PSC”, afirma o analista, que lembra que faz parte desse tipo de análise identificar a quantidade de “perfis militantes” em ação na hora do monitoramento. Esses “militantes” são robôs, perfis falsos ou criados exclusivamente para interferir em processos eleitorais, uma prática que vem crescendo a cada eleição e que, segundo Denicoli, começou a ser usada com mais força, no Brasil, a partir de 2016.

No caso do debate da Rede Globo, os “militantes” corresponderam a 11% do total de perfis que formaram a audiência. O debate do SBT, analisado no primeiro turno, registrou 7%. Nos dois casos, segundo Denicoli, os índices são considerados baixos, ou seja, provocam poucas interferências nos rumos dos debates. Os robôs são computadores programados para publicar vários temas a uma velocidade muito alta. Eles são os principais “aliados” dos “militantes”.

Boca de urna

Na avaliação de Denicoli, a análise das emoções provocadas pelo debate indicou uma polarização do público entre os candidatos, sendo que Paes “foi um pouco melhor”. Na sua opinião, a eleição para o governo do Rio de Janeiro chega na sua reta final indefinida. O analista lembra, porém, que esse quadro pode representar um panorama mais favorável para Paes, uma vez que, no primeiro turno, ele obteve metade das intenções de voto em relação ao seu adversário.

O analista de opinião pública Henrique Serra concorda com Denicoli que Paes se saiu melhor no debate, “mas não nocauteou”. “Os candidatos se preparam para este último encontro. Os outros são quase que preparatórios. Neste momento, o eleitor aproveita para tirar suas dúvidas. Paes foi incisivo desde o começo, e a inexperiência de Witzel pesou contra ele”, afirmou Serra.