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Moradores de Muzema, no Rio, vivem sob vigilância de milicianos

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"Prezado condôminos [sic], queremos informar para aqueles que ainda não contribuem com as mensalidades do condomínio", diz uma placa na entrada do Figueira.

A partir de janeiro, segundo o informe, todos teriam que pagar mensalidades de R$ 60 (apartamento) ou R$ 100 (casa). Para cada dia de atraso, R$ 1 extra.

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Prédios desabam na comunidade da Muzema (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Foi neste condomínio em Muzema (comunidade vizinha à Barra da Tijuca, na zona oeste carioca) que dois prédios desabaram na sexta (12). Bombeiros ainda buscavam moradores soterrados, com ou sem vida, neste domingo (14) de chuva.

Até o começo da noite, nada encontraram. Os últimos corpos resgatados, na véspera, eram de uma mãe, a diarista Zenilda Amorim, e seu filho Ruan, 10.

Corrente de oração de missionários da Universal em Muzema, região dos prédios desabados no Rio Com os dois, subiram para nove as vítimas, fora 15 desaparecidos, o desastre ocorrido numa área dominada pela milícia. E uma marca dela por ali, moradores disseram à reportagem, era justamente aquelas "mensalidades". Ninguém quis se identificar, porque todo mundo sabia: com miliciano não se brinca.

Os edifícios que colapsaram eram irregulares, como muitas das construções na área. Um dos campos de atuação da milícia é justamente grilagem de terras e exploração imobiliária ilegal. Quem vive ali pode não pagar IPTU, mas paga para os "donos do pedaço", afirmam.

Eliane Claudia de Lima, 41, e a filha Júlia Carolina, 14, são voluntárias em Muzema Em janeiro, a operação Intocáveis mirou líderes milicianos que controlavam Muzema e a vizinha Rio das Pedras. Um deles: o ex-PM Adriano da Nóbrega, que foi colega de batalhão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) investigado pelo Ministério Público. O próprio Nóbrega já foi homenageado pelo filho do presidente Jair Bolsonaro.

O trabalho de repórteres que acompanham a tragédia é sempre filmado por alguém com celular. Alguns moradores sustentam que não seriam apenas curiosos, e sim "olheiros" da milícia. O interesse é saber o que as pessoas estão falando sobre o que aconteceu –a Polícia Civil investiga quem seriam os responsáveis pelo terreno.

"Onde o poder público não atua, atua o poder paralelo", diz a advogada Maíra Lima Vieira, 36.
Desde o temporal que alagou o Figueira dias atrás, ela ligou "20, 30, 50 vezes" para órgãos da prefeitura darem um jeito na lama e nos entulhos que continuam amontoados a céu aberto.

Maíra mora num prédio vizinho aos dois que desabaram. Só subiu para pegar uma mala, um guarda-chuva e uma bolsa com estampa de araras. Edifícios no entorno, como o seu, estão interditados, e três deles já tiveram a demolição anunciada.

Mas a advogada não gosta da ideia difundida na esteira da tragédia de que "todo mundo aqui é miliciano, espertalhão". Não é, diz. "Se tem miliciano, tem um só. A maioria é trabalhador. [...] Quem tem um milhão não mora aqui, mora no Leblon, em Ipanema."

Conta que pagou R$ 200 mil pelo seu imóvel. Outras unidades por perto custam menos da metade disso, preços abaixo do valor do mercado. Uma tática dos donos dos terrenos seria incentivar a ocupação de prédios ainda em obras, para impedir eventuais interdições por agentes públicos. Há várias placas de "vende-se" no condomínio, repleto de antenas de telefônicas e TV a cabo.

O trabalho dos bombeiros atraía de tudo. Parentes à espera de notícias dos desaparecidos. Moradores do Palace 2, edifício que tombou no Rio 21 anos atrás. Voluntários que serviam café e refrigerante a todos, como Julia Carolina, 14, e sua mãe, a doméstica Eliane Cláudia, 41.

Ela dormiu na "patroa", no Leblon, no dia do dilúvio que pode ter ajudado a fragilizar a estrutura dos edifícios desabados. Mas diz não ter medo de morar tão próxima a uma encosta, e em condições questionáveis.

Muitas fachadas são bem ajeitadas, verdade, mas é possível ver, por portas de garagem aberta, estruturas que lembra uma obra inacabada. "Botei isso na cabeça: a gente só morre no dia que tem que morrer", diz Elaine.

Fornecedores da marca Gelo do Hulk, usada para resfriar bebidas de bombeiros, se misturavam a missionários evangélicos. "Show da fé" e "discípulo radical" eram algumas das inscrições nas camisas desses grupos, que ofereciam pão com mortadela e até quentinhas doadas para os que trabalhavam ali, de bombeiros a jornalistas.

Dezenas de obreiros da Igreja Universal chegaram no meio da tarde e abriram uma grande roda, um pastor no meio dela. A oração por ele puxada pedia para que Deus abençoasse desabrigados, familiares de vítimas e também o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, sobrinho do bispo Edir Macedo criticado por sua conduta nas chuvas da semana passada.

O clima de solidariedade predominava, mas havia em paralelo uma disputa velada pelo território. "Chegou tarde, querida", disparou um evangelizador de outra igreja ao avistar a trupe da Universal.

Presidente da associação de vítimas do Palace 2, Lauriete Barbosa Guedes perdeu oito amigos, o número de vítimas da tragédia dos anos 1990. Dizia estar ali por se sentir solidária às famílias de Muzema. Mas não portava boas novas. Para ela, um desastre desses é difícil de superar. "O nosso tem 21 anos, mas é como se fosse hoje. Não vai passar, não."

A advogada Maíra acompanhou da janela o pânico dos vizinhos. "Foi terrível ver pessoas se machucando, muito triste mesmo ver a vida se esvaindo em questão de segundos."