Rio

O bloco da faxina no mangue

Grupo dedicado ao reflorestamento urbano se mobiliza para retirar lixo de um manguezal recém-descoberto na enseada de Botafogo

Às vésperas do carnaval, um grupo evoluiu ontem sem samba de enredo ou cuíca, porém, com muita força de vontade e ideologia. Eles passaram a manhã removendo lixo da enseada de Botafogo, na Zona Sul, no local onde o arquiteto José Guimaraens, especializado em paisagismo, flagrou o nascimento de um manguezal. Era o início do ano, quando Guimaraens, coordenador do grupo Reflorestamento Urbano, dava sua habitual corrida pelo Aterro do Flamengo. De repente, se deparou com a boa nova: exemplares de Rhizophora mangle, as plantas que originam os manguezais, brotaram em meio a pedras e lixo daquela orla degradada. De onde surgiram essas plantas é uma pergunta para a qual o paisagista ainda não tem uma explicação.

Por isso mesmo, o grupo instalou ali uma placa, alertando não apenas a população para o fenômeno, como também os funcionários da Comlurb, para que ninguém seja surpreendido com alguma indesejável destruição daqueles arbustos que podem chegar a 5m de altura. O Reflorestamento Urbano, por sinal, nasceu há quatro anos "para preencher lacunas deixadas pela Fundação Parques e Jardins. Eles não têm um mapeamento das árvores da cidade e quem as corta é a Comlurb, que vem cometendo uma série de podas equivocadas. Eles deixam apenas tocos dos troncos, em vez de fazer podas transversais", lamenta Guimaraens.

Macaque in the trees
O grupo de voluntários se reuniu, ontem de manhã, para recolher lixo acumulado na enseada de Botafogo, onde a formação de um manguezal pode melhorar a qualidade da vida marinha local (Foto: Marcos Tristao)

Quem bateu ponto para prestigiar a iniciativa de ontem foi a presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Chiaradia. "Para nós, o surgimento desse mangue foi uma boa surpresa, ver a natureza reagindo, querendo ressurgir nessa costa tão degradada. Damos apoio ao movimento e faremos tudo para que o que se fez aqui seja algo construtivo", afirmou.

Foram necessários muitos sacos para recolher o lixo espalhado, contudo, todos ali tinham a consciência de que se tratava de uma ação simbólica, porque na primeira maré cheia a sujeira volta, sem trégua. Guimaraens ressaltou que o Parque do Flamengo, projeto desenvolvido pelo paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994) em área de aterros sucessivos, com 1.200.000m², inaugurado em 1965, ficou inacabado naquele ponto. "Era para ter mais árvores nesse trecho", observou. Contudo, ele não tem a menor dúvida de que Marx, ecologista como foi, ficaria satisfeito com o inusitado uso daquele trecho específico. E avisou: "Não vamos pedir autorização a ninguém. Trata-se de um nítido caso em que a natureza pede socorro".

Cinturão protetor

A limpeza de ontem deu a largada ao projeto do grupo Reflorestamento Urbano. Dentro de um mês, o próximo passo é plantar mudas de bromélias, cactus e outros arbustos típicos de restinga, que serão adquiridas em Guaratiba, na Zona Oeste, no entorno daquele trecho hoje ocupado por um gramado , como uma espécie de cinturão protetor do mangue nascente. Para isso, o grupo já arrecadou R$ 500 em vaquinhas virtuais, suficientes para a aquisição.

E para quem não tem muita ideia do que representa esse mangue ainda incipiente, Guimaraens cita o exemplo do projeto desenvolvido pelo biólogo Mário Moscatelli na Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul, cujo manguezal trouxe ao local espécies como caranguejos e frangos d'água, antes inexistentes por ali. Isso sem falar nos peixes, que não são visíveis. Outra experiência de sucesso é a APA de Guapimirim, no fundo da Baía de Guanabara, tão ou mais degradada quanto aquele canto da orla de Botafogo, que se transformou num abrigo para peixes e outros tipos de animais. "Os mangues são berços da vida marinha, fornecedores de alimentos que estimulam a procriação das espécies", explica o paisagista.

Quando nasceu o Reflorestamento Urbano que em 2018 plantou 70 árvores pelas ruas da cidade e só esse ano já plantou outras 30 , a ideia do grupo era criar micro bosques pelo Rio afora. O que eles sequer imaginavam era terem a chance de dar a largada a um novo manguezal no coração da Zona Sul. O próprio Guimaraens reparou várias tartarugas do outro lado da Baía, quando passava uma tarde próximo à bancada da Urca. Agora, a torcida é para que a bicharada se dê conta de que eles terão um novo habitat ali perto, do outro lado da baía, tão poluído quanto, entretanto, mais propício e estimulante à sua procriação.

Poda é com a Comlurb

A Fundação Parques e Jardins (FPJ) informa que o mapeamento das árvores da cidade está previsto no Plano Diretor de Arborização Urbana, que tem como prazo até 2020 para ser implementado. Já as podas passaram a ser uma atribuição da Comlurb desde 2008, pelo decreto Nº 28.981 de 31/01/2008. Com isso, informa a empresa, foram contratados engenheiros florestais e agrônomos, muitos deles provenientes da própria FPJ, que capacitaram o corpo técnico e os garis, além de adquirir frota específica para o serviço.

A Comlurb realiza rotineiramente o serviço de poda de árvores em todo o município, atendendo prioritariamente as solicitações recebidas pela Central de Atendimento 1746 da prefeitura. Todo o serviço de manejo arbóreo só pode ser realizado após vistoria e laudo fornecidos por engenheiro florestal ou agrônomo da Companhia. Mensalmente, a Comurb envia à FPJ a relação de endereços onde são efetuadas remoções e destocas (retirada de raiz e do tronco das árvores), para que a Fundação analise a possibilidade e providencie o replantio. Todos os garis que atuam neste setor, ainda segundo a Comlurb, são habilitados para o manejo arbóreo e de equipamentos para realização do trabalho, por meio de cursos com engenheiros agrônomos e florestais. Todos os serviços são feitos com a orientação desses profissionais.

Em média, a Comlurb recebe cerca de 2.800 solicitações por mês de manejo arbóreo através do sistema 1746 da prefeitura. Os bairros mais demandados são Grande Tijuca, Leblon e Campo Grande. São realizados, em média, 3.000 manejos arbóreos por mês em 16 veículos, por 300 empregados.