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Adeus a Alfredinho é cercado de afeto

Roberto Herrera -
04/03/2019 - Amigos e parentes se despedem de Alfredo, dono bar Bip Bip em Copacabana.
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O adeus a Alfredo Jacinto Melo, mais conhecido como Alfredinho, dono do Bar Bip Bip, em Copacabana, que morreu no último sábado, aos 75 anos, reuniu o samba e a boemia carioca no seu velório ontem. Sambistas, músicos, jornalistas, e moradores do bairro prestaram uma última homenagem a Alfredinho reunidos em uma roda de samba. Desde 1984 dono do boteco fundado em 13 de dezembro de 1968, dia em que foi assinado o AI-5, Alfredo era amante do samba e transformou o Bip Bip num centro cultural e político de esquerda.

Durante a roda de samba, vários músicos se revezaram nas homenagens. Muitas pessoas choravam e se abraçavam. Ao final das músicas, havia aplausos e dedos estalados assim como Alfredinho gostava que fosse feito no bar, para que as pessoas evitassem fazer barulho e a música despertasse incômodo em algum vizinho chato e foram muitos. O caixão de Alfredinho foi velado no pequeno estabelecimento de 18 metros quadrados e coberto com as bandeiras da Mangueira e do PT.

Para o deputado Marcelo Freixo (PSOL), Alfredinho deixa um grande legado de amor pelo Rio e pela democracia: "Não é só a saudade de quem a gente perdeu, mas uma saudade do que a gente não quer perder. O Bip Bip é um lugar de afeto onde as pessoas gostam de se encontrar".

O jornalista Marceu Vieira, que escreveu o livro "Bip Bip, um bar a serviço da alegria" em conjunto com Chico Genu e Luis Pimentel, lembra que Alfredinho era uma pessoa solidária que agia silenciosamente: "O Rio perdeu um anjo da guarda e o Brasil perdeu um sonhador. Pessoalmente na minha vida, é como se eu estivesse perdendo meu pai. Há muitos anos a gente se conheceu aqui, e ele me escolheu como filho e me apresentava como filho pra todo mundo. Nos conhecemos há mais de 30 anos".

O músico Chico Nogueira, que frequenta o bar desde os anos 2000, disse que o velório de Alfredinho representava o que ele conseguia fazer no local: "Estamos vendo aqui a união de todas as pessoas".

Segundo a sobrinha de Alfredo, Maria de Fátima Paiva, 63 anos, ele morreu de parada cardíaca enquanto dormia. Duas de suas irmãs, com 89 e 87 anos, participaram do velório. Alfredinho, era o irmão mais novo de sete filhos. Era solteiro e não deixou filhos. "É muito confortante para a família ver como ele era amado por todos. Essas pessoas que aqui estão também representavam para ele uma grande família. Ele era uma pessoa muito generosa, espiritual e materialmente", disse Maria.

Muitos compareceram ao velório fantasiados. O nome de Alfredinho era chamado, e as pessoas respondiam "presente". Também eram ouvidos gritos de "Lula Livre". Uma coroa de flores foi enviada pelo PT, com a inscrição "Você é mais uma estrela a brilhar no céu" assinada por "Lula, Gleisi Hoffman e os amigos do Partido dos Trabalhadores".

O padre José Roberto, da Igreja da Ressurreição, fez a missa de corpo presente no Bip Bip. As pessoas rezaram o Pai Nosso e cantaram "Tristeza". Logo após, o corpo seguiu em cortejo até o carro fúnebre. O enterro foi no Cemitério São João Batista. Na despedida, enquanto o caixão era levado para o carro, foi cantado o samba da Mangueira, os hinos da Internacional Socialista e do Botafogo.