Quando a São Clemente abriu a segunda noite de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, não se imaginava que a irreverência da reedição do enredo "E o samba sambou", de 1990, em que a escola de Botafogo criticava os rumos do carnaval carioca, fosse simbolizar, por ironia do destino e ao fim das apresentações na Avenida, a dicotomia que os julgadores da Liesa teriam de analisar e resolver este ano para decretar a campeã do Carnaval de 2019, que será revelada, hoje, a partir das 16h30, quando os envelopes com as notas começarem a ser abertos no Sambódromo.
Tudo porque os desfiles de segunda-feira evidenciaram a divisão que tomou a festa, com a injeção de dinheiro na produção de carnavais sob encomenda, a influência da contravenção nos resultados e outros desvios do sentido maior do carnaval, lembrados no samba da amarelo e preto, em que se denunciou como a profissionalização do desfile impôs mudanças às escolas e o carnaval uma manifestação de resistência e de afirmação da cultura popular diante da classe dominante passou a ser regido pelo poder financeiro.
De um lado, Mangueira e Paraíso do Tuiuti desenvolvendo enredos marcados por forte crítica social a primeira, de forma mais direta e contundente; a segunda, de maneira mais indireta e irreverente. De outro lado, Vila Isabel e Viradouro apresentando um carnaval suntuoso e imponente, com suas alegorias e fantasias de muito bom gosto, super elaboradas e bem acabadas, tão ao gosto do copro de jurados do Carnaval da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa).
Por baixo das plumas e dos paetês, dos carros alegóricos impressionantes de tão belos e engenhosos, a questão básica: a que serve o Carnaval? Dar representatividade e valorizar os interesses e o trabalho daqueles que o fazem como missão de vida ou encher os cofres daqueles que o exploram e financiam visando, no fundo, ao lucro? Sob que ponto de vista se conta essa história?
Mangueira arrebatadora
Entre os nove quesitos que decidem a disputa, não está a emoção. Se estivesse, a Estação Primeira de Mangueira já poderia se considerar campeã de 2019. A verde e rosa arrebatou o público com uma homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada há quase um ano, em 14 de março de 2018, numa execução em que ainda não se sabe quem foi o assassino nem o mandante.
Foi o desfile que mais comoveu a plateia, ao contar uma "nova" história do Brasil, reverenciando heróis populares em detrimento das personalidades que constam dos registros históricos. Dom Pedro I foi retratado com roupa de presidiário, enquanto índios e negros que lideraram revoltas contra a escravidão foram cultuados.
A intenção do enredo foi mostrar a participação de líderes populares que influenciaram a história do Brasil e não têm suas realizações contadas nos livros. Neles, personagens negros, índios, com destaque também para mulheres como Marielle, Maria Felipe Oliveira, que liderou a resistência aos portugueses na Bahia, e Luiza Mahin, líder do levante dos Malês, de africanos escravizados.
Marielle foi homenageada na abertura e no encerramento, com sua mulher, Mônica Benício, participando do desfile. Colunista do JORNAL DO BRASIL, Hildegard Angel foi destaque em carro alegórico que criticava a ditadura. O irmão de Hildegard, Stuart Angel, foi morto durante a ditadura e seu corpo jamais foi localizado, e sua mãe, a estilista Zuzu Angel, foi morta num acidente de carro em circunstâncias que levaram a suspeita de que também foi um crime político.
A "Mangueira foi Mangueira", como dizem os especialistas quando a Estação Primeira desfila mantendo a tradição à história e a suas raízes. Ao final, foi saudada com gritos de "é campeã", das arquibancadas populares da apoteose, na área de dispersão. Até a entrada da Mangueira não houve outra escola que tenha provocado a reação do público nos desfiles deste ano.
Vila Isabel suntuosa
A Unidos de Vila Isabel trouxe a família real e a cidade serrana de Petrópolis à Marquês de Sapucaí. Com o enredo "Em nome do pai, do filho e dos santos a Vila canta a cidade de Pedro" e assinatura do carnavalesco Edson Pereira, a azul e branca do bairro de Noel narrou os tempos áureos da cidade serrana, morada de verão de Dom Pedro II e descendentes, entre eles a Princesa Isabel.
O enredo promoveu o encontro da cidade imperial com a comunidade do Morro dos Macacos e teve seu desfile iniciado por uma visita ao Museu Imperial, principal ponto turístico da cidade serrana. O palácio foi retratado pela comissão de frente, em que estátuas se moviam e convidavam o público a entrar. No abre-alas, três luxuosos carros acoplados representavam cavalos puxando a carruagem e a coroa real, seguidas por alas que retratavam a corte e os anjos a acompanhar São Pedro de Alcântara, antigo padroeiro do Brasil Imperial.
Da opulência da coroa, o desfile seguiu para a beleza natural da serra que já pertenceu aos índios. O desfile passou ainda pela chegada dos imigrantes europeus e árabes à região, à ferrovia e à presença da cidade nos primeiros passos brasileiros no cinema.
No último setor, o desfile lembrou o papel da Princesa Isabel na assinatura da Lei Áurea. Ao contrário da Tuiuti no ano passado, que fez uma leitura crítica da participação da princesa no processo da abolição da escravatura no Brasil, a Vila optou por enaltecer Isabel.
Em seu belísimo desfile, a escola falou também da luta por justiça e contra a desigualdade racial, e a família de Marielle esfilou no último carro. A irmã, o pai e a filha da vereadora levavam uma faixa onde estava escrito "Marielle Presente", e a irmã Anielle se emocionou ao comentar o desfile em um carro que representou uma das bandeiras que Marielle defendia: "Estar aqui com o povo negro foi muito forte. Ela [Marielle] era isso. Era carnaval. Não tem jeito de não ficar com um nó na garganta".
A Vila Isabel correu contra o tempo, mas não conseguiu encerrar o desfile no limite de 75 minutos o minuto excedente pode render penalidade de 0,1 ponto percentual na pontuação. Apesar do contratempo, o carnavalesco Edson Pereira considerou o desfile um sucesso: "Até se [o atraso] comprometeu, nossa satisfação foi ter feito um carnaval de qualidade e mostrar para a comunidade que a gente está vivo". (Com Agência Brasil e Estadão Conteúdo)