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'Não vai passar, não', diz moradora do Palace 2 a famílias de prédios desabados no Rio

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Há 21 anos, foi com eles. Neste domingo (14), terceiro dia de buscas por desaparecidos nos destroços de dois prédios que desabaram em Muzema, moradores do Palace 2 foram prestar sua solidariedade.

As duas regiões são vizinhas, na zona oeste do Rio. O Palace 2 desabou no dia 22 de fevereiro de 1998, no Carnaval, numa área mais endinheirada da Barra da Tijuca.

Já Muzema vive sob influência da milícia, um poder paralelo associado a construções irregulares, como as que caíram.

Presidente da associação de vítimas do Palace, Lauriete Barbosa Guedes conta que perdeu oito amigos, o número de vítimas da tragédia dos anos 1990. Muzema já contabiliza nove, fora os desaparecidos.
"Por segundos eu tava perdendo meu filho. Deus poupou", diz.

A mãe foi passar o feriado carnavalesco em Araruama (RJ), mas ele ficou. Era estudante de medicina e tinha plantão, como residente no hospital Lourenço Jorge -um dos que, 21 anos depois, receberam feridos de Muzema.

Farmacêutico industrial aposentado, Sebastião Rodrigues disse que ainda há R$ 180 milhões de indenizações devidas a 122 famílias do Palace. Um outro desafio, portanto, é o amparo de quem ficou com a vida, mas perdeu todo o resto, afirma.

Para Lauriete, um desastre desses é difícil de superar. "O nosso tem 21 anos, mas é como se fosse hoje. Não vai passar, não."

PALACE 2

No dia 22 de fevereiro de 1998, o edifício Palace 2, desabou parcialmente, causando a morte de oito pessoas e deixando 130 famílias desabrigadas. Seis dias depois, após ocorrer outro desabamento, o restante do prédio foi implodido.

O edifício havia sido erguido pela construtora Sersan, que pertencia ao então deputado federal Sérgio Naya.
Após o desabamento, Naya foi expulso do PPB -partido ao qual pertencia na época-, cassado pela Câmara dos Deputados e proibido de exercer a profissão de engenheiro pelo Crea (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) do Estado do Rio de Janeiro. Também teve seus bens e os das empresas que dirigia embargados pela Justiça.

De acordo com o Crea, o desabamento ocorreu devido a falhas no projeto de dois pilares e a uma suposta má execução da obra.

Segundo laudo do ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli), 78% dos pilares do edifício haviam sido construídos com coeficiente de segurança abaixo do estabelecido pela Associação Brasileira de Normas Técnicas.

Também foram encontrados em quatro pilares de sustentação pedaços de madeira, sacos de cimento, jornal e plástico misturados ao concreto.

Em dezembro de 1999, Naya foi preso em Brasília, acusado de ser responsável pelo desabamento, e transferido para a carceragem da Polinter, em Benfica (zona norte do Rio de Janeiro). O ex-deputado foi solto após ficar 26 dias detido.

Em maio de 2001, Naya foi absolvido pela Justiça, assim como o engenheiro de campo da obra, Sérgio Murilo Domingues. Apenas José Roberto Chendes, que havia feito os cálculos do projeto, foi condenado a prestar serviços à comunidade.

Em 2002, os advogados do ex-deputado e vítimas do Palace 2 firmaram acordo para o pagamento de indenizações.

Antes da tragédia, o Palace 2 já era objeto de processos judiciais por suposta má qualidade na construção. O prédio não havia recebido o Habite-se (autorização de ocupação) da Prefeitura do Rio e tinha rachaduras e infiltrações.

Naya foi encontrado morto em fevereiro de 2009 em um quarto do hotel Jardim Atlântico, em Ilhéus, no Sul da Bahia.