Rio

Torreões remanescentes da cidade, concentrados em Santa Teresa, são testemunhos de época que não existe mais

Castelos sempre povoaram o imaginário infantil e, na maioria das a fantasia dos príncipes e princesas que viviam naqueles cenários mágicos - com a promessa do 'felizes para sempre' - acabou incorporada à vida adulta. Já para os adultos, contudo, talvez a ideia de poder e força predominem. Característica básica dos castelos, seus torreões são visíveis à distância. E o que não falta ao Rio são essas torres, vestígios de castelos e palácios dos séculos passados, nos mais diversos estilos arquitetônicos, concentradas em Santa Teresa, bairro no Centro que começou a nascer em 1750.

Talvez o mais popular deles, visível do perfil do morro, é o Castelo Valentim, construído pelo comendador português Antônio Valentim em 1874, com estupenda vista para o Centro e a Baía de Guanabara. A aparência atual foi adquirida nos anos 1930 pela segunda geração, o arquiteto Fernando Valentim, que trabalhou com Lúcio Costa na construção do Castelo de Itaipava, este sim, perfeito exemplar das fantasias de Walt Disney.

Com sete pavimentos interligados pelo mais antigo elevador em funcionamento na cidade, o Castelo Valentim reúne misturas de estilos sob predominante influência gótica. Suas varandas ostentam azulejos e mosaicos importados da França e de Portugal, já as luminárias são de bronze e nas paredes há arabescos tipicamente islâmicos. É um castelo por fora e condomínio por dentro.

Outro exemplar do bairro é a moradia do cônsul alemão, na Rua Cândido Mendes 704. Com suas torres cônicas e góticas, de ardósia, foi desenhado nos anos 1920 pelo arquiteto Paulo Antunes Ribeiro e comprada pelo governo alemão em 1940. A casa ganhou destaque pelo estilo festeiro do cônsul Harald Klein, que nada tem de pequeno, com seus 1,92m, como sugere a tradução de seu nome. O local virou point do corpo diplomático sediado no Rio, não se sabe, porém, se a fama foi mantida com o atual ocupante, Klaus Zillikens.

Outro exemplar com perfil visível à distância é o palacete que sedia o Centro Educacional Anísio Teixeira (CEAT), erguido em 1942 pelo banqueiro Oscar Sant'Anna. Apaixonado pelo Palazzo Vecchio, em Florença, ele fotografou todos os ângulos do castelo italiano e, quando voltou ao Brasil, encomendou uma interpretação do estilo florentino ao arquiteto Faro Filho. Importou mármore, vitrais e pedras da Europa, o que acabou atrasando a obra, por conta da Segunda Guerra Mundial. Anos depois de concluído o projeto, a família o vendeu ao Vaticano, que construiu uma igreja anexa ao imóvel, naquele mesmo estilo. Na década de 1960 o palácio virou escola.

E há ainda uma propriedade erguida em 1900 em estilo neogótico na Rua Almirante Alexandrino 301, cuidadosamente restaurada e caiada de branco em 2017. O imóvel acabou transformado em 16 apartamentos, hoje à venda.

Para o arquiteto Carlos Fernando Andrade, que aprofundou seu conhecimento sobre a história da cidade quando foi superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), não é difícil entender essa concentração de castelos em Santa Teresa. "São torres sobreviventes. A cidade inteira teve esse surto, principalmente a Avenida Rio Branco, no Centro, cheia de castelos e torres. A partir de 1929, com a inauguração do Edifício Joseph Gire, mais conhecido como A Noite - o mais alto da cidade com seus 21 andares -, as torres passaram a ser substituídas pelos arranha-céus."

Fora desse roteiro, o maior destaque da cidade é o Castelo Mourisco, em Manguinhos, na Zona Norte, sede da Fiocruz. Atendendo ao croquis de seu idealizador, o médico e sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917), o engenheiro-arquiteto português Luiz de Moraes Júnior ergueu ali, no início do século XX, um castelo das mil e uma noites em estilo neomourisco. Na época quase à beira mar, o castelo acabou cercado por comunidades e nem por isso perdeu seu glamour, atestado da importância da saúde em qualquer que seja a circunstância.