Rio

Um elo perdido em Japeri

Livro que revela morte de 5 mil chineses durante construção da Ferrovia D. Pedro II vai virar filme

A construção do ramal Japeri, na Região Metropolitana do Rio, na Estrada de Ferro Dom Pedro II, iniciada em 1855 para a futura ligação entre o Rio de Janeiro e São Paulo, deixou um triste legado, ainda desconhecido da maioria: a morte de cinco mil imigrantes chineses, por malária, febre amarela e leishmaniose, causadas pelos mosquitos que infestavam os pântanos da região. O drama foi pinçado para o livro “127 Anos de Ferrovia”, do engenheiro fluminense Eduardo Gonçalves David, 71, de 1985. Trinta anos depois, ele foi procurado por pesquisadores chineses que tiveram acesso à versão inglesa do livro, ampliado pela exploração de personagens romanceados. Ano passado, quando o produtor Luiz Carlos Barreto foi ao cônsul geral da China no Rio, Li Yang, para propor um projeto e foi informado da tragédia, “épica”. O filme, ainda sem título, primeira produção sino-brasileira, está em fase de roteirização e previsão é lançá-lo até o fim do ano.

Quando esteve em Japeri para filmar “O trem pagador”, em 1962, Barreto desconhecia não apenas essa dramática história, como o fato de existir na cidade um cemitério criado para receber estes chineses. David relata o que descobriu ao aprofundar suas pesquisas, depois de ser procurado pelos chineses: “Descobri um elo perdido nas histórias chinesa no Brasil e ferroviária. Havia descendentes. Mostraram documentos e fui na casa deles, ainda com louça chinesa antiga. Um bisavô tinha sido dono do restaurante na estação de Japeri”, recorda.

Macaque in the trees
Estação de Japeri, já bastante degradada (Foto: Divulgação; Reprodução Facebook)

Essa história toda começou em 1985, quando David, atualmente radicado na Alemanha, onde fez uma tese de pós- doutorado, se propôs a atualizar um livro publicado dois anos antes. Entre o material que recolheu para pesquisar, achou o livro de Ademar Benévolo, de 1953, “Introdução à História Ferroviária”. “Foi ali que vi uma notinha, de quatro ou cinco linhas, citando outro historiador, que relatava a morte de cinco mil chineses, contratados pelo empreiteiro inglês Edward Price para a construção da primeira seção da Estrada de Ferro D. Pedro II, a Ferrovia do Imperador”, recorda. “Hoje eu sei que usar os chamados ‘colies’ nas ferrovias era muito comum. Nos Estados Unidos, foram mais de 150 mil, principalmente na construção das ferrovias da costa Oeste.”

Os chineses trabalharam ainda na abertura da segunda seção da estrada de ferro, de São Paulo, para abrir 13 túneis entre a Serra das Araras e Barra do Piraí.

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Eduardo Gonçalves David segura seu livro, "A Mula do Ouro", que fala das mortes de chineses e dos lingotes de ouro recuperados perto do Rio Paraibuna (Foto: Divulgação; Reprodução Facebook)

Naquela época, no Brasil, a contratação de mão de obra estrangeira se dava por conta da Lei da Garantia de Juros, que proibia o uso de mão de obra cativa para este fim e não havia gente livre experiente em construção ferroviária. “Fazia sentido a decisão do inglês, encarregado de abrir uma linha de 34 milhas (ainda não se usava no Brasil o sistema métrico), da corte à fazenda de Belém, em Japeri, entre 1854 e 1858”.

Dez anos depois, ele resolveu retomar o livro e transformá-lo em um romance histórico, baseado numa lenda regional, sobre a existência de ouro perto da antiga ponte de Paraibuna, que ligava Minas ao Rio. “O que se supunha existir não eram pepitas, mas ouro em lingotes dos contrabandistas do século 16. Por não provarem que as barras estavam ‘quintadas’, ou seja, lhes faltava um selo real estampado, provando que haviam sido pagos 20% de imposto à coroa portuguesa, eles forçavam seus animais sobre a atravessar o Rio Paraibuna. Algumas mulas escorregavam nas pedras e pelo peso do ouro não conseguiam nadar. Portanto, no fundo do rio de águas escuras havia o ouro dessas mulas perdidas. Daí o título do livro “A Mula do Ouro”, editado em 2009”, relata.

Traduzido para o inglês, o livro foi mandado para a China e vertido para o mandarim. “Em Pequim, decidiram que o longa-metragem baseado no livro ‘A mula do ouro’ será a primeira coprodução sino-brasileira, do convênio celebrado em 2017. É onde entra a LC Barreto, como produtora associada no Brasil”, explica David.

Tanto quanto a trágica história dos antepassados, interessou aos chineses o personagem criado por David, o médico chinês, nascido em Macau Nuno Huang. “Como no período da construção, em 1856, ocorre a Segunda Guerra do Ópio, entre a Inglaterra e a China, Nuno perde o suprimento de remédios, à base de chás. Ele precisava achar na flora brasileira o equivalente terapêutico das ervas que não podia mais receber”, conta. O personagem tenta se contrapor às técnicas usadas pela atrasada medicina brasileira da época, que optava pelas sangrias, para eliminar ‘o sangue ruim’, e purgantes, para ‘limpar’ o corpo.

O resultado é que se o paciente não morria do tratamento, poderia até sobreviver, com alguma facilidade. “Portanto, apesar de o livro se passar no século XIX, trata de um tema atual, o conflito tecnológico. A guerra comercial China x EUA está por trás do avanço chinês em várias áreas. E é a tecnologia que muda o mundo, todo o restante (economia e sociologia) vem depois”, argumenta David.

Matança continua

E se naquela época as regiões percorridas para a construção da ferrovia eram insalubres por natureza, os mosquitos hoje continuam matando a rodo, graças a campanhas de sensibilização sem resultados para a saúde pública, ao crescimento da poluição ambiental e à falta de saneamento básico.

Já no início do século XX, a população dava mostras de sua ignorância, com a deflagração da chamada Revolta da Vacina. De 10 a 16 de novembro de 1904, houve uma rebelião contra a lei que obrigava a vacinação para erradicar a varíola, a peste bubônica e a febre amarela, providência associada às reformas urbanas do prefeito Pereira Passos, que encampou as campanhas de saneamento do médico Oswaldo Cruz.

Apesar da forte oposição e dos exaltados debates entre os legisladores e a população, a lei foi aprovada no dia 31 de outubro. Em 16 de novembro, porém, o governo decretou oestado de sítio e a vacinação obrigatória acabou suspensa. O movimento deixou um saldo de 945 pessoas presas, 30 mortos, 110 feridos e 461 deportados para o estado do Acre.

E para se ter uma ideia do quando o país continua andando para trás no combate às doenças provocadas pelo mosquito aedes aegypti - algumas delas ainda desconhecidas no país no início do século passado, como a zica e a Chikungunya -, em 2018 foram registrados no estado do Rio 39.082 casos de Chikungunya, com 18 óbitos. A dengue teve 14.763 notificações e dois óbitos, enquanto houve 2.339 casos de zica, sem mortes. Já a febre amarela, doença que deixara de ser registrada no país a partir de 1942, causou 84 mortes em 262 casos registrados.

Só no município, foram 4.993 casos de dengue em 2018, 520 de zica e quase dobrou a incidência de Chikungunya, com 9.065 casos registrados, para 1.820 em 2017. Não houve casos de febre amarela na cidade.



Eduardo Gonçalves David segura seu livro, "A Mula do Ouro", que fala das mortes de chineses e dos lingotes de ouro recuperados perto do Rio Paraibuna
Estação de Japeri, já bastante degradada