Rio

Relatos de revolta e indignação

Parentes de rapazes mortos culpam a polícia por execução

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro esteve ontem na comunidade do Fallet, no Rio Comprido, na Região Central da cidade, para ouvir as famílias dos mortos na comunidade durante operação policial na última sexta-feira. A ação do Batalhão de Choque e do Batalhão de Operações Especiais, tropas de elite da Polícia Militar, deixou 15 mortos. O ouvidor-geral da Defensoria Pública, Pedro Strozenberg, disse que os relatos dos moradores têm a presença de sinais de abusos e violência por parte dos policiais.

“Foram relatos emocionantes de como foi a operação. Os moradores indicaram que os rapazes deveriam ter sido presos e não mortos. É difícil dizer se houve execução. Os relatos mostram a presença de sinais de abusos e violência”, disse Strozenberg.

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Defensoria Pública do Rio foi até a comunidade do Fallet para ouvir relatos de moradores sobre mortes em ação policial (Foto: Thathiana Gurgel/DPRJ)

Cerca de 60 moradores foram ouvidos pela defensoria. O defensor contou que escutou relatos em que foram relatadas frases pelos rapazes mortos, como: “Por favor, não me mata” e ainda “Perdi”. De acordo com ouvidor-geral, os depoimentos dos moradores precisam de respeito e reconhecimento, mas lembra que são necessárias provas relevantes: “As responsabilidades precisam ser apuradas. Vamos deixar esses depoimentos à disposição do Ministério Público, da Delegacia de Homicídios e da Corregedoria da Polícia Militar”, afirmou.

Ainda conforme Strozenberg, os familiares reconhecem o envolvimento dos mortos com o crime. No entanto, estão indignados pelo resultado da operação. Os moradores acreditam que a ação poderia ter sido com menor letalidade. A mãe de uma das vítimas, Tatiana Antunes de Carvalho, que esteve no Ministério Público do Rio pedindo ajuda, disse que os rapazes foram executados, que não houve troca de tiros e que seu filho morreu a golpes de faca, sem levar nenhum tiro.

Após uma informação recebida pelo Disque-Denúncia, de que vários criminosos estavam escondidos em uma casa na Rua Eliseu Visconti, no Morro do Fallet, policiais do Batalhão de Choque cercaram a residência e invadiram o local. Na casa, estavam 20 jovens, alguns deles menores de idade. De acordo com a Polícia Militar, 13 foram mortos no confronto, e alguns conseguiram escapar. Com dois corpos encontrados no domingo, subiu para 15 o número de mortos.

Em nota, a PM informou que os jovens que estavam na casa “reagiram à voz de prisão” e atiraram contra os militares. No confronto, 13 bandidos ficaram feridos e foram levados para o Hospital Municipal Souza Aguiar, na Região Central da cidade”, diz o texto.

A Anistia Internacional pediu uma investigação imediata sobre as mortes nos morros Fallet e Fogueteiro. “A Polícia Militar alega que foi recebida a tiros ao entrar na região e que as mortes foram resultadas de confronto. “Entretanto, apenas através de uma investigação imediata detalhada, imparcial e independente, é possível determinar a circunstância exata de cada uma dessas mortes”, disse, em nota, a Anistia.

A organização, que defende os direitos humanos em todo o mundo, pediu que a Polícia Civil e o Ministério Público investiguem, o mais rápido possível, essas mortes. “Assim, tanto a Polícia Civil quanto o Ministério Público, que têm a missão constitucional de exercer o controle externo da atividade policial, devem iniciar imediatamente uma investigação sobre as mortes decorrentes de intervenção policial”, completa a Anistia no comunicado. A Delegacia de Homicídios está investigando o caso e solicitou a apreensão das armas dos policiais.

Durante o velório dos rapazes no domingo passado, familares estavam revoltados e diziam que houve chacina e massacre durante a ação polical. Segundo moradores, todas as vítimas tinham entre 15 e 22 anos. De acordo com eles, o grupo, que era ligado ao crime, estava escondido no imóvel, mas pretendia se entregar. A Polícia Militar contesta a versão dos parentes das vítimas.

Segundo a PM, há uma guerra entre facções na região. No início da semana, integrantes do Comando Vermelho, que domina as bocas de fumo nas favelas Fallet, Fogueteiro e Prazeres, invadiram o Morro da Coroa. A área, até então, era dominada pelo Terceiro Comando Puro. Nos últimos dias, houve vários confrontos nessas comunidades.

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