Rio

"Os alunos não aprendem", alerta Patrícia Lins e Silva em entrevista

Diretora da Escola Parque afirma que é um erro se preocupar com ideologia

No primeiro dia útil do ano, a área pedagógica da Escola Parque, criada em 1970 na Gávea, Zona Sul do Rio, enviou uma carta ao ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, alertando sobre as ameaças de retrocesso neste fundamental setor para o futuro do país. Até agora sem resposta. A ideia era contribuir para a discussão e apontar os reais problemas brasileiros na educação. Formada em Ciências Sociais, Biologia, Letras, Filosofia e Pedagogia, a iniciativa foi liderada pela diretora de pedagogia da escola, Patrícia Lins e Silva, 73, que se orgulha em integrar a geração que transformou o mundo no século 20, brigou pelas liberdades e sonhou com um planeta mais justo, onde ninguém seria oprimido nem passaria fome e sede ou careceria de afeto. Na entrevista abaixo, Patrícia reflete sobre os principais tópicos da carta enviada ao ministro e sobre o futuro da educação.

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"O que existe é a dificuldade dos alunos em aprender. Para isso os professores não precisam de vigilância, mas de formação e valorização" (Foto: Divulgação)

A senhora diz que o maior problema das escolas não é a ideologia política. O que mais aflige o setor no país?

O maior problema é que os alunos não aprendem. Eles precisam aprender a ler e ler é compreender o significado de um texto. É interpretar um texto. Os alunos precisam aprender lógica e a matemática é uma base para a lógica. Não adianta decorar equações. Muitas crianças vivem em lugares culturalmente pobres, a Unesco tem um estudo sobre a necessidade de a criança ter um ambiente letrado até os 6 anos, chegou-se até a discutir sobre a entrada na escola antes dessa idade, por se tratar de uma fase muito importante da evolução. É preciso entender como funciona a cabeça da criança, cada uma reage de forma diferente à mesma matéria..

Qual a sua maior crítica ao “Roteiro para o MEC”, idealizado pelo novo ministro da Educação?

Partir do princípio de que há uma “cultura marxista” nas escolas é não enfrentar o problema real de aprendizagem dos alunos. Falar de um “cientificismo” como um problema, quando se sabe que o século 21 é o século da ciência, quando se propõe a educação STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática) como saída para viver no novo século, soa completamente ultrapassado. O que existe, de fato, é a dificuldade dos alunos em aprender, e para isso os professores não necessitam de vigilância, e sim de formação e valorização. É descabida a preocupação do ministro “com uma estrutura armada para desmontar valores tradicionais da nossa sociedade, da família, da religião, da cidadania, em suma, do patriotismo”.

Como vê a “Escola sem Partido”?

Pelo que leio, não são profissionais da educação, mas amadores sem conhecimento do que se pensa universalmente sobre a educação escolar hoje. Ela não está atualizada com as pedagogias contemporâneas, discutidas e estudadas em todos os países do mundo, preocupados em formar gerações que consigam interpretar a realidade, inclusive para lidar com as radicais transformações do mundo digital.

Qual o papel da escola e da família na educação das crianças?

Escola e família são complementares. A escola faz a educação formal, a que prepara as gerações mais novas para viverem na sociedade a que pertencem. A família educa conforme seus parâmetros, numa relação com a escola. A escola não é a família. Na escola, os alunos aprendem a dividir atenção, a compartilhar conhecimentos, a agir levando em conta o outro.

E o papel da educação moral?

O desenvolvimento moral é inseparável do intelectual. O conhecimento faz parte da moral. Quando pensamos em como devo agir, estamos pensando em moral. Os alunos na escola discutem questões morais em grupo. A discussão é que leva à consciência do comportamento. Agi mal, como posso reparar, preciso levar sempre em conta que minhas ações, que podem ser boas ou más, possam ter consequências para os outros.

Qual a diferença entre a educação moral e a moral religiosa e quais os riscos de nossas escolas deixarem se ser laicas?

A moral religiosa é imposta, não discutida, vem a partir de dogmas. Vem do exterior e não exatamente produz modificação interna no sujeito. Ele obedece por causa do castigo - o pecado. A obediência não vem da consciência de que uma regra existe porque é melhor para a convivência de um grupo. Confundir educação moral com educação religiosa só contribui para obscurecer o conhecimento e relega o aprendizado a uma pedagogia obsoleta. Seria algo inconcebível, um retrocesso se as escolas brasileiras deixassem de ser laicas. Seria andar para trás em relação a tudo o que acontece no mundo, inclusive nos Estados Unidos de Donald Trump.

Qual a diferença entre crença e conhecimento?

Quem crê acredita, sem precisar de comprovação. O conhecimento é fruto de estudo, pesquisa e reflexão. É preciso convencer pelo argumento fundamentado. Uma discordância entre diferentes crenças pode levar a rupturas graves, como guerras. Uma discordância entre conhecimentos pode levar a mais conhecimento.

Qual a sua opinião sobre a criação de Conselhos de Ética, para zelar pela “reta” educação moral dos alunos, conforme propõe Rodríguez?

Seria uma medida inteiramente desnecessária. Acredito que os professores estão preocupados com a aprendizagem de seus alunos e os acolhem com o melhor que podem. A escola é lugar de falar de alfabetização, comunicação, pensamento lógico, científico, humanidades, moral e tudo o que fundamenta o acervo cultural da humanidade.

Qual a sua visão sobre a acusação de que supostas educação de gênero e ideologia marxista estariam infiltradas nas escolas?

Esta acusação soa como um discurso anacrônico, que remete à Guerra Fria do século passado. Simplesmente desloca da questão realmente grave: a dificuldade de tornar as crianças e jovens brasileiros aprendizes eficientes, preparados para enfrentar os desafios do mundo no século 21. Não há tempo a perder com convicções vetustas como estas.

Qual a principal função de uma escola na educação infantil?

Socializar as crianças e abrigar a curiosidade natural delas, investigando o mundo e se perguntando sobre ele.