Jornal do Brasil

Rio

Marinete da Silva: "O encontro com papa Francisco foi grandioso para nós"

Mãe de Marielle Franco faz balanço um ano após sua morte, e confessa: 'Sonho com ela todos os dias'

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

Nascida em João Pessoa, capital da Paraíba, de uma família com dez irmãos, Marinete da Silva, advogada aposentada ainda na ativa, chegou ao Rio com 26 anos e hoje está com 67. De formação católica, casou-se com o hoje aposentado Francisco da Silva Neto, com quem teve Marielle e Anielle, que é professora. Marielle nasceu e cresceu na Favela da Maré, onde começou a trabalhar aos 11 anos como camelô, para ajudar os pais e pagar seus estudos. Marinete acompanhou de perto a ascensão de filha, temeu, porém, sua aproximação com o deputado Marcelo Freixo (PSOL), por conta da CPI das Milícias convocada pelo parlamentar. Entrou para a Comissão da Mulher da OAB em 2018 e, durante este ano de ausência da filha, confessou ao JORNAL DO BRASIL que sua maior emoção foi o encontro com o papa Francisco, em março do ano passado.

Macaque in the trees
Marinete da Silva (Foto: José Peres)

Qual a sua sensação, no aniversário de morte de Marielle, ao saber quem matou e quem dirigiu o carro onde foi cometido o crime? Acredita que o nome do mandante e a causa do crime virão à tona?

É fundamental que se chegue aos nomes dos mandantes e seja descoberta a causa do crime. Em algum momento foi dito que talvez não houvesse um mandante, não acredito, acho que teve, sim. Tem de haver um mentor para isso tudo, não se comete um crime desses aleatoriamente pelo bel prazer, por dois homens que não conheciam minha filha. Não posso acreditar que não tivesse alguém por trás.

Quais são as suas suspeitas pessoais sobre o mandante e a causa do crime?

Não tenho nenhuma suspeita, claro que não. Até porque minha filha não tinha inimigos, era uma pessoa transparente, que botava a cara todos os dias e tinha um trabalho de base. Ela não começou naquele parlamento. Nunca poderia imaginar e seria até prematuro eu falar em alguém. Temos acompanhado as investigações, as promotoras do Ministério Público chegaram à frente e têm dado respostas para a sociedade e para a família.

De tudo o que viveu após o assassinato – Marielle ganhou projeção internacional -, houve alguma homenagem que a tocou mais profundamente?

Teve sim, o encontro com o papa Francisco foi uma coisa muito grandiosa para nós. Temos uma formação católica, minha filha foi catequista por muito tempo, não poderia haver uma homenagem maior, por tudo o que ele representa no mundo, como chefe de estado e pela sua luta por uma vida melhor para o outro. Esse foi o momento mais importante para minha família durante esse ano que se passou.

Quais os altos e baixos desse ano que passou?

Foi um ano bem doloroso, muitas perguntas e respostas ainda não esclarecidas, mas foi também um ano de muitos avanços, de coisas boas que aconteceram para nós, saber que Marielle hoje não é nossa, é do mundo, é um símbolo de resistência como mulher negra, da periferia. Amanhã (hoje) vão ter manifestações por Marielle em todo lugar do mundo por conta desse ano que passou. É viver uma dor e transformar esse luto numa esperança, por tudo o que minha filha simboliza hoje, como pessoa, parlamentar e mulher negra.

O que a senhora diria a Marielle se ela lhe aparecesse hoje num sonho?

Eu sonho com ela todos os dias. Minha filha está muito presente dentro da minha casa, dentro de mim e não tem como ser diferente. Estive dia 13 de março do ano passado com Marielle bastante tempo no final da tarde, tomamos café juntas, andamos bastante pela cidade à procura de um colírio para a filha dela, que estava com conjuntivite. Marielle é presente sim, não tem como ser diferente. Aquilo foi preparado de uma maneira muito boa por Deus, eu numa pauta de advocacia e Marielle em outra pauta, do parlamento, normalmente não nos encontrávamos em períodos assim, não dava para a gente se encontrar.

E como está a filha de Marielle, Luyara, que mora com a senhora?

Ela está bem, com 19 anos. Tem que ser cuidada, por questões óbvias, porque perdeu a mãe da forma que ela perdeu. Foi também uma amiga, Marielle a teve muito cedo. Estamos construindo uma boa dignidade para ela.

Qual foi a sua sensação quando aquele grupo de candidatos a cargos políticos pelo PSL quebrou publicamente a placa que seria instalada em homenagem a Marielle?

Foi um episódio muito ruim, uma falta de respeito com minha filha, com o seu nome. Seria algo simbólico que seria retirado dali, um ataque à família, eles sequer conheciam minha filha. Foi uma falta de sensibilidade com o outro, porque minha filha não está aqui para se defender, muito feio para eles, que se elegeram e ganharam ponto por conta do que a gente vive hoje politicamente no Rio de Janeiro. Foram eleitos, e muito bem eleitos, mas é degradante, até porque estavam pleiteando um cargo público, não deviam fazer isso com placa de ninguém, sobretudo com a de minha filha.

Uma das supostas causas da Intervenção Federal no Rio, no ano passado, teria sido o assassinato de Marielle. A intervenção terminou e não chegou aos culpados.

A intervenção não foi boa para ninguém. Ela não somou, muito pelo contrário.

O que a senhora espera ouvir desse encontro de hoje (ontem) com o governador Wilson Witzel?

Ele se mostrou ontem (na terça-feira) uma pessoa muito boa, fez elogios à minha filha, apesar de eu não conhecê-lo pessoalmente. Esperamos que seja mais um passo para recebermos uma resposta. É necessário que as investigações continuem para apurar se há mais alguém envolvido, e eu acredito que sim, apesar das autoridades acharem que não. Não há motivo para eles terem cometido esse crime, com uma sofisticação tão grande, sozinhos. Tem um mentor para aquilo tudo. A Anistia construiu esse encontro, estou feliz por estar aqui. Pretendo pedir a ele mais ajuda, que o estado se empenhe diretamente para que possamos chegar aos responsáveis. Queremos saber mais: quem mandou e por que matou Marielle. O governador tem se mostrado sensível à minha dor. Queremos esses dois homens presos, que sejam julgados, condenados e indiquem quem mais está por trás disso tudo, da maneira como foi, não há como não ter alguém por trás.