Rio

Mistério: PF não sabe onde governador escondeu suposto dinheiro desviado em propina

Pezão foi preso na manhã da última quinta-feira e passou a primeira noite na unidade prisional da PM de Niterói

O delegado federal Alexandre Bessa, responsável pela Operação Boca de Lobo, e o superintendente da Polícia Federal (PF) no Rio, Ricardo Saadi, justificaram a necessidade de Luiz Fernando Pezão ficar preso por causa da repetição da prática de crimes e pelo motivo de que os valores supostamente desviados pelo governador não foram localizados. Bessa reconheceu que os investigadores ainda não sabem o destino que foi dado a pelo menos R$ 2,2 milhões que teriam sido captados diretamente por Pezão, como parte dos cerca de R$ 40 milhões que teriam sido desviados: “Isso chamou muito a atenção da investigação porque é natural que todo mundo faça saques de sua conta-corrente e ele não faz esses saques. Ou ele deve ter dinheiro em espécie guardado ou utiliza a conta de terceiros, de outras pessoas. A gente vai continuar a investigação”.

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Pezão (Foto: reprodução)

O superintendente Saadi frisou que as investigações continuam, a partir do material apreendido nos 31 mandados de busca e apreensão autorizados ontem nos Estados do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Piraí, Barra do Piraí, Volta Redonda e Bom Jardim) e Minas Gerais (Juiz de Fora). Apesar disso, a PF ainda não conseguiu localizar os recursos que teriam sido pagos indevidamente a Pezão. “Uma das razões da prisão do Luiz Fernando Pezão foi a não localização desses valores. Então a gente precisa continuar a investigação e há a necessidade da prisão dele nesse momento”, disse o delegado.

Bessa disse que uma das possíveis vantagens recebidas por Pezão, que ainda está sendo investigada, é a automação do serviço de áudio e vídeo da casa do governador, em Piraí, no interior do estado. “A Polícia Federal está fazendo perícia para saber se, de fato, houve essa instalação, qual realmente era o valor. A gente está apurando se de fato isso era pagamento de propina ou não”.

Segundo o delegado federal, foram coletadas 22 anotações sobre Pezão. A cobrança de propina em contratos com fornecedores e prestadores de serviços — especialmente em obras de pavimentação — na média de 5% sobre os valores contratados — algumas vezes chegando a 8% —, se manteve durante a gestão Pezão e permaneceu até, pelo menos, junho deste ano, quando se iniciaram as investigações.

Bessa afirmou que análises de caixas de e-mails, de movimentações financeiras e análises fiscais apontaram que a prática continuou até o início das investigações: “Identificamos que as hipóteses levantadas pelas colaborações premiadas foram corroboradas por elementos externos e independentes. Fizemos cruzamentos de dados telefônicos de conversas do governador do estado com Luiz Carlos Bezerra, pessoa que a princípio não teria nenhuma relação de amizade ou de trabalho, mas que, nas datas que estavam mencionadas nos bilhetes, ele [Pezão] estaria recebendo alguma parcela da caixa de propina. O esquema era muito pujante até a crise econômica, mas sempre permaneceu”, afirmou o delegado, que evitou informar nomes de pessoas e empresas.

Momento político

O superintendente da PF no Rio, Ricardo Saadi, negou que a deflagração da operação a pouco mais de um mês de o mandato de Pezão terminar tivesse algo a ver com o momento político. “A PF não se baseia em momento político. Ela é sempre deflagrada quando está madura”, afirmou Saadi. Segundo ele, a questão do fim do mandato, o que levará Pezão a perder a prerrogativa de foro, não influenciou na decisão de deflagrar a operação. “A pessoa estando com foro ou não ela responde à Justiça”, afirmou Saadi, ressaltando que a PF pediria a prisão a outra instância do Judiciário, caso a operação fosse deflagrada após o término do mandato do governador.

O cientista político Carlos Eduardo Martins, professor do programa de estudos sobre Economia Política Internacional da UFRJ, destacou, porém, que “a prisão de Pezão revela o caráter tardio da ação da PF e do MP. Esperou-se que terminasse seu mandato onde assinou um acordo de recuperação fiscal lesivo aos interesses do estado, ampliou a política de isenção fiscal, arrochou e atrasou salários de servidores públicos, colocou a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) em situação falimentar, solicitasse a intervenção militar, tentasse a privatização da Cedae, para impugná-lo. Eram mais do que evidentes os indícios da vinculação de Pezão ao crime organizado, que não tinha autoridade para exercer seu mandato. O que se deve colocar é a pergunta: acão tardia da PF e do MP são sinais de cumplicidade e de prevaricação?”