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Crivella enterrou quase 90% da verba

Programa de controle de enchentes teve queda de 88% no orçamento na comparação entre 2014 e 2019

Tânia Rêgo/Agência Brasil -
Bombeiros trabalham na remoção de terra, árvores e lama que cobriram um ônibus na Avenida Niemeyer: duas pessoas foram encontradas mortas no interior do veículo
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Segundo dados do portal Rio Transparente, da Controladoria Geral do Município do Rio de Janeiro, o orçamento destinado ao programa de prevenção de enchentes da Fundação Rio Águas vem sendo reduzido de forma brusca pelo prefeito Marcelo Crivella. Analisando o orçamento de 2014 com o atual é possível observar uma queda de cerca de 88%. Para 2019, a previsão é de apenas R$ 75 milhões, enquanto naquele ano foi de R$ 607 milhões.

A Fundação Rio Águas tem entre suas finalidades a prevenção e o controle de enchentes no município do Rio de Janeiro. Para responder a essa demanda, foi criado, em 2012, o Programa de Controle de Enchentes, com destinação de R$ 243 milhões para o ano seguinte. O valor gasto foi um pouco superior, R$ 288 milhões.

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Bombeiros trabalham na remoção de terra, árvores e lama que cobriram um ônibus na Avenida Niemeyer: duas pessoas foram encontradas mortas no interior do veículo (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil )

Em 2014, o financiamento atingiu seu auge, com R$ 607 milhões destinados. A Rio Águas utilizou, porém, menos da metade do orçamento (R$ 294 milhões). Entretanto, essa situação é bem diferente da atual, em que a prefeitura destinou somente R$ 75 milhões para o programa — uma queda de 88%. No ano passado, dos R$ 115 milhões previstos, foram usados somente R$ 66 milhões (57%), enquanto em 2017 — primeiro ano de gestão de Marcelo Crivella — a prefeitura só investiu R$ 14 milhões (7,4%) de R$ 188 milhões no controle de enchentes. A Rio Águas está sem presidente desde a exoneração de Cláudio Dutra, no início de janeiro.

Mesmo ampliando a ótica sobre o orçamento para o controle de enchentes, incluindo verbas para sistemas de drenagens, saneamento e proteção encostas, também houve redução nos investimentos, segundo o “Portal G1”. Comparando os valores executados em 2018 com os de 2013, houve uma queda de 58%. Há cinco anos, a prefeitura desembolsou R$ 531 milhões — incluindo o programa específico para prevenção das enchentes —, enquanto no ano passado Crivella só gastou R$ 224 milhões. O auge do valor investido nessas obras foi em 2016, ano Olímpico, em que a gestão de Eduardo Paes aplicou R$ 724 milhões .

Em entrevista coletiva, o prefeito justificou a redução de investimentos na rubrica devido à queda na arrecadação do município e pontuou que tem tomado outras medidas contra as enchentes que não apareceriam nesses números. “A crise financeira que a cidade enfrenta é grande. Tivemos queda de arrecadação e falta de empregos, além de uma dívida imensa por causa da Olimpíada. Mas não fazemos o combate às enchentes só com o orçamento do programa”, disse.

Apoiadores do prefeito festejam um suposto aumento no valor previsto no orçamentária para o setor. Segundo levantamento do vereador Luiz Carlos Ramos Filho (Pode), a verba para “gasto com prevenção de enchentes” vai subir de R$ 207 milhões para R$ 366,5 milhões. Procurado pelo JORNAL DO BRASIL para explicar os parâmetros adotados, o vereador não respondeu.

Vereadores se revoltam

Outros legisladores subiram o tom contra o prefeito nas redes sociais devido aos cortes no programa de redução de enchentes. Teresa Bergher (PSDB) disse em seu Facebook que o Ministério Público chegou a ser acionado contra a prefeitura e pediu para Crivella “se recolher”. “Espero que o senhor se recolha em 2020 e não pense em participar de eleições!”, disse.

Outro que criticou Crivella foi Reimont (PT). Segundo o vereador, o discurso de “cuidar das pessoas”, lema de campanha do atual prefeito, tem se mostrado “um engodo” e ele tem, sim, responsabilidade no caos provocado pelas fortes chuvas. “A prefeitura está muito negligente. Isso não dá conta de dizer que o Crivella é o único culpado das mortes e das enchentes, mas também não podemos aliviar. A prefeitura tem culpa, e a cidade paga um alto custo, inclusive com vidas”, afirmou ao JB.

Para Reimont, a negligência da prefeitura está tanto na questão orçamentária quanto na política. “Houve diminuição tremenda dos recursos do programa de controle de enchentes. Isso implica que, quando vêm chuvas torrenciais, como as de quarta-feira, não há as devidas condições de escoamento, as devidas condições de prevenção de desastres com vítimas fatais. Além disso, desde janeiro a Rio Águas, que cuida das enchentes, está sem presidente”, criticou.

Número do Caos

SEIS

pessoas morreram no temporal que atingiu o Rio de Janeiro na noite de quarta-feira. Isabel Martins da Paz, de 56 anos, e o filho Mauro Ribeiro da Paz, de 33, morreram no desabamento da casa onde moravam em Barra de Guaratiba — seu marido Áureo e filho, Arthur Paes, foram interndos no Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Outra morte foi confirmada na Rocinha, após um deslizamento — o homem que apareceu em vídeo sendo levado pela enxurrada foi socorrido e passa bem. O quarto óbito ocorreu no Vidigal. E um homem e uma mulher morreram dentro do ônibus soterrado por um deslizamento — o motorista da Viação JAbour chegou a ser atendido em um hospital, porém não sofreu ferimentos..

116km/h

foi a velocidade dos ventos registrada na Restinga de Marambaia — a partir de 118km/h, os ventos passam a ser considerados um tornado, com altíssimo poder de destruição, inclusive o de arrancar árvores. No Forte de Copacabana, os ventos chegaram a 110km/h.

170

foi o número de árvores que caíram na cidade. Só na Rua Pereira da Silva, em Laranjeiras, foram três, que atravessaram a via e impediram o trânsito de veículos durante toda a manhã e continuava interditada à noite. A Comlurb já retirou 81 árvores. Seis postes também foram derrubados.

35

pontos de alagamento foram registrados no Rio.

OITO

ruas e avenidas tiveram o trânsito interrompido..

88 mil

pessoas ficaram sem luz em 11 bairros da cidade, a maioria na Zona Oeste.

162,2mm

foi o volume de chuva registrado no Vidigal. Em seguida, vieram Rocinha (153,2mm); Alto da Boa Vista (141,1mm); Barra/Barrinha (143,2mm); Jardim Botânico (128,2mm); e Riocentro (112,4mm).

300

foi o número de vezes em que os bombeiros foram acionados.

104

chamadas foram recebidas pela Defesa Civil para vistorias em áreas e residências afetadas ou de alguma forma ameaçadas pela chuva.

* Sob supervisão de Clóvis Saint-Clair