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'Exército matou meu filho', diz mãe de catador morto por militares ao socorrer família

Aparecida Macedo afirmou que o Exército não prestou nenhuma assistência à família após o crime

Jornal do Brasil ITALO NOGUEIRA

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A mãe do catador de material reciclável morto por militares na zona oeste do Rio de Janeiro, Aparecida Macedo, afirmou nesta sexta-feira (19) que o Exército não prestou nenhuma assistência à família após o crime.
Segundo Aparecida, Luciano Moraes construiu um barraco próximo ao local em que foi fuzilado por militares. Ele se dizia seguro por estar próximo de uma unidade militar.
"Ainda falei para ele: 'Vai fazer barraco aí?'. Ele disse: 'Fica calma coroa, o Exército está ali. A gente está seguro'. O Exército matou meu filho. O Exército matou meu filho", disse a mãe durante o enterro de Luciano nesta sexta.
A fala da mãe da vítima contrasta com a do presidente Jair Bolsonaro (PSL), para quem "o Exército não matou ninguém".
"O Exército não matou ninguém, não, o Exército é do povo. A gente não pode acusar o povo de ser assassino não. Houve um incidente, houve uma morte, lamentamos a morte do cidadão trabalhador, honesto, está sendo apurada a responsabilidade", disse o presidente da República, há uma semana, no dia 12, cinco dias depois da ação militar.
Aparecida se queixou ainda do fato dos militares não terem prestado qualquer assistência à família durante os 11 dias de internação de Luciano. Ele morreu nesta quinta (18).
"Foi uma covardia o que fizeram com meu filho. Eles não foram me perguntar nem se precisava de um copo d'água", disse.
O catador de material reciclável Luciano Moraes morreu na madrugada desta quinta (18), depois de passar 11 dias internado no Hospital Carlos Chagas em razão dos tiros disparados por militares do Exército no último dia 7.
A morte de Luciano é a segunda em decorrência da ação dos militares em Guadalupe, próximo à Vila Militar. O músico Evaldo Santos Rosa morreu no local após ser atingido.
O catador foi alvejado ao tentar salvar os familiares de Evaldo, que estavam dentro do carro fuzilado. O veículo levava cinco pessoas, entre elas uma criança de sete anos. Era uma família a caminho de um chá de bebê numa tarde de domingo.
O sogro de Evaldo, Sérgio de Araújo, foi ferido e teve alta do Hospital Albert Schweitzer. A mulher, o filho e uma amiga do músico não se feriram.
Nove militares estão presos preventivamente em razão da ocorrência.
Inicialmente, o Exército afirmou que disparou contra um veículo roubado cujos ocupantes dispararam contra a patrulha. Apenas no fim de domingo foi informada a abertura de uma investigação.
A mulher de Evaldo, Luciana Nogueira, afirmou em depoimento ao Ministério Público Militar que não ouviu qualquer disparo antes dos tiros atingirem o veículo em que estava sua família.
Segundo a viúva, o carro trafegava em velocidade lenta, a cerca de 20 km/h, em razão de um quebra-molas próximo ao local dos disparos.
A partir dessas informações, o Ministério Público Militar poderá individualizar as condutas dos acusados em uma eventual denúncia contra os suspeitos. O promotor Luciano Gorrilhas disse na semana passada que viu potencial para que os militares sejam denunciados por homicídio doloso e por tentativa do mesmo crime contra os outros ocupantes do carro, que sobreviveram.
Por sua vez, o defensor dos militares, o advogado Paulo Henrique Pinto de Mello, acusou o promotor de querer "subverter os fatos". Ele recorre pela liberdade dos nove presos.